Archive for the ‘O mundo e as coisas (da música)’ Category
Limando o inglês – ou quase

Sem inglês, por favor
Diretamente inspirado pelas coletâneas do Tarta lá em seu blog Ferro Extra, comecei a carregar algumas coletâneas passadas na minha conta do Grooveshark. Começo com essa aqui, que eu fiz no ano passado pra um programa da Radio Levi’s, em que a condição que eu mesmo me impus foi de não usar músicas no idioma inglês, e mesmo assim construir uma coleção de faixas bacanas e internacionais. Tem japonês, galês, alemão, português sem dúvida, mas com exceção de um verso aqui e ali em “Santa Maradona” e “Sénegal Fast-food” – coincidentemente duas faixas da lavra do sempre poliglota Manu Chao – o inglês é ausente.
Outro objetivo nessa coleta foi juntar faixas e artistas que eu tivesse ouvido muito em algum momento da minha vida, longínquo ou recente, o que acabou se confirmando mesmo no caso da minha própria banda de tempos idos, os Supersoniques, sendo esta uma das faixas que eu mais ouvi do disco que leva o seu nome, e que até hoje a gente nunca lançou.
Sem mais delongas, vão lá e ouçam: Limando o inglês – ou quase
O poder mágico das situações adversas
O título desse texto me ocorreu numa conjunção de fatores, especificamente ouvindo o Machine Head do Deep Purple no metrô, voltando pra casa depois da master do disco da Alessandra Leão. O Machine Head é um desses discos “lenda viva” – que transcendem a categoria de disco clássico, e se torna parte das entranhas da nossa cultura, surgindo em todo canto, desse moleque aqui testando uma Les Paul coreana na Rua da Concórdia com o riff-haikai de “Smoke on the Water“, até um anúncio de algum carro-família que eu vi ano passado, tocando “Highway Star”. Sem o Machine Head, o DP provavelmente seria uma banda de Hard Rock / Metal da segundona, brigando ali com o Dio e o Quiet Riot por um lugar na eternidade, e fornecendo mão-de-obra especializada para os deuses da primeira divisão.
Mas o Machine Head é um senhor disco, e não foi fácil de fazer. Na época, o Deep Purple ainda era uma banda que pegava no pesado, e na maior parte do tempo viajava de ônibus. Emendando uma turnê na outra, tinham pouco tempo pra perder em estúdio, pois eles – como nós hoje em dia – ganhavam dinheiro mesmo tocando, e não vendendo disco. A solução foi alugar a unidade móvel dos Rolling Stones e gravar na estrada, numa pausa nos trabalhos após o Festival de Montreux de 1971, no Cassino onde o festival acontecia – nessa época o festival era pequeno e durava uns dois ou três dias. Sendo que o cassino pegou fogo, durante o show do Frank Zappa, e como diz o ditado, fudeu. A solução foi um hotel que estava fechado, onde fazia frio e as condições não só não eram as melhores como eram ruins pacas, e o jeito foi improvisar com colchões, camas e lençóis. O resumo da ópera, inclusive, é a própria Smoke on the Water, que conta direitinho como tudo aconteceu.
Comparado com o Machine Head, Dois Cordões, o disco novo da Alessandra, é como o Tusk do Fleetwood Mac, para o qual se construiu um estúdio só pra começo de conversa. Mas nem tanto, nem tão pouco. A adversidade mágica no caso foi conseguir gravar e mixar um disco cheio de detalhes em pouco tempo, desde o começo, aqui em SP – onde gravamos todas as percussões e vocais principais em menos de uma semana, ainda por cima fazendo umas duas música do zero – até o final – a participação de Jorge Du Peixe no disco foi gravada aqui DURANTE a mixagem da mesma música em Recife. Ninguém teve que passar frio – acho que só a Alê reclamou um pouquinho do ar-condicionado lá da YB, mas também ninguém ficou de bobeira. Esses e alguns outros exemplos – que eu testemunhei até hoje, ou sobre os quais eu li ou assisti, me colocaram uma pulga atrás da orelha perguntando: “Será que músico só trabalha bem sob pressão?”.
Talvez sim, talvez não. Eu normalmente estimo que, uma vez que a música esteja pronta do ponto de vista de melodia, ritmo, arranjo e forma, ela leva entre 6 a 12 horas pra “florescer” em estúdio – entre gravar tudo o que precisa ser gravado, aparar as arestas de performance e arranjo, e mixar. Isso é uma média no melhor estilo “ou dá, ou desce”, porque baseado nisso você planeja 100, 150 ou 200 horas pra fazer um disco inteiro, e isso é o que você tem, pro bem ou pro mal. Normalmente, a sempre presente culpa recai sobre o dever de casa malfeito, a música que não chegou pronta no estúdio, o músico que na hora H não compareceu, o café que tava morno, o cachorro que latiu. Sendo que cada exemplo de problema, há outro mostrando que esse não é um problema tão grande assim.
A minha teoria propõe que sob pressão, perdemos menos tempo explorando as infinitas possibilidades do mundo pós-moderno. Mas se o importante – eu mesmo falei isso duas semanas atrás – é saber explorar as possibilidades, experimentar novas idéias, como é que fica esse negócio? Aí é que entra uma habilidade difícil de medir, e que a gente só desenvolve na lida: a nossa capacidade de fazer escolhas. Fazendo um paralelo, seria o equivalente na música e no áudio do “olho clínico”. Você não precisa ter 20 sons de caixa ou 30 takes de uma voz, o que você precisa é saber qual é o que presta. De preferência, sem ter que ouvir tudo de novo umas 30 vezes. Para este ponto, vamos recorrer à categoria “analogias úteis entre música e culinária”: É o ponto da massa e do tempero que diferenciam uma iguaria de uma papa intragável, ou mesmo de um prato bem-servido, mas sem graça.
Esse “ouvido clínico” também é quem liga os neurônios certos na hora de inventar alguma coisa inusitada mesmo quando o bicho está pegando, e nos permite aferir se a idéia está ajudando ou é melhor parar enquanto é tempo. Eu não creio que isso seja alguma espécie de poder Jedi conferido a alguns poucos premiados pelo destino. Acho que é algo que a gente desenvolve, num processo que pode ser mais rápido ou mais lento de acordo – aí sim – com a predisposição natural de cada um. Apelando para a categoria “analogias úteis entre música e futebol”, é feito o gol de bicicleta – primeiro você precisa aprender a fazer, depois você precisa saber se é a hora certa de arriscar.
Pegando emprestado a metalinguagem do Ian Gillan na faixa lá de cima, eu confesso que não posso me alongar muito nesse momento, estou quase me atrasando pra uma reunião. Como esse post é a parte 1 de uma conversa maior sobre as relações entre pragmatismo e divagação, na música e nas artes em geral, talvez seja bacana também ficar divagando – se eu disser filosofando eu vou apanhar da Júlia Grande – sobre essas questões. Modos que pra fechar a conversa do dia eu deixo a pergunta: Você trabalha melhor sob pressão?
O mundo e as coisas (de Lulina)
Lulina, como muitos sabem, é Jardelense de alma e coração. Portanto, idéias boas não faltam e eis mais uma. Participem. Isso vai ser muito bom. Jardel participará.
Hoje é dia 13. Dia perfeito para se começar um projeto pirado.
Funciona assim: você nem precisa sair dessa cadeira em que você está.
Basta escrever uma frase sobre o seu dia 13 (hoje) e mandar para lulilandiatown@gmail.com, com o subject “meu dia 13”.
Não precisa pensar muito, o importante é que seja uma frase sobre como você está se sentindo hoje, ou sobre alguma coisa que aconteceu ao seu redor, enfim. Nada de poesia ou frase bem construída, o importante é o conteúdo dela. Eu vou ler a frase que todo mundo mandou e, a partir delas, fazer uma música. Posso usar ou não a frase exatamente como foi escrita, mas se eu usar ao menos a idéia/sentimento contidos nela, a pessoa que mandou já faz parte automaticamente do rall dos “compositores” da música.
No próximo dia 13 (de junho), vou disponibilizar a música gravada, com o crédito de todos os autores das frases que usei como inspiração (vai ser um método bem subjetivo, não vou poder usar a frase de todo mundo, senão a música vai ter duas horas de duração, mas vou tentar usar o máximo de frases e idéias que puder, creditando sempre seus autores).
A pessoa vai poder ouvir a música e reconhecer que parte do dia dela está ali, na canção.
E no próximo dia 13 de junho, novamente vocês podem mandar frases sobre o dia 13 que vocês estão vivendo naquele momento. E, novamente, farei uma outra música com elas, para disponibilizar no dia 13 seguinte. Resumindo: todo dia 13 temos um encontro nesse blog, para ouvir a música composta por todos nós e para movimentar novos emails com frases. No final de 13 meses, reunirei todas as músicas feitas em um único disco, chamado “Meus dias 13”, composto por um número recorde de compositores: eu e todo mundo que mandou alguma frase que foi usada.
Então, daqui a 13 meses, depois do disco ficar pronto, farei um show de lançamento, o primeiro COMPOSISHOW, onde todos os compositores poderão pegar o seu disco de graça. Fale frisar que o disco vai ser um cd-r, obviamente (já que todas as gravações serão realizadas de forma caseira, mas com uma boa qualidade). Mas, se ao final de 13 meses, todos estiverem bastante felizes com o resultado, quem sabe não fazemos uma vaquinha para prensar em SMD? Tudo depende do resultado que obteremos. Por enquanto, vamos pensar pequenininho e ver no que dá essa brincadeira. Algo me diz que vai dar pelo menos um belo disco sobre os nossos dias 13 na Lulilândia.
Atenção: só valem frases mandadas até a meia-noite de cada dia 13.
O mundo e as coisas (dos jovens), Pt. 1.

O mundo e as coisas é assim mesmo. Estão por aí e a gente tem que prestar atenção e se adaptar. Se ficar emburrado e reclamando, achando difícil ou complicado, vai perder o bonde. Na humildade a gente vai tentando entender essas doideras do mundo. E das coisas.
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No final de março desse ano, saiu uma pesquisa que mostram alguns dados alarmantes pro já cambaleante mercado fonográfico. Resumindo é isso aqui:
Adolescentes (entre 13 e 17 anos) adquiriram 19% menos música em 2008 do que em 2007. Em qualquer formato. A venda de CDs caiu 26% e a de downloads pagos caiu 13% no mesmo período. Do grupo que afirmou ter feito menos downloads pagos, 32% se mostrou insatisfeito com a qualidade das músicas disponíveis e 23% disse já ter uma quantidade ideal de música em seus HDs, ou seja, não se interessam em baixar mais nada.
Até aí tudo (relativamente) bem, mas essa queda em downloads pagos foi acompanhada também por uma queda de 6% em downloads feitos em redes P2P (peer-to-peer, os famosos soulseeks e afins). Até o número de músicas que esses jovens estão pegando pra copiar (do computador de amigo, de CDs) também caiu. Em 28%.
O que é isso? É lugar comum dizer que os jovens não têm (F**K U, nova ortografia) mais interesse em comprar discos físicos. Ok. Eles não pagarem por isso na internet também faz algum sentido. A questão é que eles não estão nem baixando música de graça, nem pegando com os amigos.
De repente, quando estávamos todos rindo da desgraça das grandes gravadoras, estamos vendo que o principal canal de divulgação de nosso trabalho não está mais servindo pra nada.
Será que é isso mesmo? Será que os jovens realmente não estão atraídos pelo que há de novo na música de hoje? O problema são eles ou a gente? Será que são as grandes corporações malígnas do mundo? Ou não há problema algum nisso?
Por enquanto há mais perguntas que respostas, mas uma das respostas parece ser nosso amigo Myspace.
Como?!
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Semana que vem segue a questão.



