Jardel Music

Música e Áudio

Música, tempo e divagações

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Alan Turing. Esse viveu uma bronca atrás da outra, pense.

Alan Turing. Esse viveu uma bronca atrás da outra, mas resolveu várias outras pra gente.

Semana passada terminamos com uma pergunta, que teve algumas respostas. Hoje começamos com um problema, que é o fato de Música só existir em tempo real. Desde os tempos imemoriais, o homem vem tentando fixar a música em algum suporte físico que a liberte das demandas do tempo real, sem nenhum sucesso. Ainda que algum algoritmo fantástico em algum ProTools do futuro passe pelo Teste de Turing, mesmo assim ele vai ter que se virar nos 30, 60 ou 210 segundos corridos necessários pra que a pessoa escute uma canção, uma melodia. Sem se espalhar no tempo e combinar sons diferentes com durações diferentes, não existe Música, existe o Ruído Branco, ou o Gato no Piano.

Talvez por isso mesmo, nosso métier seja tão complicado, por lidar com algo tão abstrato, intangível. Veja a Gioconda, por exemplo. Nesse exato momento ela está lá no Louvre olhando um monte de Japonês. É a mulher morta mais fotografada de todos os tempos, pintada num pedaço de pano há muito tempo atrás por um proto-italiano que hoje em dia provavelmente estaria internado em uma instituição psiquiátrica. Seu valor é inestimável.

Nos mantendo na seara dos superlativos, a Missa do Papa Marcelo – veja bem que é o Papa Marcelo II, não o Padre Marcelo Rossi – composta por Palestrina não muito longe dali, mais ou menos na mesma época, também é inestimável, mas justamente por não ter nada a que se possa conferir algum valor material – mesmo tendo sido uma pedra fundamental da música no Ocidente. Uma gravação da Missa, parada lá dentro da caixinha de plástico, não serve de nada a não ser que alguém a coloque pra girar, sente e escute. A Missa impressa no papel também não é a Missa em si, se não houver alguém que sente, leia e toque. No caso, vários alguéns, porque é voz que não acaba mais. Os próprios originais escritos pelo Palestrina, se é que eles existem, provavelmente valem uma nota preta, mas por serem documentos históricos, e não por serem a música que está escrita neles. A Música só está ali em potencial. Nas eternas palavras do grande Cyrus, vocês sacaram?

A Gioconda em um dos seus melhores momentos

A Gioconda em um dos seus melhores momentos, por Marco Pece, aka Udronotto

Entretanto, apesar de abstrata em sua essência, a Música – e de certa forma a Arte como um todo – é uma forma de expressão extremamente pragmática e funcional, no que raramente existe sem que haja um objetivo real. Vejam por exemplo a arte rupestre. Estamos falando de pessoas que tinham que matar o proverbial leão diário pra se alimentar, sozinhas ou em grupo. Acho difícil que no final do dia o Senhor Neanderthal tivesse energia pra fazer uns croquis na parede da sala pra desopilar, ou desenvolver sua técnica de bico-de-pena. Ele, ou ela, provavelmente estavam deixando um recado pra próxima geração, louvando alguma divindade, fazendo o seu google maps litográfico. O grande mérito dos ‘Grandes Compositores’ da coleção da revista Caras foi ter desenvolvido a linguagem da música européia ao mesmo tempo em que pagavam suas contas e deixavam tudo em ordem aos olhos do seu respectivo mecenas. O próprio Da Vinci, pintou sua Mona Lisa por alguns caraminguás, entre um projeto de helicóptero e outro.

Seria esse o cruel destino da nossa espécie? Condicionar a nossa expressão a correr atrás de um contra-cheque? Eu imagino que essa constatação não é tão fatalista, nem tão cruel assim, pois acredito que o objetivo maior das Artes e das Ciências é o fechamento do ciclo, a conclusão da obra. Uma idéia dentro da minha cabeça ou da sua é uma idéia, mas ela só tem graça em propaganda de Universidade privada. O processo de transformar essa idéia em uma canção de três minutos, numa casa de praia ou em uma fórmula matemática supimpa é o que faz da inspiração uma proposta, e nos habilita pra ser o que somos. E no final do arco, o fechamento apresenta as possibilidades para a próxima empreitada.

Por mais Lair Ribeiro que esse último parágrafo possa soar – quem sabe eu não ganharia melhor vendendo livros de auto-ajuda? – muitas pessoas que trabalham com arte em geral compartilham dessa visão. Da mesma forma que é importante divagar, filosofar que seja, e deixar a mente explorar os recônditos mais afastados do universo em constante expansão dentro da nossa cabeça, o caminho de volta é igualmente importante. E, a exemplo daquela piada do cara que vai parar sozinho na ilha deserta com a Gisele Bündchen, contar a história no final talvez seja o grande barato.

Semana que vem eu vou fazer o caminho de volta, e falar um pouco sobre esse assunto na esfera dos Produtores Musicais que a gente conhece e ama. Até lá.

Written by missionariojose

September 11th, 2009 at 6:25 pm

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4 Responses to 'Música, tempo e divagações'

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  1. Muito bom Missionário!
    beijo

    Alê

    14 Sep 09 at 11:05 am

  2. putz

    Bela reflexão. Ando desenxabido, pensando muito sobre s a música ainda é uma profissão, e tbem qto ainda ela poder ser sagrada.

    []
    Mauricio

    Mauricio Pereira

    21 Sep 09 at 10:28 am

  3. I saw only today that you had published the “Mona Lisa Lego”, I’m glad that you have placed in your web site, you greet and add my name marco pece aka udronotto just to say to those who pass here who is the author.

    udronotto

    23 Sep 09 at 10:47 am

  4. Hey Marco! I’ve just given you the proper credit, congratulations for your work!

    Cheers

    Z

    missionariojose

    23 Sep 09 at 7:20 pm

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