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O supermercado da música

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Essa chamou a atenção do Édipo, o Teisco Del Rey brasileiro

Essa chamou a atenção do Édipo, o Teisco Del Rey brasileiro

Quinta-feira passada fomos eu, André e o grande Marcelo Birck até a Zona Norte conferir a Expomusic 2009, uma grande feira de equipamentos e instrumentos que acontece todo ano aqui na megalópole, e é talvez o maior evento do setor do ponto de vista de negócios. É um evento bem gigante mesmo, em que os fabricantes montam stands nababescos promovendo pocket-shows, palestras e encontros de negócios, com dois dias direcionados aos profissionais do setor, categoria em que nós três supostamente nos encaixamos, e mais três – a sexta e o fim de semana – voltados ao grande público, com apresentações de bandas e artistas e tudo mais o que se tem direito. Nesses dias inclusive a feira fica meio intransitável, de modo que a gente preferiu se valer desse raro privilégio.

Apesar de não termos conseguido olhar tudo o tanto quanto queríamos – muito por causa da briga de volumes entre expositores de um modo geral – algumas coisas chamaram a nossa atenção. André, um aficcionado de modelos pouco comuns, ficou muito interessado em alguns modelos de uma marca chamada Irvine, e também em umas guitarras elétricas da Taylor que estavam no estande da Condor. Eu tentei, mas o fluxo de gente não permitiu, trocar uma idéia com o Ivan, da Music Maker, um luthier de quem me falaram muito bem, e cujo estande também estava muito bacana. Onde eu consegui conversar um pouco até o barulho do vizinho atrapalhar foi no cantinho dos microfones Violet – a fábrica da Letônia onde se fabricavam os microfones Blue antes da marca ir pra China – cuja distribuição no Brasil é feita pelo Clement Zular, antigo proprietário do célebre Estúdio Anonimato – que eu infelizmente não conheci.

Ai, ai, ai um desses lá em Jardel...

Ai, ai, ai um desses lá em Jardel...

Outro aparato que chamou nossa atenção foi o Meteoro Classic V8, um amplificador valvulado de 25W, no tamanho certo para a maioria dos palcos que estamos acostumados a frequentar. Inclusive olhando o parque de diversões da Meteoro vimos o Luíz Carlini – que sem sombra de dúvida merecia um site melhor do que esse, mas a cabocla tiete não baixou em nenhum de nós três e deixamos o respeitável senhor em paz. Chamou a atenção também a já famosa APC 40 da AKAI, que promete ser a grande parada em termos de videogame para palcos nos próximos anos, mas que ainda não está disponível no Brasil, assim como tampouco estão os pimpolhos LPD8 e LPK25. E a pergunta que não quer calar persiste – porque ninguém comercializa decentemente um jogo de Pads de Bateria com conexão USB? O único modelo que eu encontrei até  o momento é um da Alesis – o ControlPad – que não é tão fácil assim de achar nem na gringa. Por mais que as piadas de baterista possam ter algum fundo de verdade – coisa que eu não acredito – é um contrasenso um negócio desses. A melhor opção disponível no mercado ainda é o SPD-S, onde você precisa gravar os samples um a um na memória, no melhor estilo medieval.

Além da questão extremamente incômoda da guerra sonora entre expositores – em alguns momentos a sensação é estar participando daquelas cenas de trincheira em filme de guerra, com o mundo caindo ao seu redor – eu observo uma outra questão que poderia ser discutida em relação à feira. O foco principal da feira são os lojistas – quem realmente vai efetuar a venda do seu produto, e em segundo plano as escolas de música – que compram normalmente em alguma quantidade. Depois disso vem os músicos amadores e iniciantes – razão pela qual existe tanto pocket-show com patrocinados famosos, como o Andreas Kisser, cuja estampa estava em pelo menos um estande de cada corredor da feira. Para os músicos no topo da cadeia alimentar, a feira é uma oportunidade de negociar justamente esses contratos e também alguns equipamentos  sui generis a preço de custo, e para os músicos no final da cadeia a feira é uma oportunidade de descobrir qual cabo o seu ídolo está dizendo que está usando, e em qual loja ele teoricamente pode ser vendido.

Além de tudo ela também faz X-Salada

Além de tudo ela também faz X-Salada

O que eu acho que falta é uma ‘terceira via’ que atenda à demanda gigantesca que representa o meio dessa escala – os músicos como eu, o André e o Marcelo, por exemplo. A feira poderia ser o ambiente para fazer negócio com esses caras – conosco – de uma maneira que fica mais difícil a não ser num momento convergente como esse. Por razões óbvias, eu não vou comprar 100 unidades da APC40, mas se as condições fossem favoráveis, eu poderia comprar uma ou duas a um preço convidativo – o que é bem diferente dos quase 1000% de acréscimo que a gente encontra na Teodoro Sampaio num dia de sorte.  Seria uma boa oportunidade da gente fazer negócio com os distribuidores, por exemplo, ao invés de fazer negócio com os muambeiros de plantão. Poderia existir uma iniciativa por parte dos expositores, e principalmente das grandes marcas que podem arcar com essas ações mais tranquilamente, de tentar colocar o seu produto pra girar com mais eficiência, através de algumas linhas de microcrédito, e conversando diretamente com o povo do meio do caminho. Até porque por mais que o Chaos A.D. seja um dos meus discos preferidos de todos os tempos, a minha fase de querer ter o mesmo baixo ou o mesmo amplificador do Paulo Jr. ou do Andreas já passou.

Independente disso eu acho importante ressaltar que existe um mercado, ou existem mercados, de música que é muito maior do que a gente imagina. Uma iniciativa desse tamanho não está somente apoiada nos ombros de meia dúzia de moleques procurando outra atividade para ocupar as mãos. Se existe tanto dinheiro pra movimentar uma feira desse tamanho, é porque existe um interesse maior em fazer e ouvir música. Como se vive disso como músico é uma questão de observar e entender esse fluxo de interesses e capitais, e achar em que parte do quebra-cabeças a gente se encaixa. É o nosso dever de casa, digamos assim. Que eu vou fazer assim que eu terminar as contas que eu estou fazendo pra ver se dá pra comprar o Amethyst ou a APC…

Written by missionariojose

September 30th, 2009 at 8:56 am