Jardel Music

Música e Áudio

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Para onde vai a música em 2010?

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Há uns 10 anos atrás, com a devida lambuja para um pouco a mais ou a menos, eu li uma entrevista do Thurston Moore onde ele mencionava determinado acontecimento de sua juventude quando, perambulando pela noite novaiorquina, se deparou com um amigo compositor, um par de décadas mais velho, visivelmente transtornado, em pé entre a rua e a calçada parecedo um espantalho giratório. Indagado sobre a razão de tal transtorno, respondeu:

- Eu não sei para onde está indo a música do Século XX…

Avalie se ele tivesse encontrado com Ivinho...

Avalie se ele tivesse encontrado com Ivinho...

Nosso título de hoje vem parafraseando o anônimo compositor da história, com os sinceros votos de que agora, dado que o Século XX acabou pra valer, esteja em paz neste ou em outro mundo. Talvez a fonte de seu transtorno comece no fato de que “música” é uma palavra tão corriqueira que normalmente perdemos a noção de sua abrangência. É como a expressão “todo mundo”. Às vezes eu me pego pensando sobre como seria se essa expressão realmente traduzisse o seu sentido literal, como por exemplo no comentário: “Todo mundo vai pra festa na casa de fulaninho, pô, vamo lá”. Aí você vai pra tal festa e encontra com o presidente Obama na fila do banheiro, amparando um desabrigado do Haiti com a ajuda de voluntários de São Luis do Paraitinga e da Hebe Camargo. Todo mundo é muita gente, e Música quer dizer muita coisa.

Não é por acaso que em civilizações mais antigas a Música seja assunto dos deuses, e na nossa – a saber, ocidental e eurocêntrica – tenha justamente sido sistematizada primeiramente dentro da Igreja Católica e em seguida pelas diversas denominações protestantes – que diga-se de passagem fizeram um serviço muito melhor. A Música, assim com letra maíuscula, é muito maior do que todos nós, pois possui a capacidade de operar em diversos níveis e instrumentalizar diversos propósitos, e se faz independente da nossa predisposição indiviual de fazê-la. Nós que trabalhamos nos diversos ofícios ligados à Música por vezes acreditamos na ilusão de que ela nos pertença, cometendo o mesmo erro que um padre, um pastor ou uma mãe-de-santo cometem ao acreditar serem administradores do Divino.

A pergunta do título se desdobra em várias outras, assim como o problema que lhe dá origem não é um só. Provavelmente para nós que trabalhamos com isso, a pergunta é como vamos sobreviver, ou idealmente viver com um mínimo de conforto, de Música em 2010. E nos anos seguintes também, se não for assim tão impossível. Mas para uma pessoa que consome música, esse desdobramento da pergunta não faz muito sentido. A pergunta para esse pessoal é como eles vão ter acesso às faixas dos seus artistas favoritos. Para um jornalista que escreve sobre música, tampouco, assim como para o dono de um bar. Eles dependem da música em seus ofícios, mas estão em outros pontos na cadeia produtiva da música, um ganha salário, o outro ganha dinheiro vendendo bebida.

John Lydon, a maior prova de que quem chora direito pode mamar pro resto da vida

John Lydon, a maior prova de que quem chora direito pode mamar pro resto da vida

Outro desdobramento dessa pergunta é, para onde vai a música em 2010, esteticamente? Essa é fácil de responder, pois vai para todos os lados, como sempre foi. Durante o Século XX se estabeleceu um formato, que já vinha se consolidando há algum tempo, de canais de distribuição de conteúdo que atingiam um número gigantesco de pessoas. Esses canais – a imprensa, o rádio e a televisão – sempre estiveram condicionados a uma equação em que os altos custos de implantação, manutenção e geração de conteúdo precisavam ser subsidiados por terceiros, normalmente o Estado ou a iniciativa privada. O acesso a esses canais também sofria de limitações – poder aquisitivo, localização geográfica, pra citar alguns – e consequentemente a quantidade e a diversidade de conteúdo que poderia ser distribuído por esses canais também precisava ser limitado.

O que estas limitações técnicas e financeiras criaram em nós foi uma sensação fictícia de que diferentes tendências e gêneros não podem coexistir. Outro dia, por exemplo, no intervalo de um noticiário, um comercial do portal “Transparência Brasil” foi ao ar poucos minutos após mais um replay dos sensacionais vídeos do Governador Arruda distribuindo dinheiro dos contribuintes para seus chapas enfiarem onde bem entendiam. Na segunda metade da década de 70, em pleno auge da disco music, foram feitos discos clássicos de praticamente qualquer outro gênero musical. E o próprio Punk Rock, que no fundo não era novidade alguma, apareceu pro mundo dizendo que nada prestava. Nossa percepção do mundo à nossa volta não precisa estar condicionada àquilo que vemos na televisão, do mesmo modo que o melhor crítico musical do planeta sempre vai ter suas limitações, de tempo, de estilo, condicionadas às suas escolhas.

Euterpe, uma das responsáveis por estarmos nessa

Euterpe, uma das responsáveis por estarmos nessa

Hoje em dia não é diferente. Embora o Emocore brasileiro esteja circulando livremente pelas rádios e palcos do país, eu não sei direito a diferença entre seus principais artistas – e muito menos cantar o refrão de qualquer um dos seus sucessos. Nenhum deles figura na lista dos 10 melhores discos brasileiros de 2009 da Folha de São Paulo, que contém de fato 10 discos muito bons, mas que provavelmente não agradaram aos adolescentes que gostam dos Emos. Também não vão agradar a todos, e poderiam certamente ser substituídos por quaisquer um dos outros 100 grandes discos que certamente foram feitos no Brasil em 2009.

A boa parte destes nem eu nem você tivemos acesso, inclusive, e o importante dessa constatação é que essa comunicação em diversos níveis está acontecendo. Antes mesmo das questões mercadológicas e monetárias que nos atormentam se resolverem, há Música sendo feita e ouvida como nunca antes, e talvez seja um bom sinal que a melhor parte disso tudo não esteja vinculada aos grandes canais de distribuição. No final das contas, a Música é um canal de comunicação direto entre o músico, a obra e o ouvinte, que se estabelece no momento da audição, em tempo real. Por mais grandioso, endinheirado ou incensado que possa ser, qualquer outro elemento dessa cadeia é meramente secundário.

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February 3rd, 2010 at 7:35 pm

Diversitronica, hoje e no carnaval

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Esse é o nosso show de hoje, com o Nuda e o Volver. Segunda-feira de Carnaval a gente abre os trabalhos no RECBeat, às 20h

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January 27th, 2010 at 9:29 am

Visite a Luliândia e seja feliz

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Como já é praxe nos dias 13 de cada mês, hoje Lulina também aprontou mais uma. No caso, a inauguração oficial da Lulilândia online. O site é um ótimo exemplo de como um artista pode, nos dias de hoje, trabalhar fora dos limites do esquema disco físico / rede social sem ser redundante. A autoria é da Luci Kidaka, do Okiru Studio. Visite-nos e divirta-se!!

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January 13th, 2010 at 10:11 am

Projeto Guri Convida

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Eis aqui um video bacana com o Making-of do disco “Projeto Guri Convida”. O disco já está disponível nas melhores lojas do ramo!

Preenchendo o espaço…

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Em vias de completar um mês sem passar por aqui, eu pelo menos garanto que foi por um bom motivo. Quem acompanhou Jardel pelo Twitter ou pelo Facebook viu que a barba do disco do Projeto Guri foi crescendo, até não dar mais tempo pra nada. Modos que eu mal falei, menos ainda escrevi, e oxalá eu tenha mixado  / produzido direito nesse período. Mas acredito e assino embaixo que o disco ficou bom.

Falando em disco, lembrei hoje do tempo em que se cruzava (ou do tempo em que eu cruzava) não só uma cidade mas toda uma região metropolitana em busca de um disco. Não bastava sair de Marofa (Maria Farinha) até a Discossauro – junto da impontente Faculdade de Direito do Recife – gravar fitinhas, a gente ia até a Vivace do Shopping Guararapes a bordo de um Rio Doce / Piedade (Barra de Jangada / Casa Caiada), completar a coleção. Foi lá que eu comprei, a custa de muita mesada e lanche na UFPE, o meu “Experimental / Jet Set / Thrash & No Star”. Grande disco. A explicação do título é meio auto-indulgente demais, mas quando a gente é fã, a gente é fã mesmo.

Fui, comprei e voltei pra Maria Farinha pra ouvir. Descobri que algumas das músicas – Tokyo Eye e Bull in The Heather, especialmente – eu tinha visto ao vivo em Barcelona um ano antes, talvez em estágios experimentais, eu não era tão CDF assim. Do mesmo jeito foi com o Angel Dust do Faith No More, uns dois anos antes. Comprar o disco e ouvir em casa, várias vezes, no fone e de portas fechadas. Algumas do Angel Dust eu tinha derrubado no Geraldão, em 91, naquele show memorável, com o mosh memorável do Paulo André

Exatamente hoje, ambos (Sonic Youth + Faith No More) tocaram na cidade em que eu estou morando, e eu sei que teria sido massa vê-los ao vivo, mas não daria pra ver os dois. Por ser um tanto sortudo, muito metido e um outro tanto articulado, eu já conversei um bocadinho com todos eles. Aprendi menos na conversa do que vendo os shows, mas consegui fazer o Mike Patton mandar um beijo pra minha irmã numa fita cassete que sabe lá Deus que fim levou, pelo menos ela ouviu quase em tempo real.

Por mais absurdo que possa parecer, só hoje eu estou realmente entendendo que o Sonic Youth, o Faith No More e o Pixies  – com quem eu também tive a sorte de trocar uma idéia durante um fortuito bico de técnico de monitor pro Teenage Fanclub – foram por assim dizer os Rolling Stones, The Who e os Beatles pra mim, naquela época da vida em que isso tem uma importância gigante mesmo. E que se eu por acaso encontrá-los de novo por aí, quiçá eu possa agradecê-los por isso.

Written by missionariojose

November 8th, 2009 at 2:16 am

O supermercado da música

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Essa chamou a atenção do Édipo, o Teisco Del Rey brasileiro

Essa chamou a atenção do Édipo, o Teisco Del Rey brasileiro

Quinta-feira passada fomos eu, André e o grande Marcelo Birck até a Zona Norte conferir a Expomusic 2009, uma grande feira de equipamentos e instrumentos que acontece todo ano aqui na megalópole, e é talvez o maior evento do setor do ponto de vista de negócios. É um evento bem gigante mesmo, em que os fabricantes montam stands nababescos promovendo pocket-shows, palestras e encontros de negócios, com dois dias direcionados aos profissionais do setor, categoria em que nós três supostamente nos encaixamos, e mais três – a sexta e o fim de semana – voltados ao grande público, com apresentações de bandas e artistas e tudo mais o que se tem direito. Nesses dias inclusive a feira fica meio intransitável, de modo que a gente preferiu se valer desse raro privilégio.

Apesar de não termos conseguido olhar tudo o tanto quanto queríamos – muito por causa da briga de volumes entre expositores de um modo geral – algumas coisas chamaram a nossa atenção. André, um aficcionado de modelos pouco comuns, ficou muito interessado em alguns modelos de uma marca chamada Irvine, e também em umas guitarras elétricas da Taylor que estavam no estande da Condor. Eu tentei, mas o fluxo de gente não permitiu, trocar uma idéia com o Ivan, da Music Maker, um luthier de quem me falaram muito bem, e cujo estande também estava muito bacana. Onde eu consegui conversar um pouco até o barulho do vizinho atrapalhar foi no cantinho dos microfones Violet – a fábrica da Letônia onde se fabricavam os microfones Blue antes da marca ir pra China – cuja distribuição no Brasil é feita pelo Clement Zular, antigo proprietário do célebre Estúdio Anonimato – que eu infelizmente não conheci.

Ai, ai, ai um desses lá em Jardel...

Ai, ai, ai um desses lá em Jardel...

Outro aparato que chamou nossa atenção foi o Meteoro Classic V8, um amplificador valvulado de 25W, no tamanho certo para a maioria dos palcos que estamos acostumados a frequentar. Inclusive olhando o parque de diversões da Meteoro vimos o Luíz Carlini – que sem sombra de dúvida merecia um site melhor do que esse, mas a cabocla tiete não baixou em nenhum de nós três e deixamos o respeitável senhor em paz. Chamou a atenção também a já famosa APC 40 da AKAI, que promete ser a grande parada em termos de videogame para palcos nos próximos anos, mas que ainda não está disponível no Brasil, assim como tampouco estão os pimpolhos LPD8 e LPK25. E a pergunta que não quer calar persiste – porque ninguém comercializa decentemente um jogo de Pads de Bateria com conexão USB? O único modelo que eu encontrei até  o momento é um da Alesis – o ControlPad – que não é tão fácil assim de achar nem na gringa. Por mais que as piadas de baterista possam ter algum fundo de verdade – coisa que eu não acredito – é um contrasenso um negócio desses. A melhor opção disponível no mercado ainda é o SPD-S, onde você precisa gravar os samples um a um na memória, no melhor estilo medieval.

Além da questão extremamente incômoda da guerra sonora entre expositores – em alguns momentos a sensação é estar participando daquelas cenas de trincheira em filme de guerra, com o mundo caindo ao seu redor – eu observo uma outra questão que poderia ser discutida em relação à feira. O foco principal da feira são os lojistas – quem realmente vai efetuar a venda do seu produto, e em segundo plano as escolas de música – que compram normalmente em alguma quantidade. Depois disso vem os músicos amadores e iniciantes – razão pela qual existe tanto pocket-show com patrocinados famosos, como o Andreas Kisser, cuja estampa estava em pelo menos um estande de cada corredor da feira. Para os músicos no topo da cadeia alimentar, a feira é uma oportunidade de negociar justamente esses contratos e também alguns equipamentos  sui generis a preço de custo, e para os músicos no final da cadeia a feira é uma oportunidade de descobrir qual cabo o seu ídolo está dizendo que está usando, e em qual loja ele teoricamente pode ser vendido.

Além de tudo ela também faz X-Salada

Além de tudo ela também faz X-Salada

O que eu acho que falta é uma ‘terceira via’ que atenda à demanda gigantesca que representa o meio dessa escala – os músicos como eu, o André e o Marcelo, por exemplo. A feira poderia ser o ambiente para fazer negócio com esses caras – conosco – de uma maneira que fica mais difícil a não ser num momento convergente como esse. Por razões óbvias, eu não vou comprar 100 unidades da APC40, mas se as condições fossem favoráveis, eu poderia comprar uma ou duas a um preço convidativo – o que é bem diferente dos quase 1000% de acréscimo que a gente encontra na Teodoro Sampaio num dia de sorte.  Seria uma boa oportunidade da gente fazer negócio com os distribuidores, por exemplo, ao invés de fazer negócio com os muambeiros de plantão. Poderia existir uma iniciativa por parte dos expositores, e principalmente das grandes marcas que podem arcar com essas ações mais tranquilamente, de tentar colocar o seu produto pra girar com mais eficiência, através de algumas linhas de microcrédito, e conversando diretamente com o povo do meio do caminho. Até porque por mais que o Chaos A.D. seja um dos meus discos preferidos de todos os tempos, a minha fase de querer ter o mesmo baixo ou o mesmo amplificador do Paulo Jr. ou do Andreas já passou.

Independente disso eu acho importante ressaltar que existe um mercado, ou existem mercados, de música que é muito maior do que a gente imagina. Uma iniciativa desse tamanho não está somente apoiada nos ombros de meia dúzia de moleques procurando outra atividade para ocupar as mãos. Se existe tanto dinheiro pra movimentar uma feira desse tamanho, é porque existe um interesse maior em fazer e ouvir música. Como se vive disso como músico é uma questão de observar e entender esse fluxo de interesses e capitais, e achar em que parte do quebra-cabeças a gente se encaixa. É o nosso dever de casa, digamos assim. Que eu vou fazer assim que eu terminar as contas que eu estou fazendo pra ver se dá pra comprar o Amethyst ou a APC…

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September 30th, 2009 at 8:56 am

Arriando a Lombra

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O produtor dos produtores, Sir George Martin

O produtor dos produtores, Sir George Martin

Para o dia de hoje eu prometi voltar da viagem que comecei há quinze dias, trazendo a conversa para o nosso quintal, onde estamos falando de música e produção fonográfica / musical. Imaginando uma balança cujos pratos representariam as necessidades de divagar e experimentar do músico / artista de um lado, e a obrigatoriedade de colocar os pés no chão e focar do outro, podemos tentar visualizar a leitura dessa balança ocorrendo em diversos níveis. Existe música cuja finalidade é extremamente prática – por exemplo, satisfazer a necessidade humana de dançar – mas cujo processo de criação envolve uma quantidade generosa de abstração, o que é comum em vários segmentos da música eletrônica focada nas pistas. Do mesmo modo, a abordagem de produção pode pesar pra qualquer um dos lados, sendo que o fiel da balança é o resultado de uma equação complexa envolvendo prazos, orçamentos e o estágio da cadeia alimentar em que um determinado projeto esteja localizado. E para tornar a sua experiência aqui em Jardel mais aprazível, em cada foto de produtor nesta página, e em alguns dos links, você pode ouvir uma faixa produzida por ele.

Entender exatamente o que um produtor musical, o produtor “de discos”, não é uma tarefa fácil para quem nunca esteve envolvido em uma produção. Eu mesmo estou tentando há uns 15 anos explicar pra o meu pai, e ainda não consegui. Historicamente, o produtor surge como uma espécie de advogado do diabo, lidando com uns 4 ou 5 diabos ao mesmo tempo. É mais ou menos como se ele fosse o Peixe Babel no ouvido de todos dentro do estúdio, fazendo com que as coisas funcionem. Na época em que as gravadoras cantavam de galo, o produtor também era o camarada que precisava traduzir as intenções desta para com o artista e vice-versa, e transformar o resultado deste diálogo, de preferência, em um disco de vendagem significativa. Mesmo lá no extinto mundo dourado das gravadoras, não era tão fácil definir exatamente o que um produtor faz, pois desde sempre a quantidade de exceções impede a cristalização de quaisquer regras. Como se chega à função de produtor por um sem-número de caminhos, de um modo geral o máximo que se pode determinar é que um produtor é um grande acumulador e redistribuidor de tarefas.

Lee Perry demonstra a melhor técnica pra descobrir se a mix tá batendo
Lee Perry demonstra a melhor técnica pra descobrir se a mix tá “batendo”

A abordagem de cada um nesse processo varia, da mesma forma, entre os dois lados da nossa balança lá de cima. Lee Perry, por exemplo, sempre esteve firme e forte pesando no lado pró-viagem. Com um cardápio de técnicas em estúdio que vão do uso um tanto pioneiro de samples – como é o caso do bebê chorando em “People Funny Boy”, a faixa da foto ao lado – até procedimentos menos ortodoxos como enterrar os rolos de fita no quintal para a música gravada neles ‘apurar’, Perry não poupava esforços nem tempo para transformar em som suas idéias. Essa atitude quase xiita, compartilhada por outros medalhões como o Phil Spector, normalmente rende histórias lendárias e uma corrente de desafetos, mas também resultados atemporais, vide a seqüência de singles dos Wailers que ele produziu antes do pau cantar entre Scratch e os rapazes.

O exemplo clássico do desequilíbrio pro lado viajandão é o do turbulento Brian Wilson, que levou 37 anos pra terminar um disco, que afinal de contas não ficou nem tão legal assim. Tudo bem que Wilson produzia a si mesmo e sua banda, e que a fórmula já tinha dado ao mundo e aos Beach Boys sua obra-prima, mas que o caldo entornou, entornou e foi de muito.

Do outro lado, os produtores “no-nonsense” são devotos ferrenhos da crença que é com sangue, suor e muita pré-produção que alcançaremos o paraíso. Esse é o caso do Rick Rubin, famoso por passar bastante tempo em ensaios resolvendo  problemas antes mesmo que eles aconteçam. Um adepto da meditação transcedental, Rubin acredita que não se deve perder tempo girando lâmpada em estúdio, e que boa música se faz com bons músicos se sentindo à vontade para dar o melhor de si. Funcionou com o Red Hot Chilli Peppers, mais de uma vez, e acrescentou logo 5 grandes discos à discografia de Johnny Cash, onde disco bom não é exatamente um item em falta.

Eu sempre quis ser que nem o Rick Rubin quando crescesse. Pelo menos na barba eu sei que eu me garanto

Eu sempre quis ser que nem o Rick Rubin quando crescesse. Pelo menos na barba eu sei que eu me garanto

Se a balança pesar muito pra esse lado, vamos encontrar camaradas como o multimilionário Timbaland, ou mesmo o celebrado Butch ‘E não é que o som de bateria do Nevermind é o mesmo do Siamese Dream?’ Vig -  a prova do apelido você confere aqui e aqui. Nesses casos, é comum que o artista se encaixe em alguns ‘presets’ do modus operandi do produtor, alguns truques que já tenham se provado mais certeiros. Também dá certo, eu mesmo acho SexyBack um single muito decente e bem-resolvido. Coincidentemente, ambos também tem a sua própria carreira como artistas per se.

E como o próprio rumo da conversa sugere, a fauna é bastante rica entre um extremo e outro, com espécimes realmente interessantes, como Brian Eno, que tem no seu cardápio de especialidades o truqe de tirar os músicos da sua ‘zona de conforto’ através de boas doses de diletantismo e distração, pra então cair matando e espremer um disco na pressão. Foi assim que saíram alguns dos melhores discos do Talking Heads e na minha opinião o melhor do U2, mas do mesmo modo saiu um “Viva La Vida”, que é uma prova cabal que time que está ganhando merece levar um puxão de orelha de quando em vez.

E é no meio do caminho que encontramos o mestre do equilíbrio, Sir George Martin, cujas produções dentro e fora da franquia Beatles são uma aula em vários sentidos. Ele foi capaz de extrair o “Please Please Me” na base do fórceps em mais ou menos 12 horas, e também administrar a mega viagem coletiva de “Tomorrow Never Knows”. E quando as complicações dos quatro fabulosos se mostraram demais pra aguentar, ele mandou o lima, e fez bastante falta, mostrando que até os Beatles precisavam de alguém no pé do ouvido dizendo pra onde ir.

Passando em revista os nossos convidados de hoje, temos exemplos práticos e funcionais em cada parada dessa escala entre os pés no chão e a cabeça nas nuvens. É interessante perceber que em alguns momentos, todos estes indivíduos acertaram na mosca, e criaram sonoridades e faixar atemporais. Também é curioso ver que a abordagem de cada um não está condicionada à sua porta de entrada no mundo da produção, pois temos desde um ‘não-músico’ assumido, como o Eno – talvez isso explique o Coldplay, de repente – até um músico com todos os predicados da erudição disponíveis, como o cavaleiro George. Talvez eu tenha acertado ao dizer que um produtor é basicamente um acumulador e redistribuidor de tarefas, uma espécie de gerente multifacetado. Talvez daqui a uns 40, 50 anos essa figura tenha novamente se diluído entre outras novas funções que vão aparecendo à medida que o mercado da música como o conhecemos se transforma naquele ao qual vamos ter que nos adaptar. O certo mesmo é que alguém sempre vai ter que escolher qual take foi a boa.

Written by missionariojose

September 21st, 2009 at 2:11 pm

Música, tempo e divagações

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Alan Turing. Esse viveu uma bronca atrás da outra, pense.

Alan Turing. Esse viveu uma bronca atrás da outra, mas resolveu várias outras pra gente.

Semana passada terminamos com uma pergunta, que teve algumas respostas. Hoje começamos com um problema, que é o fato de Música só existir em tempo real. Desde os tempos imemoriais, o homem vem tentando fixar a música em algum suporte físico que a liberte das demandas do tempo real, sem nenhum sucesso. Ainda que algum algoritmo fantástico em algum ProTools do futuro passe pelo Teste de Turing, mesmo assim ele vai ter que se virar nos 30, 60 ou 210 segundos corridos necessários pra que a pessoa escute uma canção, uma melodia. Sem se espalhar no tempo e combinar sons diferentes com durações diferentes, não existe Música, existe o Ruído Branco, ou o Gato no Piano.

Talvez por isso mesmo, nosso métier seja tão complicado, por lidar com algo tão abstrato, intangível. Veja a Gioconda, por exemplo. Nesse exato momento ela está lá no Louvre olhando um monte de Japonês. É a mulher morta mais fotografada de todos os tempos, pintada num pedaço de pano há muito tempo atrás por um proto-italiano que hoje em dia provavelmente estaria internado em uma instituição psiquiátrica. Seu valor é inestimável.

Nos mantendo na seara dos superlativos, a Missa do Papa Marcelo – veja bem que é o Papa Marcelo II, não o Padre Marcelo Rossi – composta por Palestrina não muito longe dali, mais ou menos na mesma época, também é inestimável, mas justamente por não ter nada a que se possa conferir algum valor material – mesmo tendo sido uma pedra fundamental da música no Ocidente. Uma gravação da Missa, parada lá dentro da caixinha de plástico, não serve de nada a não ser que alguém a coloque pra girar, sente e escute. A Missa impressa no papel também não é a Missa em si, se não houver alguém que sente, leia e toque. No caso, vários alguéns, porque é voz que não acaba mais. Os próprios originais escritos pelo Palestrina, se é que eles existem, provavelmente valem uma nota preta, mas por serem documentos históricos, e não por serem a música que está escrita neles. A Música só está ali em potencial. Nas eternas palavras do grande Cyrus, vocês sacaram?

A Gioconda em um dos seus melhores momentos

A Gioconda em um dos seus melhores momentos, por Marco Pece, aka Udronotto

Entretanto, apesar de abstrata em sua essência, a Música – e de certa forma a Arte como um todo – é uma forma de expressão extremamente pragmática e funcional, no que raramente existe sem que haja um objetivo real. Vejam por exemplo a arte rupestre. Estamos falando de pessoas que tinham que matar o proverbial leão diário pra se alimentar, sozinhas ou em grupo. Acho difícil que no final do dia o Senhor Neanderthal tivesse energia pra fazer uns croquis na parede da sala pra desopilar, ou desenvolver sua técnica de bico-de-pena. Ele, ou ela, provavelmente estavam deixando um recado pra próxima geração, louvando alguma divindade, fazendo o seu google maps litográfico. O grande mérito dos ‘Grandes Compositores’ da coleção da revista Caras foi ter desenvolvido a linguagem da música européia ao mesmo tempo em que pagavam suas contas e deixavam tudo em ordem aos olhos do seu respectivo mecenas. O próprio Da Vinci, pintou sua Mona Lisa por alguns caraminguás, entre um projeto de helicóptero e outro.

Seria esse o cruel destino da nossa espécie? Condicionar a nossa expressão a correr atrás de um contra-cheque? Eu imagino que essa constatação não é tão fatalista, nem tão cruel assim, pois acredito que o objetivo maior das Artes e das Ciências é o fechamento do ciclo, a conclusão da obra. Uma idéia dentro da minha cabeça ou da sua é uma idéia, mas ela só tem graça em propaganda de Universidade privada. O processo de transformar essa idéia em uma canção de três minutos, numa casa de praia ou em uma fórmula matemática supimpa é o que faz da inspiração uma proposta, e nos habilita pra ser o que somos. E no final do arco, o fechamento apresenta as possibilidades para a próxima empreitada.

Por mais Lair Ribeiro que esse último parágrafo possa soar – quem sabe eu não ganharia melhor vendendo livros de auto-ajuda? – muitas pessoas que trabalham com arte em geral compartilham dessa visão. Da mesma forma que é importante divagar, filosofar que seja, e deixar a mente explorar os recônditos mais afastados do universo em constante expansão dentro da nossa cabeça, o caminho de volta é igualmente importante. E, a exemplo daquela piada do cara que vai parar sozinho na ilha deserta com a Gisele Bündchen, contar a história no final talvez seja o grande barato.

Semana que vem eu vou fazer o caminho de volta, e falar um pouco sobre esse assunto na esfera dos Produtores Musicais que a gente conhece e ama. Até lá.

Written by missionariojose

September 11th, 2009 at 6:25 pm

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O poder mágico das situações adversas

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Onde quer que você esteja, essa melodia está sendo ouvida em um raio de 100 metros

Onde quer que você esteja, essa melodia está sendo ouvida em um raio de 100 metros

O título desse texto me ocorreu numa conjunção de fatores, especificamente ouvindo o Machine Head do Deep Purple no metrô, voltando pra casa depois da master do disco da Alessandra Leão. O Machine Head é um desses discos “lenda viva” – que transcendem a categoria de disco clássico, e se torna parte das entranhas da nossa cultura, surgindo em todo canto, desse moleque aqui testando uma Les Paul coreana na Rua da Concórdia com o riff-haikai de “Smoke on the Water“, até um anúncio de algum carro-família que eu vi ano passado, tocando “Highway Star”. Sem o Machine Head, o DP provavelmente seria uma banda de Hard Rock / Metal da segundona, brigando ali com o Dio e o Quiet Riot por um lugar na eternidade, e fornecendo mão-de-obra especializada para os deuses da primeira divisão.

Mas o Machine Head é um senhor disco, e não foi fácil de fazer. Na época, o Deep Purple ainda era uma banda que pegava no pesado, e na maior parte do tempo viajava de ônibus. Emendando uma turnê na outra, tinham pouco tempo pra perder em estúdio, pois eles – como nós hoje em dia – ganhavam dinheiro mesmo tocando, e não vendendo disco. A solução foi alugar a unidade móvel dos Rolling Stones e gravar na estrada, numa pausa nos trabalhos após o Festival de Montreux de 1971, no Cassino onde o festival acontecia – nessa época o festival era pequeno e durava uns dois ou três dias. Sendo que o cassino pegou fogo, durante o show do Frank Zappa, e como diz o ditado, fudeu. A solução foi um hotel que estava fechado, onde fazia frio e as condições não só não eram as melhores como eram ruins pacas, e o jeito foi improvisar com colchões, camas e lençóis. O resumo da ópera, inclusive, é a própria Smoke on the Water, que conta direitinho como tudo aconteceu.

Maestro Caçapinha e seu ouvido infalível

Maestro Caçapinha e seu ouvido infalível

Comparado com o Machine Head, Dois Cordões, o disco novo da Alessandra, é como o Tusk do Fleetwood Mac, para o qual se construiu um estúdio só pra começo de conversa. Mas nem tanto, nem tão pouco. A adversidade mágica no caso foi conseguir gravar e mixar um disco cheio de detalhes em pouco tempo, desde o começo, aqui em SP – onde gravamos todas as percussões e vocais principais em menos de uma semana, ainda por cima fazendo umas duas música do zero – até o final – a participação de Jorge Du Peixe no disco foi gravada aqui DURANTE a mixagem da mesma música em Recife. Ninguém teve que passar frio – acho que só a Alê reclamou um pouquinho do ar-condicionado lá da YB, mas também ninguém ficou de bobeira. Esses e alguns outros exemplos – que eu testemunhei até hoje, ou sobre os quais eu li ou assisti, me colocaram uma pulga atrás da orelha perguntando: “Será que músico só trabalha bem sob pressão?”.

Aqui todo mundo fazia o dever de casa. Talvez isso explique os penteados.
Aqui todo mundo fazia o dever de casa. Talvez isso explique os penteados.

Talvez sim, talvez não. Eu normalmente estimo que, uma vez que a música esteja pronta do ponto de vista de melodia, ritmo, arranjo e forma, ela leva entre 6 a 12 horas pra “florescer” em estúdio – entre gravar tudo o que precisa ser gravado, aparar as arestas de performance e arranjo, e mixar. Isso é uma média no melhor estilo “ou dá, ou desce”, porque baseado nisso você planeja 100, 150 ou 200 horas pra fazer um disco inteiro, e isso é o que você tem, pro bem ou pro mal. Normalmente, a sempre presente culpa recai sobre o dever de casa malfeito, a música que não chegou pronta no estúdio, o músico que na hora H não compareceu, o café que tava morno, o cachorro que latiu. Sendo que cada exemplo de problema, há outro mostrando que esse não é um problema tão grande assim.

A minha teoria propõe que sob pressão, perdemos menos tempo explorando as infinitas possibilidades do mundo pós-moderno. Mas se o importante – eu mesmo falei isso duas semanas atrás – é saber explorar as possibilidades, experimentar novas idéias, como é que fica esse negócio? Aí é que entra uma habilidade difícil de medir, e que a gente só desenvolve na lida: a nossa capacidade de fazer escolhas. Fazendo um paralelo, seria o equivalente na música e no áudio do “olho clínico”. Você não precisa ter 20 sons de caixa ou 30 takes de uma voz, o que você precisa é saber qual é o que presta. De preferência, sem ter que ouvir tudo de novo umas 30 vezes. Para este ponto, vamos recorrer à categoria “analogias úteis entre música e culinária”: É o ponto da massa e do tempero que diferenciam uma iguaria de uma papa intragável, ou mesmo de um prato bem-servido, mas sem graça.

Essa é da época em que pedalar tinha uma conotação positiva
Essa é da época em que “pedalar” tinha uma conotação positiva

Esse “ouvido clínico” também é quem liga os neurônios certos na hora de inventar alguma coisa inusitada mesmo quando o bicho está pegando, e nos permite aferir se a idéia está ajudando ou é melhor parar enquanto é tempo. Eu não creio que isso seja alguma espécie de poder Jedi conferido a alguns poucos premiados pelo destino. Acho que é algo que a gente desenvolve, num processo que pode ser mais rápido ou mais lento de acordo – aí sim – com a predisposição natural de cada um. Apelando para a categoria “analogias úteis entre música e futebol”, é feito o gol de bicicleta – primeiro você precisa aprender a fazer, depois você precisa saber se é a hora certa de arriscar.

Pegando emprestado a metalinguagem do Ian Gillan na faixa lá de cima, eu confesso que não posso me alongar muito nesse momento, estou quase me atrasando pra uma reunião. Como esse post é a parte 1 de uma conversa maior sobre as relações entre pragmatismo e divagação, na música e nas artes em geral, talvez seja bacana também ficar divagando – se eu disser filosofando eu vou apanhar da Júlia Grande – sobre essas questões. Modos que pra fechar a conversa do dia eu deixo a pergunta: Você trabalha melhor sob pressão?

Written by missionariojose

September 4th, 2009 at 10:26 am

Aventuras em Diversos Canais, Cap. 4 – Rodrigo Campos – Brother José

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Essa faixa do primeiro disco de Rodrigo Campos, “São Mateus não é um lugar assim tão longe”, foi produzida pela Jardel em parceria com Beto Villares, que produziu todo o disco. Em “Brother José” temos, além de Rodrigo na voz e cavacos, Curumin na bateria, Missionário José no baixo e André Édipo na guitarra. Groove bom e certeiro.

Brother José by jardel

Rodrigo e o Cavaco, em São Mateus

Dando seguimento aqui a esse post, vou complementar com algumas explicações sobre como fizemos essa faixa, há pouco mais de um ano. “Brother José” como a conhecemos acabou virando o meu primeiro trabalho como freelancer para a Ambulante, e começou meio de repente num dia em que o Curumin passou por lá pra gravar algumas participações no disco do Rodrigo. Subindo e descendo as escadas da Ambula fazendo alguma coisa que não me lembro – provavelmente eu devia estar organizando alguma coisa do Antônio pra deixar o meu ex-cargo de assistente devidamente assistido – o Beto me chamou pra gravar um baixo numa base junto com o Curumin, em cima de uma guia de voz, violão e click do Rodrigo. O baixo em questão foi um Hofner viola, de destro mesmo e que eu toquei de cabeça pra baixo, um processo meio alienígena que é a segunda coisa que todo canhoto aprende a fazer quando começa a tocar. E tocando com um baterista do quilate do Curumin, também, o camarada toca até sem baixo.

Tudo isso vira som, e muito mais

Tudo isso vira som, e muito mais

Pra base, fizemos uns três takes, e creio que o que ficou foi o terceiro. Eu peguei um DVD com as faixas todas e a sessão, e fui cuidar da vida, pra terminar a canção em Jardel. O próximo passo foi ouvir os takes, e aí eu fiz um mix rápido de alguns loops da levada, pra criar outros efeitos fora do ProTools, em alguns outros brinquedos favoritos: O MetaSynth e o SoundHack. Ambos são dois companheiros fiéis dos meus tempos de Bangor, onde eu passei diversas madrugadas transformando gravações de ambiência, voz e objetos diversos em sons de berimbau interplanetário e sapo-boi marciano, entre outras coisas. Se o que você precisa é de um som maluco doidão on-demand, vá de SoundHack e MetaSynth. Aproveite e saia um pouco de dentro da sua Workstation preferida e experimente brincar com sons de um jeito diferente.

Dentro do SoundHack, uma das melhores coisas é a parte de Convolução, que na prática é uma maneira de imprimir as características de um determinado som – digamos uma bateria – em um outro som – digamos um feedback de guitarra. É mais ou menos como se fosse um vocoder extremamente complexo e imprevisível, numa definição meio grosseira que ninguém deve sair por aí dizendo que é uma explicação plausível e suficiente pra o que é convolução. Até porque o SoundHack também tem um setor de Phase Vocoding que é uma coisa linda do Senhor.

O responsável por estes e alguns outros grandes sons

O responsável por estes e alguns outros grandes sons

Depois de alguns dias no parque de diversões, nestes dois e também no Live – que roda dentro do PT, mas não abre plugins externos, como esse belo Fuzz gratuito da Audio Damage, por exemplo – chegou a hora de editar toda essa brincadeira e jogar de volta na sessão, ver o que casa, o que não casa, e assim por diante. Também chegara a hora de acrescentar mais umas coisas pra  vestir a música, no que justamente ajudou o André com sua nossa Craviola fiel, passando pelo também fiel escudeiro Bass Driver  SansAmp da Tech21, uma das caixinhas de melhor custo-benefício do mundo inteiro.

A estratégia do Édipo partiu de um dos mandamentos / axiomas  Jardelenses – “Colarás no Bumbo sobre todas as coisas”. A partir disso, o desenho da guitarra deu aquele movimento que estava faltando nos versos e na introdução. Aquele famoso gancho que puxa você pela orelha e empurra pra pista de dança. Para os refrões, eu usei uma técnica que eu apelido de “Mellotron Rural”, pra criar umas cordas fictícias e dar um clima mais épico para essas passagens da música, e complementar as guitarras ascendentes. Nestas, a cada volta do refrão a gente foi gravando com o vibrato mais rápido, um detalhe que não fica claro na mix – nem é pra ficar – mas que colabora pra o sentimento de urgência que vai se acumulando à medida que o tempo vai passando.

ナカターさん

Curumin, sempre resolvendo

Passado este estágio, mandei a música de volta pra Ambulante, onde voltamos a trabalhar nela alguns meses depois, que foi quando o Rodrigo gravou seu cavaco e um repique de mão pra garantir a metalinguagem. Gravou também a voz principal, e fez algumas modificações na melodia até chegar a essa que ficou na música. Nessa etapa, passamos por mais um processo de seleção, tirando e recolocando elementos pra música não ficar enfeitada demais, nem vazia de menos. Isso incluiu também diversos takes de cavaco com efeito do Rodrigo, gravados lá no começo do processo, que foram se refinando até chegar a alguns comentários e um riff que aparece de vez em quando. Para fecharmos de vez o refrão, contamos novamente com o auxílio luxuoso do Curumin, mandando ver no vocal e conferindo ainda mais austeridade à faixa.

A mix ficou por conta do Dr. Lenza, que é um mestre na arte de colocar cada qual em seu devido lugar, em mono e stereo. Como normalmente acontece quando eu estou produzindo e outra pessoa está mixando, eu gosto de deixar pra dar pitaco quando a impressão digital do responsável pela mix já apareceu – eu acho que o legal do processo colaborativo é justamente você poder se surpreender com o trabalho dos outros, o que não acontece se você vira aquele “produtor papagaio” que fica dependurado no ombro do  engenheiro o tempo todo. No final das contas, em um disco com várias participações especiais, produtores e músicos, ficou também na mão de Lenza a responsabilidade de costurar o disco todo em uma peça coesa, como ficou no final.

Uma das coisas que eu achei mais interessantes nessa produção foi como a música do Rodrigo veio ‘de fábrica’ com uma personalidade que integrou elementos e pessoas diferentes, em lugares e tempos diferentes, e resultou numa faixa em que você tem a nítida impressão de que está todo mundo tocando ali junto. Ouçam, e aproveitem pra ouvir as outras faixas de “São Mateus não é um lugar assim tão longe”.

BrotherJose

Written by missionariojose

August 28th, 2009 at 10:00 am