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Música e Áudio

A televisão e a questão da pimenta no alheio

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Uma das (poucas) vantagens de se trabalhar demais é a oportunidade de parar de ver televisão. Eu sempre me dou conta disso em salas de espera de consultório, um dos poucos lugares onde eu ainda assisto o que quer que esteja passando na TV. E hoje de manhã não foi diferente, no caso se tratava do consultório do dentista da minha filha, e o programa em questão era o da Ana Maria Braga, seja lá qual for o seu nome, em que ela e o Louro José – o papagaio acusmático, segundo a Heloísa Duarte Valente – apresentam uma crônica bem-humorada da nossa sociedade, sob o ponto de vista do Botox.

McLuhan: “iPad? Agora é que a vaca vai pro brejo, Everaldo…”

Aí hoje na Dona Ana estava dando uma matéria sobre um empresário que topou enfrentar um desafio: passar 24 (ou 48) horas sem usar o celular, o iPad ou o laptop, devidamente filmadas pelas câmeras da Globo. Durante esse tempo ele foi falando suas impressões, e no final das contas a grande surpresa dele, e provavelmente de qualquer um de nós que se imponha esse desafio, foi descobrir o quanto a sua rotina de repente se atrelou a “tecnologias” – pois esse era o termo utilizado na matéria em questão, uma palavra que hoje em dia só é menos abusada do que “sustentabilidade” e “reciclagem”. A isso se seguiu um bate-papo regado a café-com-leite e croissants aparentemente quentinhos, e em seguida chegou o Selton Mello pra falar do filme dele, que mais de um milhão de pessoas já viu e eu provavelmente só vou ver com os meus netos.

O que me chamou atenção nessa matéria foi um detalhe: a esposa do camarada disse que foi muito legal ele ficar sem usar o celular, porque aí ele ficou mais disponível para assistir a novela e o Jornal Nacional junto com ela, já que todo mundo sabe que a televisão é uma tecnologia tão arcaica – provavelmente anterior à própria roda – que nem merece mais ser apontada como tal. Aí pra depositar a cereja no bolo, entra um reclame da Sky – aquela TV a cabo que faz o marido cenográfico da Gisele Bündchen brochar – com um depoimento de uma adolescente afirmando que assistir a jogos de futebol com o pai e o namorado na TV “traz uma união pra família”. Lindo. Então eu me dei conta de que faz mais ou menos uns cinco minutos que a televisão era tida como um elemento desagregador da atenção, que as pessoas conversavam menos em casa, e assim por diante. Isso há cinco minutos, agora a TV é o novo salvador da pátria da família brasileira, o filho do Gabriel Chalita com o Padre Marcelo Rossi em versão eletrônica, praticamente. Deve ser essa minha mania de cochilar, acho que eu cochilei, o cachimbo caiu e o tempo passou. Como assim, cara-pálida?

“Pô, Chatô, dispense…”

Aí eu me lembrei do Marshall McLuhan, que afirma sabiamente que os novos media, ou meios de comunicação, oprimem os demais já existentes, até que se estabeleça uma nova ordem de funcionamento das coisas midiáticas. Uma espécie de exemplo prático foi o que aconteceu quando o JK tentou emplacar a TV Nacional, a versão televisiva da hegemônica Rádio Nacional. O Assis Chateaubriand, então dono da TV Tupi, chegou junto e disse que se a TV Nacional botasse as manguinhas de fora, os Diários Associados iriam soltar todos os cachorros do inferno em cima do JK, que já tinha seus problemas pra cuidar. Na esteira do fracasso da televisão que mal começou, a Rádio Nacional também perdeu seu fôlego e sua moral, mas aos trancos e barrancos está aí até hoje, irradiando em amplitude modulada e pela internet.

Só que oprimir a Rede Globo talvez seja um pouco mais difícil numa frente tão fragmentada como essa constituída pelas “tecnologias”, por espalhadas que estão em geringonças de tamanhos diferentes e funções que ninguém sabe exatamente dizer quais são, e que fazem com a nossa atenção EXATAMENTE A MESMA COISA que a televisão faz, só que de modo mais eficiente. Nem o Leonel Brizola, nem o Nem conseguiram se constituir em vilões tão adequados. Já estou esperando a chamada no Fantástico, ou no Jornal Nacional, e a corrente de e-mail com uma pesquisa do Hospital John Hopkins.

Aliás não, que eu tenho coisa melhor pra fazer, e acho que a minha esposa concorda com isso.

Written by missionariojose

November 17th, 2011 at 11:51 am

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