Jardel Music

Música e Áudio

Archive for the ‘Produções’ Category

Coincidentes

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Recebi do Tomaz, do Profiterolis, esse recorte com duas resenhas positivas de discos que eu produzi e que saíram neste ano, o próprio Pare e Siga, e também o Cristalina.

É nois no Grobis

É nois no Grobis

Written by missionariojose

November 9th, 2009 at 7:09 pm

Arriando a Lombra

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O produtor dos produtores, Sir George Martin

O produtor dos produtores, Sir George Martin

Para o dia de hoje eu prometi voltar da viagem que comecei há quinze dias, trazendo a conversa para o nosso quintal, onde estamos falando de música e produção fonográfica / musical. Imaginando uma balança cujos pratos representariam as necessidades de divagar e experimentar do músico / artista de um lado, e a obrigatoriedade de colocar os pés no chão e focar do outro, podemos tentar visualizar a leitura dessa balança ocorrendo em diversos níveis. Existe música cuja finalidade é extremamente prática – por exemplo, satisfazer a necessidade humana de dançar – mas cujo processo de criação envolve uma quantidade generosa de abstração, o que é comum em vários segmentos da música eletrônica focada nas pistas. Do mesmo modo, a abordagem de produção pode pesar pra qualquer um dos lados, sendo que o fiel da balança é o resultado de uma equação complexa envolvendo prazos, orçamentos e o estágio da cadeia alimentar em que um determinado projeto esteja localizado. E para tornar a sua experiência aqui em Jardel mais aprazível, em cada foto de produtor nesta página, e em alguns dos links, você pode ouvir uma faixa produzida por ele.

Entender exatamente o que um produtor musical, o produtor “de discos”, não é uma tarefa fácil para quem nunca esteve envolvido em uma produção. Eu mesmo estou tentando há uns 15 anos explicar pra o meu pai, e ainda não consegui. Historicamente, o produtor surge como uma espécie de advogado do diabo, lidando com uns 4 ou 5 diabos ao mesmo tempo. É mais ou menos como se ele fosse o Peixe Babel no ouvido de todos dentro do estúdio, fazendo com que as coisas funcionem. Na época em que as gravadoras cantavam de galo, o produtor também era o camarada que precisava traduzir as intenções desta para com o artista e vice-versa, e transformar o resultado deste diálogo, de preferência, em um disco de vendagem significativa. Mesmo lá no extinto mundo dourado das gravadoras, não era tão fácil definir exatamente o que um produtor faz, pois desde sempre a quantidade de exceções impede a cristalização de quaisquer regras. Como se chega à função de produtor por um sem-número de caminhos, de um modo geral o máximo que se pode determinar é que um produtor é um grande acumulador e redistribuidor de tarefas.

Lee Perry demonstra a melhor técnica pra descobrir se a mix tá batendo
Lee Perry demonstra a melhor técnica pra descobrir se a mix tá “batendo”

A abordagem de cada um nesse processo varia, da mesma forma, entre os dois lados da nossa balança lá de cima. Lee Perry, por exemplo, sempre esteve firme e forte pesando no lado pró-viagem. Com um cardápio de técnicas em estúdio que vão do uso um tanto pioneiro de samples – como é o caso do bebê chorando em “People Funny Boy”, a faixa da foto ao lado – até procedimentos menos ortodoxos como enterrar os rolos de fita no quintal para a música gravada neles ‘apurar’, Perry não poupava esforços nem tempo para transformar em som suas idéias. Essa atitude quase xiita, compartilhada por outros medalhões como o Phil Spector, normalmente rende histórias lendárias e uma corrente de desafetos, mas também resultados atemporais, vide a seqüência de singles dos Wailers que ele produziu antes do pau cantar entre Scratch e os rapazes.

O exemplo clássico do desequilíbrio pro lado viajandão é o do turbulento Brian Wilson, que levou 37 anos pra terminar um disco, que afinal de contas não ficou nem tão legal assim. Tudo bem que Wilson produzia a si mesmo e sua banda, e que a fórmula já tinha dado ao mundo e aos Beach Boys sua obra-prima, mas que o caldo entornou, entornou e foi de muito.

Do outro lado, os produtores “no-nonsense” são devotos ferrenhos da crença que é com sangue, suor e muita pré-produção que alcançaremos o paraíso. Esse é o caso do Rick Rubin, famoso por passar bastante tempo em ensaios resolvendo  problemas antes mesmo que eles aconteçam. Um adepto da meditação transcedental, Rubin acredita que não se deve perder tempo girando lâmpada em estúdio, e que boa música se faz com bons músicos se sentindo à vontade para dar o melhor de si. Funcionou com o Red Hot Chilli Peppers, mais de uma vez, e acrescentou logo 5 grandes discos à discografia de Johnny Cash, onde disco bom não é exatamente um item em falta.

Eu sempre quis ser que nem o Rick Rubin quando crescesse. Pelo menos na barba eu sei que eu me garanto

Eu sempre quis ser que nem o Rick Rubin quando crescesse. Pelo menos na barba eu sei que eu me garanto

Se a balança pesar muito pra esse lado, vamos encontrar camaradas como o multimilionário Timbaland, ou mesmo o celebrado Butch ‘E não é que o som de bateria do Nevermind é o mesmo do Siamese Dream?’ Vig -  a prova do apelido você confere aqui e aqui. Nesses casos, é comum que o artista se encaixe em alguns ‘presets’ do modus operandi do produtor, alguns truques que já tenham se provado mais certeiros. Também dá certo, eu mesmo acho SexyBack um single muito decente e bem-resolvido. Coincidentemente, ambos também tem a sua própria carreira como artistas per se.

E como o próprio rumo da conversa sugere, a fauna é bastante rica entre um extremo e outro, com espécimes realmente interessantes, como Brian Eno, que tem no seu cardápio de especialidades o truqe de tirar os músicos da sua ‘zona de conforto’ através de boas doses de diletantismo e distração, pra então cair matando e espremer um disco na pressão. Foi assim que saíram alguns dos melhores discos do Talking Heads e na minha opinião o melhor do U2, mas do mesmo modo saiu um “Viva La Vida”, que é uma prova cabal que time que está ganhando merece levar um puxão de orelha de quando em vez.

E é no meio do caminho que encontramos o mestre do equilíbrio, Sir George Martin, cujas produções dentro e fora da franquia Beatles são uma aula em vários sentidos. Ele foi capaz de extrair o “Please Please Me” na base do fórceps em mais ou menos 12 horas, e também administrar a mega viagem coletiva de “Tomorrow Never Knows”. E quando as complicações dos quatro fabulosos se mostraram demais pra aguentar, ele mandou o lima, e fez bastante falta, mostrando que até os Beatles precisavam de alguém no pé do ouvido dizendo pra onde ir.

Passando em revista os nossos convidados de hoje, temos exemplos práticos e funcionais em cada parada dessa escala entre os pés no chão e a cabeça nas nuvens. É interessante perceber que em alguns momentos, todos estes indivíduos acertaram na mosca, e criaram sonoridades e faixar atemporais. Também é curioso ver que a abordagem de cada um não está condicionada à sua porta de entrada no mundo da produção, pois temos desde um ‘não-músico’ assumido, como o Eno – talvez isso explique o Coldplay, de repente – até um músico com todos os predicados da erudição disponíveis, como o cavaleiro George. Talvez eu tenha acertado ao dizer que um produtor é basicamente um acumulador e redistribuidor de tarefas, uma espécie de gerente multifacetado. Talvez daqui a uns 40, 50 anos essa figura tenha novamente se diluído entre outras novas funções que vão aparecendo à medida que o mercado da música como o conhecemos se transforma naquele ao qual vamos ter que nos adaptar. O certo mesmo é que alguém sempre vai ter que escolher qual take foi a boa.

Written by missionariojose

September 21st, 2009 at 2:11 pm

O poder mágico das situações adversas

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Onde quer que você esteja, essa melodia está sendo ouvida em um raio de 100 metros

Onde quer que você esteja, essa melodia está sendo ouvida em um raio de 100 metros

O título desse texto me ocorreu numa conjunção de fatores, especificamente ouvindo o Machine Head do Deep Purple no metrô, voltando pra casa depois da master do disco da Alessandra Leão. O Machine Head é um desses discos “lenda viva” – que transcendem a categoria de disco clássico, e se torna parte das entranhas da nossa cultura, surgindo em todo canto, desse moleque aqui testando uma Les Paul coreana na Rua da Concórdia com o riff-haikai de “Smoke on the Water“, até um anúncio de algum carro-família que eu vi ano passado, tocando “Highway Star”. Sem o Machine Head, o DP provavelmente seria uma banda de Hard Rock / Metal da segundona, brigando ali com o Dio e o Quiet Riot por um lugar na eternidade, e fornecendo mão-de-obra especializada para os deuses da primeira divisão.

Mas o Machine Head é um senhor disco, e não foi fácil de fazer. Na época, o Deep Purple ainda era uma banda que pegava no pesado, e na maior parte do tempo viajava de ônibus. Emendando uma turnê na outra, tinham pouco tempo pra perder em estúdio, pois eles – como nós hoje em dia – ganhavam dinheiro mesmo tocando, e não vendendo disco. A solução foi alugar a unidade móvel dos Rolling Stones e gravar na estrada, numa pausa nos trabalhos após o Festival de Montreux de 1971, no Cassino onde o festival acontecia – nessa época o festival era pequeno e durava uns dois ou três dias. Sendo que o cassino pegou fogo, durante o show do Frank Zappa, e como diz o ditado, fudeu. A solução foi um hotel que estava fechado, onde fazia frio e as condições não só não eram as melhores como eram ruins pacas, e o jeito foi improvisar com colchões, camas e lençóis. O resumo da ópera, inclusive, é a própria Smoke on the Water, que conta direitinho como tudo aconteceu.

Maestro Caçapinha e seu ouvido infalível

Maestro Caçapinha e seu ouvido infalível

Comparado com o Machine Head, Dois Cordões, o disco novo da Alessandra, é como o Tusk do Fleetwood Mac, para o qual se construiu um estúdio só pra começo de conversa. Mas nem tanto, nem tão pouco. A adversidade mágica no caso foi conseguir gravar e mixar um disco cheio de detalhes em pouco tempo, desde o começo, aqui em SP – onde gravamos todas as percussões e vocais principais em menos de uma semana, ainda por cima fazendo umas duas música do zero – até o final – a participação de Jorge Du Peixe no disco foi gravada aqui DURANTE a mixagem da mesma música em Recife. Ninguém teve que passar frio – acho que só a Alê reclamou um pouquinho do ar-condicionado lá da YB, mas também ninguém ficou de bobeira. Esses e alguns outros exemplos – que eu testemunhei até hoje, ou sobre os quais eu li ou assisti, me colocaram uma pulga atrás da orelha perguntando: “Será que músico só trabalha bem sob pressão?”.

Aqui todo mundo fazia o dever de casa. Talvez isso explique os penteados.
Aqui todo mundo fazia o dever de casa. Talvez isso explique os penteados.

Talvez sim, talvez não. Eu normalmente estimo que, uma vez que a música esteja pronta do ponto de vista de melodia, ritmo, arranjo e forma, ela leva entre 6 a 12 horas pra “florescer” em estúdio – entre gravar tudo o que precisa ser gravado, aparar as arestas de performance e arranjo, e mixar. Isso é uma média no melhor estilo “ou dá, ou desce”, porque baseado nisso você planeja 100, 150 ou 200 horas pra fazer um disco inteiro, e isso é o que você tem, pro bem ou pro mal. Normalmente, a sempre presente culpa recai sobre o dever de casa malfeito, a música que não chegou pronta no estúdio, o músico que na hora H não compareceu, o café que tava morno, o cachorro que latiu. Sendo que cada exemplo de problema, há outro mostrando que esse não é um problema tão grande assim.

A minha teoria propõe que sob pressão, perdemos menos tempo explorando as infinitas possibilidades do mundo pós-moderno. Mas se o importante – eu mesmo falei isso duas semanas atrás – é saber explorar as possibilidades, experimentar novas idéias, como é que fica esse negócio? Aí é que entra uma habilidade difícil de medir, e que a gente só desenvolve na lida: a nossa capacidade de fazer escolhas. Fazendo um paralelo, seria o equivalente na música e no áudio do “olho clínico”. Você não precisa ter 20 sons de caixa ou 30 takes de uma voz, o que você precisa é saber qual é o que presta. De preferência, sem ter que ouvir tudo de novo umas 30 vezes. Para este ponto, vamos recorrer à categoria “analogias úteis entre música e culinária”: É o ponto da massa e do tempero que diferenciam uma iguaria de uma papa intragável, ou mesmo de um prato bem-servido, mas sem graça.

Essa é da época em que pedalar tinha uma conotação positiva
Essa é da época em que “pedalar” tinha uma conotação positiva

Esse “ouvido clínico” também é quem liga os neurônios certos na hora de inventar alguma coisa inusitada mesmo quando o bicho está pegando, e nos permite aferir se a idéia está ajudando ou é melhor parar enquanto é tempo. Eu não creio que isso seja alguma espécie de poder Jedi conferido a alguns poucos premiados pelo destino. Acho que é algo que a gente desenvolve, num processo que pode ser mais rápido ou mais lento de acordo – aí sim – com a predisposição natural de cada um. Apelando para a categoria “analogias úteis entre música e futebol”, é feito o gol de bicicleta – primeiro você precisa aprender a fazer, depois você precisa saber se é a hora certa de arriscar.

Pegando emprestado a metalinguagem do Ian Gillan na faixa lá de cima, eu confesso que não posso me alongar muito nesse momento, estou quase me atrasando pra uma reunião. Como esse post é a parte 1 de uma conversa maior sobre as relações entre pragmatismo e divagação, na música e nas artes em geral, talvez seja bacana também ficar divagando – se eu disser filosofando eu vou apanhar da Júlia Grande – sobre essas questões. Modos que pra fechar a conversa do dia eu deixo a pergunta: Você trabalha melhor sob pressão?

Written by missionariojose

September 4th, 2009 at 10:26 am

Aventuras em Diversos Canais, Cap. 4 – Rodrigo Campos – Brother José

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Essa faixa do primeiro disco de Rodrigo Campos, “São Mateus não é um lugar assim tão longe”, foi produzida pela Jardel em parceria com Beto Villares, que produziu todo o disco. Em “Brother José” temos, além de Rodrigo na voz e cavacos, Curumin na bateria, Missionário José no baixo e André Édipo na guitarra. Groove bom e certeiro.

Brother José by jardel

Rodrigo e o Cavaco, em São Mateus

Dando seguimento aqui a esse post, vou complementar com algumas explicações sobre como fizemos essa faixa, há pouco mais de um ano. “Brother José” como a conhecemos acabou virando o meu primeiro trabalho como freelancer para a Ambulante, e começou meio de repente num dia em que o Curumin passou por lá pra gravar algumas participações no disco do Rodrigo. Subindo e descendo as escadas da Ambula fazendo alguma coisa que não me lembro – provavelmente eu devia estar organizando alguma coisa do Antônio pra deixar o meu ex-cargo de assistente devidamente assistido – o Beto me chamou pra gravar um baixo numa base junto com o Curumin, em cima de uma guia de voz, violão e click do Rodrigo. O baixo em questão foi um Hofner viola, de destro mesmo e que eu toquei de cabeça pra baixo, um processo meio alienígena que é a segunda coisa que todo canhoto aprende a fazer quando começa a tocar. E tocando com um baterista do quilate do Curumin, também, o camarada toca até sem baixo.

Tudo isso vira som, e muito mais

Tudo isso vira som, e muito mais

Pra base, fizemos uns três takes, e creio que o que ficou foi o terceiro. Eu peguei um DVD com as faixas todas e a sessão, e fui cuidar da vida, pra terminar a canção em Jardel. O próximo passo foi ouvir os takes, e aí eu fiz um mix rápido de alguns loops da levada, pra criar outros efeitos fora do ProTools, em alguns outros brinquedos favoritos: O MetaSynth e o SoundHack. Ambos são dois companheiros fiéis dos meus tempos de Bangor, onde eu passei diversas madrugadas transformando gravações de ambiência, voz e objetos diversos em sons de berimbau interplanetário e sapo-boi marciano, entre outras coisas. Se o que você precisa é de um som maluco doidão on-demand, vá de SoundHack e MetaSynth. Aproveite e saia um pouco de dentro da sua Workstation preferida e experimente brincar com sons de um jeito diferente.

Dentro do SoundHack, uma das melhores coisas é a parte de Convolução, que na prática é uma maneira de imprimir as características de um determinado som – digamos uma bateria – em um outro som – digamos um feedback de guitarra. É mais ou menos como se fosse um vocoder extremamente complexo e imprevisível, numa definição meio grosseira que ninguém deve sair por aí dizendo que é uma explicação plausível e suficiente pra o que é convolução. Até porque o SoundHack também tem um setor de Phase Vocoding que é uma coisa linda do Senhor.

O responsável por estes e alguns outros grandes sons

O responsável por estes e alguns outros grandes sons

Depois de alguns dias no parque de diversões, nestes dois e também no Live – que roda dentro do PT, mas não abre plugins externos, como esse belo Fuzz gratuito da Audio Damage, por exemplo – chegou a hora de editar toda essa brincadeira e jogar de volta na sessão, ver o que casa, o que não casa, e assim por diante. Também chegara a hora de acrescentar mais umas coisas pra  vestir a música, no que justamente ajudou o André com sua nossa Craviola fiel, passando pelo também fiel escudeiro Bass Driver  SansAmp da Tech21, uma das caixinhas de melhor custo-benefício do mundo inteiro.

A estratégia do Édipo partiu de um dos mandamentos / axiomas  Jardelenses – “Colarás no Bumbo sobre todas as coisas”. A partir disso, o desenho da guitarra deu aquele movimento que estava faltando nos versos e na introdução. Aquele famoso gancho que puxa você pela orelha e empurra pra pista de dança. Para os refrões, eu usei uma técnica que eu apelido de “Mellotron Rural”, pra criar umas cordas fictícias e dar um clima mais épico para essas passagens da música, e complementar as guitarras ascendentes. Nestas, a cada volta do refrão a gente foi gravando com o vibrato mais rápido, um detalhe que não fica claro na mix – nem é pra ficar – mas que colabora pra o sentimento de urgência que vai se acumulando à medida que o tempo vai passando.

ナカターさん

Curumin, sempre resolvendo

Passado este estágio, mandei a música de volta pra Ambulante, onde voltamos a trabalhar nela alguns meses depois, que foi quando o Rodrigo gravou seu cavaco e um repique de mão pra garantir a metalinguagem. Gravou também a voz principal, e fez algumas modificações na melodia até chegar a essa que ficou na música. Nessa etapa, passamos por mais um processo de seleção, tirando e recolocando elementos pra música não ficar enfeitada demais, nem vazia de menos. Isso incluiu também diversos takes de cavaco com efeito do Rodrigo, gravados lá no começo do processo, que foram se refinando até chegar a alguns comentários e um riff que aparece de vez em quando. Para fecharmos de vez o refrão, contamos novamente com o auxílio luxuoso do Curumin, mandando ver no vocal e conferindo ainda mais austeridade à faixa.

A mix ficou por conta do Dr. Lenza, que é um mestre na arte de colocar cada qual em seu devido lugar, em mono e stereo. Como normalmente acontece quando eu estou produzindo e outra pessoa está mixando, eu gosto de deixar pra dar pitaco quando a impressão digital do responsável pela mix já apareceu – eu acho que o legal do processo colaborativo é justamente você poder se surpreender com o trabalho dos outros, o que não acontece se você vira aquele “produtor papagaio” que fica dependurado no ombro do  engenheiro o tempo todo. No final das contas, em um disco com várias participações especiais, produtores e músicos, ficou também na mão de Lenza a responsabilidade de costurar o disco todo em uma peça coesa, como ficou no final.

Uma das coisas que eu achei mais interessantes nessa produção foi como a música do Rodrigo veio ‘de fábrica’ com uma personalidade que integrou elementos e pessoas diferentes, em lugares e tempos diferentes, e resultou numa faixa em que você tem a nítida impressão de que está todo mundo tocando ali junto. Ouçam, e aproveitem pra ouvir as outras faixas de “São Mateus não é um lugar assim tão longe”.

BrotherJose

Written by missionariojose

August 28th, 2009 at 10:00 am

Lasanha da Sadia Sound System

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Um som, qualquer som, ele existe dentro da atmosfera que nos cerca. A proverbial árvore caindo dentro da floresta sem ninguém para ouvi-la ao cair, talvez não esteja soando por não ter ouvidos que a escutem, mas potencialmente será ouvida por uma sabiá, ou pela barriga de alguma cobra. Vai estar movimentando o ar à sua volta, e quem tiver alguma espécie de ouvido que escute. Quem tiver alguma espécie de microfone, que grave, e transforme sua queda não em um som, mas em oscilações de um campo magnético, ou em fileiras de zeros e uns agrupados em grupos de dezesseis ou vinte e quatro ou trinta e dois. Que podem ser reinterpretadas e ouvidas por orelhas crédulas que disponham de um pouco de tempo e atenção.

O que se faz com esse som, é problema de quem o manipula. Um som de árvore caindo pode ser só mais um som de árvore caindo dentro da pasta “Árvores Caindo” da sua biblioteca de sons. E pode virar outras coisas, pelas vias das mãos de quem está mexendo nele. Essa sempre foi uma possibilidade fascinante, que raramente consegue ser levada à exaustão, no mundo de hoje em dia em que as possibilidades são infinitas e se multiplicam infinitamente.

Bom mesmo era não ter que escolher e dispor de um Plate desses no quintal

Bom mesmo era não ter que escolher e dispor de um Plate desses no quintal

Essa multiplicação infinita de possibilidades gera uma necessidade nova – ou talvez nem tanto – do humano moderno, a de reduzir as opções de escolha, pois ninguém tem tempo de ficar escolhendo um dentre 45 sabores de sorvete, ou 30 tipos de equalizadores ou tempos ou algoritmos de reverb. Essa tendência está presente no sucesso do Google, por exemplo, que faz a tua barba, teu cabelo e teu bigode e não cobra nada porque na verdade ele ganha dinheiro com o anúncio de loção pós-barba que ele pendura no espelho na tua frente. E está presente no mundo do áudio digital nos pacotes que incluem tudo e um pouco mais em que se transformaram o Logic e o Pro-Tools. Mas não só nos mega-pacotes de coisas, mas principalmente em aplicativos e acessórios no estilo “melhorizer”, que podem facilitar a vida dos aspirantes no mundo da música e da produção fonográfica.

Eu tenho percebido uma certa tendência de facilitar demais a vida, justamente num momento – não do mundo, mas da vida individual de um aspirante a técnico de gravação, por exemplo – em que o que o cabra precisa é quebrar a cabeça pra entender como um compressor funciona. Um bom exemplo disso são as Signature Series da Waves, pacotes de plug-ins com a assinatura de grandes nomes do áudio mundial, como o Tony Maserati – responsável pelo som de arrasa-quarteirões como Black Eyed Peas e Destiny’s Child – e agora do Eddie Kramer, que dispensa apresentações. Esses pacotes oferecem, no lugar de ferramentas individuais como compressores, equalizadores e reverbs separados, combinações de processamentos em pacotes com nomes sugestivos como “Vocal Channel”, “Bass Channel” e “Drum Channel”, com um visual que lembra a cabine de comando do Nautilus no filme “Vinte Mil Léguas Submarinas”. Em resumo, é tipo um “Robert Plantizator” pra você passar o cantor expansivo daquela banda insossa de Hard-Rock, ou um “Fergierizer” pra você passar aquela popozuda meio desafinada que quer fazer sucesso a todo custo. Qual é o lugar dessas caixinhas em uma produção que se preze?

Relaxa aí, Nemo, que a gente ajeita na mix...

Relaxa aí, Nemo, que a gente ajeita na mix...

Veja bem, eu não tenho nada contra a Waves. Sou um usuário dentro dos conformes – pago pela minhas licenças em suaves prestações mensais – e devoto dos plug-ins deles, que são pau para quase toda obra. Acho o trabalho deles realmente fantástico, assim como o de outros fabricantes de Plug-ins como a Massey e a McDSP. Também não tenho nada contra o cara diversificar sua linha de negócios, criando novos produtos com a chancela de nomes que criaram sonoridades que se tornaram a referência de diversas gerações. E do Tony Maserati, e principalmente do Eddie Kramer eu não tenho nada a dizer de negativo, os caras estão lá no panteão dos nomes que nos ensinaram uma boa parte do que sabemos.

Kramer criando seus clássicos

Kramer criando seus clássicos

Mas eu acho um negócio meio destrambelhado o camarada sapecar um “Bass Channel” ali e um “Guitar Channel” aqui, e não se dar o trabalho de entender o que está acontecendo com o som que ele captou. O que seria um processo natural, eu creio, pois o pacote da Waves não vem com o John Bonham incluído, tampouco com a sala do Olympic, nem mesmo com uma Strato branca de canhoto pra você tocar de cabeça pra baixo e muito menos com os ouvidos do Eddie Kramer. Não vem com as manhas e mumunhas de produção do Will.I.Am ou do Jimmy Page. De modo que não vai fazer as coisas soarem do mesmo jeito por obra e graça do Espírito Santo. E se você não consegue desmontar a maquininha pra ver como funciona, como é que você vai aprender alguma coisa? Ou ainda, se você chegar num estúdio que te ofereça essas peças todas separadas, mas não o pacote, como é que se aprende a colocá-las na ordem certa?

O segredo não está em tocar ao contrário, acredite

O segredo não está em tocar ao contrário, acredite

Por outro lado, será que eu não estou sendo muito Caxias? É tão importante assim sofrer pra entender toda essa parafernália que nos rodeia? Será que se a gente perder menos tempo desvendando esses mistérios vamos fazer música melhor? Eu normalmente penso que essas coisas são como uma lasanha da Sadia – onde há claramente uma proporção inversa entre a facilidade de usar e a riqueza do sabor ou mesmo a diversão na feitura. Ao contrário, por exemplo, dos plug-ins do Live, que são ótimos pontos de partida pra você exercitar sua criatividade – ainda mais agora com essa integração com o Max – as lasanhas da Sadia não nos oferecem a chance de desmontar e remontar de outro jeito, de colocar um tempero no molho mas não massa.

Ou talvez esse seja um ótimo fiel pra nossa balança. De repente, testando um Drum Channel do Eddie Kramer a gente se sinta inspirado a usar nossos compressores e reverbs de outro jeito. Tem gente que, quando enjoa da lasanha da Sadia, chama um China In Box, mas tem gente que aprende a cozinhar.

Written by missionariojose

August 21st, 2009 at 11:56 am

Links Rápidos para quem tem Pressa

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Esse vídeo do Bernard Purdie é um dos diversos vídeos dele dando toques para bateristas aspirantes disponíveis no YouTube, mas virou o favorito da semana aqui em Jardel pelas interjeições do Purdie ao demostrar suas contribuições ao mundo das batidas fantásticas. Assitam até o final:

Saiu na revista Continente desse mês uma matéria sobre produção musical, com depoimentos deste que vos escreve, e também do Leo D, Beto Villares, Jeff Moura e Kassin. A matéria não está online – sem dúvida uma iniciativa que a revista já poderia ter tomado – mas há uma prévia aqui, e quem quiser pode sempre tentar comprar a revista.

E por fim, no MySpace do Cidadão Instigado já tem uma música do disco novo que sai agora em Agosto ou Setembro, “UHUUU!”.

Written by missionariojose

July 30th, 2009 at 7:31 pm

Aventuras em Diversos Canais, Cap. 3 – Mundo Livre S/A – Deixa essa Vergonha de Lado

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As coisas no mundo misterioso da produção fonográfica não tendem a ser rápidas. Pelo contrário, elas dependem de um emaranhado de variáveis sobre as quais raramente a gente consegue ter algum controle, seja o tempo que leva pra terminar um arranjo, achar o clima certo pra gravar uma voz, acertar algumas palavras na letra ou notas na melodia, essas coisas realmente não são rápidas, mesmo pros mais rápidos. Parafraseando o Beto Villares, fazer coisa boa leva tempo. Do mesmo modo, por vezes o acaso nos dá um fôlego extra, ou uma combinação de fatores incomum em que as coisas andam bem e rápido ao mesmo tempo. É o caso da faixa deste capítulo, uma versão de um clássico do grande Odair José, feita pelo Mundo Livre S/A.

Eu nunca me questionei muito o porquê, mas o MLSA é uma banda muito rápida em estúdio. Talvez por causa da experiência do “Samba Esquema Noise”, em que o pessoal passou – segundo uma lenda da época no Jornal do Commercio recifense – umas seiscentas horas no estúdio. Eu nunca parei pra confirmar com nenhum dos envolvidos quanto tempo o disco levou de fato, mas em se tratando de uma obra-prima, sem dúvida valeu a pena. De qualquer modo, em todas as vezes que eu trabalhei gravando a banda, foi tudo muito rápido. E dessa vez, especificamente, foi tudo muito rápido mesmo, 6 horas desde começar do zero até a mix final, no caso.

Nessa sessão o Mundo Livre foi o Fred Zeroquatro e o Areia, um dos meus maiores ídolos, com quem eu tive a sorte de trabalhar muitas vezes, e o estúdio foi o Fábrica velho de guerra. Como referência pra o que a gente ia fazer, o Fred trouxe o Trans do Neil Young, sugerindo alguns detalhes de programação e também usar um vocoder na voz. Programamos a batida e a estrutura do arranjo no Reason, usando alguns sons de baterias eletrônicas antigas, um sintetizador arpejado e outro numa cama para satisfazer qualquer fã do Mr. Mister.

Em seguida, gravamos o baixo com um dos ‘frankensteins’ de Areia, direto no Avalon 737sp com uma compressão supimpa ali na casa dos 4:1. O cavaco foi gravado da mesma maneira, usando um cavaco JB que o Fred usa ao vivo, cheio de espuma pra evitar feedback, o que foi ótimo pra dar o timbre mezzo guitarrada paraense – mezzo guitarra africana que a música pedia – complementado por um delayzinho curto na mix. A voz foi gravada num Neumann TLM 103 também no Avalon, mas com um pouco menos de compressão.

O vocoder infelizmente não foi esse da foto. Ou felizmente, porque um bicho desse tamanho deve levar umas 3 horas só pra ligar e deixar funcionando. Usamos mesmo o bom e velho Orange Vocoder, que não fica devendo nada a nenhum vocoder de hardware, só chama menos atenção dos clientes. Nesse caso específico usamos três regulagens, um mais ‘Robô Gigante’ pra voz principal na primeira estrofe e refrão, outro meio ‘Coral de Robôs’ pra segunda, e uma terceira mais tradicional pro refrão final, onde a voz de Fred também aparece ao natural.

A mixagem, do ponto de vista de equilíbrio dos elementos, foi simples. O que é difícil quando temos poucos elementos em jogo é manter a atenção do ouvinte durante dois ou três minutos. Pra isso, e como a música tem uma forma bem básica – Intro + AB + ABB, o truque foi colocar alguma coisa nova a cada parte, e brincar com o som da voz também, que estaria no centro das atenções como lhe é peculiar.

Outro fator importante na mix foi a abordagem ‘Rudy Van Gelder‘ de Areia, segundo a qual as coisas que soam simples e bem funcionam melhor do que acrobacias na mix. Achando o canto de cada um, todo mundo fica feliz, em outras palavras. Para ressaltar o aspecto baile da canção, apertamos tudo um pouco mais do que costumamos, mas nada demais para não atrapalhar a poesia e o comentário social da faixa, que você pode ouvir abaixo, e na coletânea “Eu vou tirar você desse lugar“, produzida pela Allegro Discos com distribuição da Tratore.

DeixaEssaVergonha

Não, não foi esse o nosso vocoder

Não, não foi esse o nosso vocoder

P.S.: Buscando o link da Propellerhead, eu me deparei com isso aqui. Ai, ai, ai…

Written by missionariojose

July 22nd, 2009 at 12:27 pm

Botando em Dia

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  • No site da Trama Virtual, hoje e nos próximos dias temos uma entrevista do Profiterolis e outra da Stela Campos sobre seus mais recentes trabalhos, que contaram com a participação do Missionário na produção, e também tocando coisas aqui e ali. Lembrando que você pode ouvir e baixar coisas aqui e aqui, dos dois discos respectivamente.
  • Ainda falando da Stela, ela e sua banda estarão na Livraria da Esquina nas quintas-feiras 25/06 e 02/07 com o show do Mustang Bar, contando com as participações especiais do Departamento Celeste e dos Black Horses, com discotecagem do Bruno Orsini e da Katia Mello. A Livraria fica na Rua do Bosque, 1254, na Barra Funda.
  • Ainda essa semana em Jardel  estamos terminando e mandando pra fábrica o disco de estréia de Biu Roque, uma das grandes vozes do Brasil, que muitos provavelmente já conhecem dos discos do Siba e do Beto Villares, entre outros. O disco conta com a participação destes e de vários outros aprendizes do grande Biu Roquinha, e é uma produção em parceria do Missionário com Caçapa e Alessandra Leão, que também aparecem tocando e cantando em várias faixas.
  • Ainda sobre mandar pra fábrica, fontes fidedignas confirmam que o Cristalina, disco “de estréia” da Lulina, seguiu pra prensagem e brevemente chega ao público em geral.
  • Boa parte da nossa ausência aqui em nosso espaço virtual deveu-se ao espetáculo “Lo Cor de La Rosa”, que percorreu agora, na primeira quinzena do mês, boa parte do interior Paulista, a Capital e também foi até o Recife. O projeto consiste na associação do grupo vocal de Marselha Lo Cor de La Plana com a Renata Rosa e seu conjunto. Pra quem não teve a oportunidade de assistir aos shows da turnê, recomendo buscar vídeos do Lo Cor na internet para conhecer os caras, que entendem um bocado de gogó:

Written by missionariojose

June 21st, 2009 at 1:25 pm

As duas semanas dos presidentes – 06.05.09

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  • Recebemos, ainda em Abril, uma cópia de “São Mateus não é um lugar assim tão longe”, disco de estréia de Rodrigo Campos, bastante noticiado na imprensa local e nacional, inclusive. A terceira faixa do mesmo, de título ‘Brother José’, contou com produção e baixo elétrico do Missionário homônimo – que não é o brother em questão, apesar da amizade iniciada com o compositor por ocasião desta empreitada – e guitarras embaladas do André Édipo. A faixa, que também conta com a bateria e os vocais magistrais do Curumin,  pode ser ouvida no nosso Myspace, e também no site da Ambulante.
  • Segunda, dia 27, o Missionário foi até Pirassununga conferir um ensaio dos meninos do Projeto Guri, pra música ‘Os Fugitivos’, do Maurício Pereira, que será produzida por Jardel no disco “Guri Convida”, cujas gravações começam no mês que vem. Quarta, dia 29, foi a vez do Pólo Mazzaropi, na capital, pra conferir a música do Curumin, e fechando o mês o Pólo Júlio Prestes, pra conferir como vai a do Siba.
  • Em Recife, no dia 25, houve a primeira edição do festival Quintal PE, que contou com shows de Nação Zumbi, Eddie, Otto, Blind Date (Naná Vasconcelos + DJ Dolores), Eta Carinae, Bonsucesso e Vargas. Neste festival houve a reedição do show China+Mombojó que foi feito ano passado em algumas cidades – Recife, São Paulo, Rio e Curitiba. André tocou com China e os Mombojós e o show foi muito bom.
  • Também em Recife, um dia antes do festival, foi inaugurado o Memorial Chico Science onde a Jardel fez o sound design para ambiente imersivo que conta com projeção e utilização do Vimus, do grande Jarbinhas.
  • Outro disco que está em processo de lançamento – digamos assim, é o novo do Profiterolis, produzido pelo Missionário junto com a banda, e gravado ao vivo (com e sem platéia) no teatro do SESC de Casa Amarela no meio do ano passado. Por enquanto você pode baixar um single no site da banda – www.profiterolis.com – e também assistir a um trecho de um making-of que está sendo feito pela nossa querida Tatiana Almeida:

  • Voltamos hoje de um breve período de visitas no Rio de Janeiro, aos amigos das antigas e também a novos amigos e parceiros. Jardel presente e no resumo seguinte, mais novidades.

Aventuras em Diversos Canais, Cap. 2 – Sivuca & OSR – João e Maria

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Voltando à nossa série, e também a 2004, resolvi buscar uma faixa que pra mim teve um significado muito importante, de uma forma quase multidisciplinar, digamos assim. Não é todo o dia em que você grava uma das suas músicas favoritas com o próprio compositor dela. E João e Maria é uma das minhas músicas preferidas, desde sempre, fato devidamente documentado em alguma fita K7 onde estou eu lá cantando com uns três anos de idade.

Numa das diversas pausas no disco d’Azabumba, eu fui convidado pelo Paulo Lima – possivelmente o melhor diretor que o Depto. de Música da UFPE já teve, sem dúvida o mais camarada – e pelo Osman Gioia – que foi meu professor na especialização e também é o Regente da Orquestra Sinfônica do Recife – pra gravar um disco da OSR com o Sivuca, executando um repertório que já fazia tempo que era executado em seus concertos com Orquestras em geral, e da OSR com ele – que também foi responsável por todas as orquestrações.

A idéia seria gravar no Teatro do Centro de Convenções da UFPE, que não é a melhor das salas, mas também está longe de ser a pior. Na verdade, é uma sala bem-comportada, talvez com uma reverberação um pouco longa demais. Definitivamente não é tão suscetível aos ruídos do exterior quanto o Sta. Isabel, por exemplo, que tem uma acústica muito legal, mas um isolamento de mentira, e é bem mais útil pra gravação do que o Teatro Guararapes, talvez grande demais. E bom, faz parte do conglomerado UFPE, então ficava bem mais acessível para o Depto., pra começo de conversa.

O equipamento para a gravação foi o do próprio estúdio, devidamente desmontado e levado pro teatro, e ficou sob os cuidados meus, do grande Adriano Nascimento, e do Marcílio. Gravamos com um par espaçado, tendo a opção de um terceiro microfone central caso o centro ficasse muito vazio, e alguns microfones pontuais por naipe, além de um microfone para a Sanfona solo. O Adriano e o Marcílio ficaram cuidando da botoeira e dos níveis, e eu cuidei de olhar as grades e acompanhar a orquestra pra ninguém passar a perna na gente. O disco foi todo feito em uma semana, começando com a montagem e ajustes na segunda-feira, e na quinta já tínhamos tudo no HD.

Gravar orquestra é um dos maiores exercícios de organização e foco, e uma aula de como resolver os problemas de uma produção antes que eles se tornem problemas. Antes de mais nada, o empenho de reunir uma Orquestra Sinfônica, em qualquer lugar do mundo, está além das forças de qualquer indivíduo. Depois de reunido, acomodado e microfonado, é sempre bom lembrar que estamos falando de umas duzentas pessoas, e não de quatro ou cinco. Pra mandar rodar um take, é melhor checar algumas vezes se está tudo ligado, com exceção dos celulares. E ouvir – e anotar – o que acontece no take, pra saber se precisa refazer tudo, só um pedaço. E lembrar que uma parada pro cafezinho tende a levar entre 40 minutos e uma hora. Mais ainda quando a orquestra é repleta de figuras do naipe de Homero Basílio e João do Cello.

Por outro lado, é um som que tá ali, tá pronto. Ao contrário de uma mixagem de música popular, em que você normalmente constrói um som ancorado em alguns elementos, com a orquestra você parte de uma perspectiva que já existe, é só não estragar. No nosso caso particular, usamos a técnica de gravar uma claquete pra alinhar todos os microfones pontuais com os microfones do ambiente, que economizou um bocado de tempo na preparação das faixas pra edição e mixagem. A edição foi quase nenhuma, meramente juntar algum material que tenha chamado mais atenção de um take com outro, e a mixagem foi praticamente um passeio no Parque da Jaqueira ao por-do-sol.

Ainda tivemos a sorte de conseguir lançar o disco com o Sivuca no Teatro Sta. Isabel, em uma de suas últimas apresentações. Impecável, como sempre.

João e Maria

Procure saber:

Sivuca – Site Oficial

Verbete da Wikipédia

Written by missionariojose

April 13th, 2009 at 9:22 pm