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Seu Jorge and Almaz
Essa semana começa nos Estados Unidos a turnê do Seu Jorge and Almaz, uma banda que se formou há uns dois anos atrás, durante a produção de uma trilha que acabou não sendo, pro filme Linha de Passe, do Walter Salles, Jr. e da Daniela Thomas. Essa ‘trilha perdida’ foi composta pelo trio Lúcio Maia, Pupillo e Antônio Pinto, com trabalhos técnicos, logísticos e psicológicos deste que vos escreve, e durante o processo surgiu a idéia de colocar nos créditos finais uma versão de ‘Juízo Final’ - de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares – que Lúcio já tocava no seu projeto paralelo, o Maquinado. A versão partiu de um Loop de Bateria gravado nas sessões que tínhamos feito no Fábrica, antes do Carnaval de 2008, que foi onde a produção da trilha começou, e surgiu a idéia de convidarmos alguém pra colocar a voz.
Num golpe fortuito do acaso, Jorge ligou pra tratar de outros assuntos com Antônio, e a idéia da participação se cristalizou. No mesmo dia ele veio ao estúdio e gravou a voz literalmente de primeira – o que se ouve no disco é, de fato, o primeiro take de voz. Em seguida, pintou a idéia de fazermos ‘Errare Humanum Est’, do Jorge Ben, também pro filme, e como o processo estava fluindo, ficou combinado de acontecerem outras sessões partindo do mesmo princípio.
Em questão de duas semanas, o disco já estava 90% pronto, num esquema espartano em que normalmente eu começava os trabalhos da trilha por volta das 10 da manhã, Antônio chegava por volta da hora do almoço, pouco depois chegavam Lúcio e Pupillo, e seguíamos em frente com a Linha de Passe. À noite chegava o Jorge, e aí a sessão do Almaz se estendia até umas 3 da matina. Cada um trazia algumas idéias de músicas pra tocar, tirava na hora, montava o arranjo e já gravava também. Montamos um esquema bacana, gravando a bateria com 5 canais e usando os outros três que tínhamos pra voz, baixo e guitarra, com Lúcio e Antônio tocando na técnica e Jorge gravando em uma sala separada da bateria. Dessas sessões já saiu muita coisa de guitarra e voz que ficou valendo pro disco, inclusive. A maioria das guitarras foi reprocessada – a gente pegou o sinal original que tinha sido gravado direto sem efeitos e regravou mandando pra um amplificador, e algumas poucas foram dobradas ou regravadas. Tempos depois, ainda rolou uma outra sessão com o Mário Caldato – que mixou o disco em casa – pra regravar ‘Cristina’ e ‘Girl You Move Me’, e foi esse o processo.
Durante esses dois anos que se passaram desde então, muito se especulou por aí sobre a própria existência do disco / projeto, e por aqui sobre a possibilidade desse disco vir a sair algum dia. Em se tratando de um disco de covers feito por quatro pessoas que já tem carreiras devidamente estabelecidas, as possíveis complicações em diversos níveis assustam qualquer um. Eu de minha parte, fiquei muito feliz quando recebi as notícias do lançamento, e mais ainda quando tive o compacto de estréia em minhas mãos, não é todo dia em que eu divido os créditos com nomes tão ilustres, ainda mais pelo mundo afora. Ouçam e aproveitem: www.seujorgealmaz.com
P.S.: Da trilha, no final das contas, ficaram uns dois trechos curtinhos durante o filme, e “Juízo Final” nos créditos, com o detalhe de que alguém na montagem final colocou uma cópia de monitor que tínhamos mandado pro Walter no lugar da mix mesmo.
Aventuras em Diversos Canais, Cap. 4 – Rodrigo Campos – Brother José
Essa faixa do primeiro disco de Rodrigo Campos, “São Mateus não é um lugar assim tão longe”, foi produzida pela Jardel em parceria com Beto Villares, que produziu todo o disco. Em “Brother José” temos, além de Rodrigo na voz e cavacos, Curumin na bateria, Missionário José no baixo e André Édipo na guitarra. Groove bom e certeiro.
Dando seguimento aqui a esse post, vou complementar com algumas explicações sobre como fizemos essa faixa, há pouco mais de um ano. “Brother José” como a conhecemos acabou virando o meu primeiro trabalho como freelancer para a Ambulante, e começou meio de repente num dia em que o Curumin passou por lá pra gravar algumas participações no disco do Rodrigo. Subindo e descendo as escadas da Ambula fazendo alguma coisa que não me lembro – provavelmente eu devia estar organizando alguma coisa do Antônio pra deixar o meu ex-cargo de assistente devidamente assistido – o Beto me chamou pra gravar um baixo numa base junto com o Curumin, em cima de uma guia de voz, violão e click do Rodrigo. O baixo em questão foi um Hofner viola, de destro mesmo e que eu toquei de cabeça pra baixo, um processo meio alienígena que é a segunda coisa que todo canhoto aprende a fazer quando começa a tocar. E tocando com um baterista do quilate do Curumin, também, o camarada toca até sem baixo.
Pra base, fizemos uns três takes, e creio que o que ficou foi o terceiro. Eu peguei um DVD com as faixas todas e a sessão, e fui cuidar da vida, pra terminar a canção em Jardel. O próximo passo foi ouvir os takes, e aí eu fiz um mix rápido de alguns loops da levada, pra criar outros efeitos fora do ProTools, em alguns outros brinquedos favoritos: O MetaSynth e o SoundHack. Ambos são dois companheiros fiéis dos meus tempos de Bangor, onde eu passei diversas madrugadas transformando gravações de ambiência, voz e objetos diversos em sons de berimbau interplanetário e sapo-boi marciano, entre outras coisas. Se o que você precisa é de um som maluco doidão on-demand, vá de SoundHack e MetaSynth. Aproveite e saia um pouco de dentro da sua Workstation preferida e experimente brincar com sons de um jeito diferente.
Dentro do SoundHack, uma das melhores coisas é a parte de Convolução, que na prática é uma maneira de imprimir as características de um determinado som – digamos uma bateria – em um outro som – digamos um feedback de guitarra. É mais ou menos como se fosse um vocoder extremamente complexo e imprevisível, numa definição meio grosseira que ninguém deve sair por aí dizendo que é uma explicação plausível e suficiente pra o que é convolução. Até porque o SoundHack também tem um setor de Phase Vocoding que é uma coisa linda do Senhor.
Depois de alguns dias no parque de diversões, nestes dois e também no Live – que roda dentro do PT, mas não abre plugins externos, como esse belo Fuzz gratuito da Audio Damage, por exemplo – chegou a hora de editar toda essa brincadeira e jogar de volta na sessão, ver o que casa, o que não casa, e assim por diante. Também chegara a hora de acrescentar mais umas coisas pra vestir a música, no que justamente ajudou o André com sua nossa Craviola fiel, passando pelo também fiel escudeiro Bass Driver SansAmp da Tech21, uma das caixinhas de melhor custo-benefício do mundo inteiro.
A estratégia do Édipo partiu de um dos mandamentos / axiomas Jardelenses – “Colarás no Bumbo sobre todas as coisas”. A partir disso, o desenho da guitarra deu aquele movimento que estava faltando nos versos e na introdução. Aquele famoso gancho que puxa você pela orelha e empurra pra pista de dança. Para os refrões, eu usei uma técnica que eu apelido de “Mellotron Rural”, pra criar umas cordas fictícias e dar um clima mais épico para essas passagens da música, e complementar as guitarras ascendentes. Nestas, a cada volta do refrão a gente foi gravando com o vibrato mais rápido, um detalhe que não fica claro na mix – nem é pra ficar – mas que colabora pra o sentimento de urgência que vai se acumulando à medida que o tempo vai passando.
Passado este estágio, mandei a música de volta pra Ambulante, onde voltamos a trabalhar nela alguns meses depois, que foi quando o Rodrigo gravou seu cavaco e um repique de mão pra garantir a metalinguagem. Gravou também a voz principal, e fez algumas modificações na melodia até chegar a essa que ficou na música. Nessa etapa, passamos por mais um processo de seleção, tirando e recolocando elementos pra música não ficar enfeitada demais, nem vazia de menos. Isso incluiu também diversos takes de cavaco com efeito do Rodrigo, gravados lá no começo do processo, que foram se refinando até chegar a alguns comentários e um riff que aparece de vez em quando. Para fecharmos de vez o refrão, contamos novamente com o auxílio luxuoso do Curumin, mandando ver no vocal e conferindo ainda mais austeridade à faixa.
A mix ficou por conta do Dr. Lenza, que é um mestre na arte de colocar cada qual em seu devido lugar, em mono e stereo. Como normalmente acontece quando eu estou produzindo e outra pessoa está mixando, eu gosto de deixar pra dar pitaco quando a impressão digital do responsável pela mix já apareceu – eu acho que o legal do processo colaborativo é justamente você poder se surpreender com o trabalho dos outros, o que não acontece se você vira aquele “produtor papagaio” que fica dependurado no ombro do engenheiro o tempo todo. No final das contas, em um disco com várias participações especiais, produtores e músicos, ficou também na mão de Lenza a responsabilidade de costurar o disco todo em uma peça coesa, como ficou no final.
Uma das coisas que eu achei mais interessantes nessa produção foi como a música do Rodrigo veio ‘de fábrica’ com uma personalidade que integrou elementos e pessoas diferentes, em lugares e tempos diferentes, e resultou numa faixa em que você tem a nítida impressão de que está todo mundo tocando ali junto. Ouçam, e aproveitem pra ouvir as outras faixas de “São Mateus não é um lugar assim tão longe”.





