Arriando a Lombra
Para o dia de hoje eu prometi voltar da viagem que comecei há quinze dias, trazendo a conversa para o nosso quintal, onde estamos falando de música e produção fonográfica / musical. Imaginando uma balança cujos pratos representariam as necessidades de divagar e experimentar do músico / artista de um lado, e a obrigatoriedade de colocar os pés no chão e focar do outro, podemos tentar visualizar a leitura dessa balança ocorrendo em diversos níveis. Existe música cuja finalidade é extremamente prática – por exemplo, satisfazer a necessidade humana de dançar – mas cujo processo de criação envolve uma quantidade generosa de abstração, o que é comum em vários segmentos da música eletrônica focada nas pistas. Do mesmo modo, a abordagem de produção pode pesar pra qualquer um dos lados, sendo que o fiel da balança é o resultado de uma equação complexa envolvendo prazos, orçamentos e o estágio da cadeia alimentar em que um determinado projeto esteja localizado. E para tornar a sua experiência aqui em Jardel mais aprazível, em cada foto de produtor nesta página, e em alguns dos links, você pode ouvir uma faixa produzida por ele.
Entender exatamente o que um produtor musical, o produtor “de discos”, não é uma tarefa fácil para quem nunca esteve envolvido em uma produção. Eu mesmo estou tentando há uns 15 anos explicar pra o meu pai, e ainda não consegui. Historicamente, o produtor surge como uma espécie de advogado do diabo, lidando com uns 4 ou 5 diabos ao mesmo tempo. É mais ou menos como se ele fosse o Peixe Babel no ouvido de todos dentro do estúdio, fazendo com que as coisas funcionem. Na época em que as gravadoras cantavam de galo, o produtor também era o camarada que precisava traduzir as intenções desta para com o artista e vice-versa, e transformar o resultado deste diálogo, de preferência, em um disco de vendagem significativa. Mesmo lá no extinto mundo dourado das gravadoras, não era tão fácil definir exatamente o que um produtor faz, pois desde sempre a quantidade de exceções impede a cristalização de quaisquer regras. Como se chega à função de produtor por um sem-número de caminhos, de um modo geral o máximo que se pode determinar é que um produtor é um grande acumulador e redistribuidor de tarefas.
A abordagem de cada um nesse processo varia, da mesma forma, entre os dois lados da nossa balança lá de cima. Lee Perry, por exemplo, sempre esteve firme e forte pesando no lado pró-viagem. Com um cardápio de técnicas em estúdio que vão do uso um tanto pioneiro de samples – como é o caso do bebê chorando em “People Funny Boy”, a faixa da foto ao lado – até procedimentos menos ortodoxos como enterrar os rolos de fita no quintal para a música gravada neles ‘apurar’, Perry não poupava esforços nem tempo para transformar em som suas idéias. Essa atitude quase xiita, compartilhada por outros medalhões como o Phil Spector, normalmente rende histórias lendárias e uma corrente de desafetos, mas também resultados atemporais, vide a seqüência de singles dos Wailers que ele produziu antes do pau cantar entre Scratch e os rapazes.
O exemplo clássico do desequilíbrio pro lado viajandão é o do turbulento Brian Wilson, que levou 37 anos pra terminar um disco, que afinal de contas não ficou nem tão legal assim. Tudo bem que Wilson produzia a si mesmo e sua banda, e que a fórmula já tinha dado ao mundo e aos Beach Boys sua obra-prima, mas que o caldo entornou, entornou e foi de muito.
Do outro lado, os produtores “no-nonsense” são devotos ferrenhos da crença que é com sangue, suor e muita pré-produção que alcançaremos o paraíso. Esse é o caso do Rick Rubin, famoso por passar bastante tempo em ensaios resolvendo problemas antes mesmo que eles aconteçam. Um adepto da meditação transcedental, Rubin acredita que não se deve perder tempo girando lâmpada em estúdio, e que boa música se faz com bons músicos se sentindo à vontade para dar o melhor de si. Funcionou com o Red Hot Chilli Peppers, mais de uma vez, e acrescentou logo 5 grandes discos à discografia de Johnny Cash, onde disco bom não é exatamente um item em falta.

Eu sempre quis ser que nem o Rick Rubin quando crescesse. Pelo menos na barba eu sei que eu me garanto
Se a balança pesar muito pra esse lado, vamos encontrar camaradas como o multimilionário Timbaland, ou mesmo o celebrado Butch ‘E não é que o som de bateria do Nevermind é o mesmo do Siamese Dream?’ Vig - a prova do apelido você confere aqui e aqui. Nesses casos, é comum que o artista se encaixe em alguns ‘presets’ do modus operandi do produtor, alguns truques que já tenham se provado mais certeiros. Também dá certo, eu mesmo acho SexyBack um single muito decente e bem-resolvido. Coincidentemente, ambos também tem a sua própria carreira como artistas per se.
E como o próprio rumo da conversa sugere, a fauna é bastante rica entre um extremo e outro, com espécimes realmente interessantes, como Brian Eno, que tem no seu cardápio de especialidades o truqe de tirar os músicos da sua ‘zona de conforto’ através de boas doses de diletantismo e distração, pra então cair matando e espremer um disco na pressão. Foi assim que saíram alguns dos melhores discos do Talking Heads e na minha opinião o melhor do U2, mas do mesmo modo saiu um “Viva La Vida”, que é uma prova cabal que time que está ganhando merece levar um puxão de orelha de quando em vez.
E é no meio do caminho que encontramos o mestre do equilíbrio, Sir George Martin, cujas produções dentro e fora da franquia Beatles são uma aula em vários sentidos. Ele foi capaz de extrair o “Please Please Me” na base do fórceps em mais ou menos 12 horas, e também administrar a mega viagem coletiva de “Tomorrow Never Knows”. E quando as complicações dos quatro fabulosos se mostraram demais pra aguentar, ele mandou o lima, e fez bastante falta, mostrando que até os Beatles precisavam de alguém no pé do ouvido dizendo pra onde ir.
Passando em revista os nossos convidados de hoje, temos exemplos práticos e funcionais em cada parada dessa escala entre os pés no chão e a cabeça nas nuvens. É interessante perceber que em alguns momentos, todos estes indivíduos acertaram na mosca, e criaram sonoridades e faixar atemporais. Também é curioso ver que a abordagem de cada um não está condicionada à sua porta de entrada no mundo da produção, pois temos desde um ‘não-músico’ assumido, como o Eno – talvez isso explique o Coldplay, de repente – até um músico com todos os predicados da erudição disponíveis, como o cavaleiro George. Talvez eu tenha acertado ao dizer que um produtor é basicamente um acumulador e redistribuidor de tarefas, uma espécie de gerente multifacetado. Talvez daqui a uns 40, 50 anos essa figura tenha novamente se diluído entre outras novas funções que vão aparecendo à medida que o mercado da música como o conhecemos se transforma naquele ao qual vamos ter que nos adaptar. O certo mesmo é que alguém sempre vai ter que escolher qual take foi a boa.



… acho q em tempos de liseu eterno e de projetos aprovados pela metade do orçamento original, a pré é ‘quase’ tudo, valeu zé, tá massa!
abraço
Berna
21 Sep 09 at 7:40 pm
Realmente, a figura do produtor está ficando cada vez mais “na moda” e cada vez mais difícil de explicar… ainda mais na nossa época em que todo mundo faz de tudo no processo de gravação, edição, mix, master, etc.
Acho muito perigosa essa inversão de papéis onde o produtor tem mais destaque que o próprio artista. Se a embalagem é melhor que o presente, alguma coisa tá errada! E tem muita gente que adora enxergar isso no trabalho dos outros e nunca ficou mais de meia hora dentro do estúdio pra ver o que se passa lá.
O artista normalmente tem a sensibilidade e o dom, mas muitas vezes tem dificuldade de síntese e falta/excesso de apego com suas próprias ideias.
Nesse caso, o papel do produtor é apenas de organizador dessas idéias e cabe a ele mostrar o caminho, assim como Winston Wolf, personagem de Harvey Keitel em Pulp Fiction. Mas isso é apenas um…
Produzir uma banda é como dirigir um time;
O produtor está para o disco assim como o diretor ou o editor está para um filme;
Tem produtor que não sabe fazer um Lá no violão e não consegue fazer um microfone funcionar;
O produtor tem que ser um pouco psicólogo também…
Tudo isso também é válido para definir o produtor.
Ao mesmo tempo, o processo hoje em dia, como vc mesmo falou em outro artigo, está muito mais colaborativo. É um fenômeno facilitado pela tecnologia que democratizou e abriu muitas possibilidades na nossa atividade. Isso ajuda a confundir ainda mais na hora de creditar quem fez o que, classificar o tipo de música, explicar pra mãe ou pro pai o que vc faz… normal!
Mas, se não tem alguém pra dar a palavra final, o disco não sai, ou pode demorar 37 anos pra ficar pronto!
No final, o importante ainda é o resultado final, a música (pelo menos pra mim). E se ela ainda “toca” as pessoas, missão cumprida! O resto é assunto pra uma breja bem gelada no quintal!
Muito bom esse artigo, Zé!
Aliás, parabéns pelo wiki/blog (mais uma vez!)
Já é referência!
um abs
lenza
22 Sep 09 at 11:51 am
Joseph, que beleza de hipertexto, hein?
Coisa linda de se ler. Prazeroso, informativo, leve e, sobretudo, didático (i told you so)! Até Malu, que não especificamente da área, lê sempre.
Eu concordo com Lustavinho (menino bom, saudades) no comentário-quase-post dele.
Só queria acrescentar que, tendo em mente a óbvia relevância do resultado final (música) sobre o processo (produção), o segundo tem cada vez mais despertado interesse no público geral.
Eu tenho a impressão que, cada vez mais, o público médio quer saber como aquela música fodona foi gerada. Em que condições, de que forma, etc.
Por isso a gente tem tanto interesse por making off (olha Malu entrando no contexto).
Minha mãe, que não tá nem perto de ser musicista, adora os Tribalistas. Ela tem o dvd, e o comentário dela sobre ele é que Carlinhos Brown usa um secador de cabelo numa das faixas. Tá claro que primeiro ela gostou da música, depois adquiriu o dvd e viu como aquela era tocada. Aí então viu o making off, e de alguma forma aquilo a fascinou. Tenho a impressão que ela não é a única.
E pra explicar esse encantamento geral ao saber como um disco foi produzido, eu sugiro um post zeguilhermiano @ jardelmusic. O quintal da produção musical.
Parabéns sempre, Zé.
Abraço!
Vina
25 Sep 09 at 11:12 am