Archive for September, 2009
O supermercado da música
Quinta-feira passada fomos eu, André e o grande Marcelo Birck até a Zona Norte conferir a Expomusic 2009, uma grande feira de equipamentos e instrumentos que acontece todo ano aqui na megalópole, e é talvez o maior evento do setor do ponto de vista de negócios. É um evento bem gigante mesmo, em que os fabricantes montam stands nababescos promovendo pocket-shows, palestras e encontros de negócios, com dois dias direcionados aos profissionais do setor, categoria em que nós três supostamente nos encaixamos, e mais três – a sexta e o fim de semana – voltados ao grande público, com apresentações de bandas e artistas e tudo mais o que se tem direito. Nesses dias inclusive a feira fica meio intransitável, de modo que a gente preferiu se valer desse raro privilégio.
Apesar de não termos conseguido olhar tudo o tanto quanto queríamos – muito por causa da briga de volumes entre expositores de um modo geral – algumas coisas chamaram a nossa atenção. André, um aficcionado de modelos pouco comuns, ficou muito interessado em alguns modelos de uma marca chamada Irvine, e também em umas guitarras elétricas da Taylor que estavam no estande da Condor. Eu tentei, mas o fluxo de gente não permitiu, trocar uma idéia com o Ivan, da Music Maker, um luthier de quem me falaram muito bem, e cujo estande também estava muito bacana. Onde eu consegui conversar um pouco até o barulho do vizinho atrapalhar foi no cantinho dos microfones Violet – a fábrica da Letônia onde se fabricavam os microfones Blue antes da marca ir pra China – cuja distribuição no Brasil é feita pelo Clement Zular, antigo proprietário do célebre Estúdio Anonimato – que eu infelizmente não conheci.
Outro aparato que chamou nossa atenção foi o Meteoro Classic V8, um amplificador valvulado de 25W, no tamanho certo para a maioria dos palcos que estamos acostumados a frequentar. Inclusive olhando o parque de diversões da Meteoro vimos o Luíz Carlini – que sem sombra de dúvida merecia um site melhor do que esse, mas a cabocla tiete não baixou em nenhum de nós três e deixamos o respeitável senhor em paz. Chamou a atenção também a já famosa APC 40 da AKAI, que promete ser a grande parada em termos de videogame para palcos nos próximos anos, mas que ainda não está disponível no Brasil, assim como tampouco estão os pimpolhos LPD8 e LPK25. E a pergunta que não quer calar persiste – porque ninguém comercializa decentemente um jogo de Pads de Bateria com conexão USB? O único modelo que eu encontrei até o momento é um da Alesis – o ControlPad – que não é tão fácil assim de achar nem na gringa. Por mais que as piadas de baterista possam ter algum fundo de verdade – coisa que eu não acredito – é um contrasenso um negócio desses. A melhor opção disponível no mercado ainda é o SPD-S, onde você precisa gravar os samples um a um na memória, no melhor estilo medieval.
Além da questão extremamente incômoda da guerra sonora entre expositores – em alguns momentos a sensação é estar participando daquelas cenas de trincheira em filme de guerra, com o mundo caindo ao seu redor – eu observo uma outra questão que poderia ser discutida em relação à feira. O foco principal da feira são os lojistas – quem realmente vai efetuar a venda do seu produto, e em segundo plano as escolas de música – que compram normalmente em alguma quantidade. Depois disso vem os músicos amadores e iniciantes – razão pela qual existe tanto pocket-show com patrocinados famosos, como o Andreas Kisser, cuja estampa estava em pelo menos um estande de cada corredor da feira. Para os músicos no topo da cadeia alimentar, a feira é uma oportunidade de negociar justamente esses contratos e também alguns equipamentos sui generis a preço de custo, e para os músicos no final da cadeia a feira é uma oportunidade de descobrir qual cabo o seu ídolo está dizendo que está usando, e em qual loja ele teoricamente pode ser vendido.
O que eu acho que falta é uma ‘terceira via’ que atenda à demanda gigantesca que representa o meio dessa escala – os músicos como eu, o André e o Marcelo, por exemplo. A feira poderia ser o ambiente para fazer negócio com esses caras – conosco – de uma maneira que fica mais difícil a não ser num momento convergente como esse. Por razões óbvias, eu não vou comprar 100 unidades da APC40, mas se as condições fossem favoráveis, eu poderia comprar uma ou duas a um preço convidativo – o que é bem diferente dos quase 1000% de acréscimo que a gente encontra na Teodoro Sampaio num dia de sorte. Seria uma boa oportunidade da gente fazer negócio com os distribuidores, por exemplo, ao invés de fazer negócio com os muambeiros de plantão. Poderia existir uma iniciativa por parte dos expositores, e principalmente das grandes marcas que podem arcar com essas ações mais tranquilamente, de tentar colocar o seu produto pra girar com mais eficiência, através de algumas linhas de microcrédito, e conversando diretamente com o povo do meio do caminho. Até porque por mais que o Chaos A.D. seja um dos meus discos preferidos de todos os tempos, a minha fase de querer ter o mesmo baixo ou o mesmo amplificador do Paulo Jr. ou do Andreas já passou.
Independente disso eu acho importante ressaltar que existe um mercado, ou existem mercados, de música que é muito maior do que a gente imagina. Uma iniciativa desse tamanho não está somente apoiada nos ombros de meia dúzia de moleques procurando outra atividade para ocupar as mãos. Se existe tanto dinheiro pra movimentar uma feira desse tamanho, é porque existe um interesse maior em fazer e ouvir música. Como se vive disso como músico é uma questão de observar e entender esse fluxo de interesses e capitais, e achar em que parte do quebra-cabeças a gente se encaixa. É o nosso dever de casa, digamos assim. Que eu vou fazer assim que eu terminar as contas que eu estou fazendo pra ver se dá pra comprar o Amethyst ou a APC…
Arriando a Lombra
Para o dia de hoje eu prometi voltar da viagem que comecei há quinze dias, trazendo a conversa para o nosso quintal, onde estamos falando de música e produção fonográfica / musical. Imaginando uma balança cujos pratos representariam as necessidades de divagar e experimentar do músico / artista de um lado, e a obrigatoriedade de colocar os pés no chão e focar do outro, podemos tentar visualizar a leitura dessa balança ocorrendo em diversos níveis. Existe música cuja finalidade é extremamente prática – por exemplo, satisfazer a necessidade humana de dançar – mas cujo processo de criação envolve uma quantidade generosa de abstração, o que é comum em vários segmentos da música eletrônica focada nas pistas. Do mesmo modo, a abordagem de produção pode pesar pra qualquer um dos lados, sendo que o fiel da balança é o resultado de uma equação complexa envolvendo prazos, orçamentos e o estágio da cadeia alimentar em que um determinado projeto esteja localizado. E para tornar a sua experiência aqui em Jardel mais aprazível, em cada foto de produtor nesta página, e em alguns dos links, você pode ouvir uma faixa produzida por ele.
Entender exatamente o que um produtor musical, o produtor “de discos”, não é uma tarefa fácil para quem nunca esteve envolvido em uma produção. Eu mesmo estou tentando há uns 15 anos explicar pra o meu pai, e ainda não consegui. Historicamente, o produtor surge como uma espécie de advogado do diabo, lidando com uns 4 ou 5 diabos ao mesmo tempo. É mais ou menos como se ele fosse o Peixe Babel no ouvido de todos dentro do estúdio, fazendo com que as coisas funcionem. Na época em que as gravadoras cantavam de galo, o produtor também era o camarada que precisava traduzir as intenções desta para com o artista e vice-versa, e transformar o resultado deste diálogo, de preferência, em um disco de vendagem significativa. Mesmo lá no extinto mundo dourado das gravadoras, não era tão fácil definir exatamente o que um produtor faz, pois desde sempre a quantidade de exceções impede a cristalização de quaisquer regras. Como se chega à função de produtor por um sem-número de caminhos, de um modo geral o máximo que se pode determinar é que um produtor é um grande acumulador e redistribuidor de tarefas.
A abordagem de cada um nesse processo varia, da mesma forma, entre os dois lados da nossa balança lá de cima. Lee Perry, por exemplo, sempre esteve firme e forte pesando no lado pró-viagem. Com um cardápio de técnicas em estúdio que vão do uso um tanto pioneiro de samples – como é o caso do bebê chorando em “People Funny Boy”, a faixa da foto ao lado – até procedimentos menos ortodoxos como enterrar os rolos de fita no quintal para a música gravada neles ‘apurar’, Perry não poupava esforços nem tempo para transformar em som suas idéias. Essa atitude quase xiita, compartilhada por outros medalhões como o Phil Spector, normalmente rende histórias lendárias e uma corrente de desafetos, mas também resultados atemporais, vide a seqüência de singles dos Wailers que ele produziu antes do pau cantar entre Scratch e os rapazes.
O exemplo clássico do desequilíbrio pro lado viajandão é o do turbulento Brian Wilson, que levou 37 anos pra terminar um disco, que afinal de contas não ficou nem tão legal assim. Tudo bem que Wilson produzia a si mesmo e sua banda, e que a fórmula já tinha dado ao mundo e aos Beach Boys sua obra-prima, mas que o caldo entornou, entornou e foi de muito.
Do outro lado, os produtores “no-nonsense” são devotos ferrenhos da crença que é com sangue, suor e muita pré-produção que alcançaremos o paraíso. Esse é o caso do Rick Rubin, famoso por passar bastante tempo em ensaios resolvendo problemas antes mesmo que eles aconteçam. Um adepto da meditação transcedental, Rubin acredita que não se deve perder tempo girando lâmpada em estúdio, e que boa música se faz com bons músicos se sentindo à vontade para dar o melhor de si. Funcionou com o Red Hot Chilli Peppers, mais de uma vez, e acrescentou logo 5 grandes discos à discografia de Johnny Cash, onde disco bom não é exatamente um item em falta.

Eu sempre quis ser que nem o Rick Rubin quando crescesse. Pelo menos na barba eu sei que eu me garanto
Se a balança pesar muito pra esse lado, vamos encontrar camaradas como o multimilionário Timbaland, ou mesmo o celebrado Butch ‘E não é que o som de bateria do Nevermind é o mesmo do Siamese Dream?’ Vig - a prova do apelido você confere aqui e aqui. Nesses casos, é comum que o artista se encaixe em alguns ‘presets’ do modus operandi do produtor, alguns truques que já tenham se provado mais certeiros. Também dá certo, eu mesmo acho SexyBack um single muito decente e bem-resolvido. Coincidentemente, ambos também tem a sua própria carreira como artistas per se.
E como o próprio rumo da conversa sugere, a fauna é bastante rica entre um extremo e outro, com espécimes realmente interessantes, como Brian Eno, que tem no seu cardápio de especialidades o truqe de tirar os músicos da sua ‘zona de conforto’ através de boas doses de diletantismo e distração, pra então cair matando e espremer um disco na pressão. Foi assim que saíram alguns dos melhores discos do Talking Heads e na minha opinião o melhor do U2, mas do mesmo modo saiu um “Viva La Vida”, que é uma prova cabal que time que está ganhando merece levar um puxão de orelha de quando em vez.
E é no meio do caminho que encontramos o mestre do equilíbrio, Sir George Martin, cujas produções dentro e fora da franquia Beatles são uma aula em vários sentidos. Ele foi capaz de extrair o “Please Please Me” na base do fórceps em mais ou menos 12 horas, e também administrar a mega viagem coletiva de “Tomorrow Never Knows”. E quando as complicações dos quatro fabulosos se mostraram demais pra aguentar, ele mandou o lima, e fez bastante falta, mostrando que até os Beatles precisavam de alguém no pé do ouvido dizendo pra onde ir.
Passando em revista os nossos convidados de hoje, temos exemplos práticos e funcionais em cada parada dessa escala entre os pés no chão e a cabeça nas nuvens. É interessante perceber que em alguns momentos, todos estes indivíduos acertaram na mosca, e criaram sonoridades e faixar atemporais. Também é curioso ver que a abordagem de cada um não está condicionada à sua porta de entrada no mundo da produção, pois temos desde um ‘não-músico’ assumido, como o Eno – talvez isso explique o Coldplay, de repente – até um músico com todos os predicados da erudição disponíveis, como o cavaleiro George. Talvez eu tenha acertado ao dizer que um produtor é basicamente um acumulador e redistribuidor de tarefas, uma espécie de gerente multifacetado. Talvez daqui a uns 40, 50 anos essa figura tenha novamente se diluído entre outras novas funções que vão aparecendo à medida que o mercado da música como o conhecemos se transforma naquele ao qual vamos ter que nos adaptar. O certo mesmo é que alguém sempre vai ter que escolher qual take foi a boa.
Música, tempo e divagações
Semana passada terminamos com uma pergunta, que teve algumas respostas. Hoje começamos com um problema, que é o fato de Música só existir em tempo real. Desde os tempos imemoriais, o homem vem tentando fixar a música em algum suporte físico que a liberte das demandas do tempo real, sem nenhum sucesso. Ainda que algum algoritmo fantástico em algum ProTools do futuro passe pelo Teste de Turing, mesmo assim ele vai ter que se virar nos 30, 60 ou 210 segundos corridos necessários pra que a pessoa escute uma canção, uma melodia. Sem se espalhar no tempo e combinar sons diferentes com durações diferentes, não existe Música, existe o Ruído Branco, ou o Gato no Piano.
Talvez por isso mesmo, nosso métier seja tão complicado, por lidar com algo tão abstrato, intangível. Veja a Gioconda, por exemplo. Nesse exato momento ela está lá no Louvre olhando um monte de Japonês. É a mulher morta mais fotografada de todos os tempos, pintada num pedaço de pano há muito tempo atrás por um proto-italiano que hoje em dia provavelmente estaria internado em uma instituição psiquiátrica. Seu valor é inestimável.
Nos mantendo na seara dos superlativos, a Missa do Papa Marcelo – veja bem que é o Papa Marcelo II, não o Padre Marcelo Rossi – composta por Palestrina não muito longe dali, mais ou menos na mesma época, também é inestimável, mas justamente por não ter nada a que se possa conferir algum valor material – mesmo tendo sido uma pedra fundamental da música no Ocidente. Uma gravação da Missa, parada lá dentro da caixinha de plástico, não serve de nada a não ser que alguém a coloque pra girar, sente e escute. A Missa impressa no papel também não é a Missa em si, se não houver alguém que sente, leia e toque. No caso, vários alguéns, porque é voz que não acaba mais. Os próprios originais escritos pelo Palestrina, se é que eles existem, provavelmente valem uma nota preta, mas por serem documentos históricos, e não por serem a música que está escrita neles. A Música só está ali em potencial. Nas eternas palavras do grande Cyrus, vocês sacaram?
Entretanto, apesar de abstrata em sua essência, a Música – e de certa forma a Arte como um todo – é uma forma de expressão extremamente pragmática e funcional, no que raramente existe sem que haja um objetivo real. Vejam por exemplo a arte rupestre. Estamos falando de pessoas que tinham que matar o proverbial leão diário pra se alimentar, sozinhas ou em grupo. Acho difícil que no final do dia o Senhor Neanderthal tivesse energia pra fazer uns croquis na parede da sala pra desopilar, ou desenvolver sua técnica de bico-de-pena. Ele, ou ela, provavelmente estavam deixando um recado pra próxima geração, louvando alguma divindade, fazendo o seu google maps litográfico. O grande mérito dos ‘Grandes Compositores’ da coleção da revista Caras foi ter desenvolvido a linguagem da música européia ao mesmo tempo em que pagavam suas contas e deixavam tudo em ordem aos olhos do seu respectivo mecenas. O próprio Da Vinci, pintou sua Mona Lisa por alguns caraminguás, entre um projeto de helicóptero e outro.
Seria esse o cruel destino da nossa espécie? Condicionar a nossa expressão a correr atrás de um contra-cheque? Eu imagino que essa constatação não é tão fatalista, nem tão cruel assim, pois acredito que o objetivo maior das Artes e das Ciências é o fechamento do ciclo, a conclusão da obra. Uma idéia dentro da minha cabeça ou da sua é uma idéia, mas ela só tem graça em propaganda de Universidade privada. O processo de transformar essa idéia em uma canção de três minutos, numa casa de praia ou em uma fórmula matemática supimpa é o que faz da inspiração uma proposta, e nos habilita pra ser o que somos. E no final do arco, o fechamento apresenta as possibilidades para a próxima empreitada.
Por mais Lair Ribeiro que esse último parágrafo possa soar – quem sabe eu não ganharia melhor vendendo livros de auto-ajuda? – muitas pessoas que trabalham com arte em geral compartilham dessa visão. Da mesma forma que é importante divagar, filosofar que seja, e deixar a mente explorar os recônditos mais afastados do universo em constante expansão dentro da nossa cabeça, o caminho de volta é igualmente importante. E, a exemplo daquela piada do cara que vai parar sozinho na ilha deserta com a Gisele Bündchen, contar a história no final talvez seja o grande barato.
Semana que vem eu vou fazer o caminho de volta, e falar um pouco sobre esse assunto na esfera dos Produtores Musicais que a gente conhece e ama. Até lá.
O poder mágico das situações adversas
O título desse texto me ocorreu numa conjunção de fatores, especificamente ouvindo o Machine Head do Deep Purple no metrô, voltando pra casa depois da master do disco da Alessandra Leão. O Machine Head é um desses discos “lenda viva” – que transcendem a categoria de disco clássico, e se torna parte das entranhas da nossa cultura, surgindo em todo canto, desse moleque aqui testando uma Les Paul coreana na Rua da Concórdia com o riff-haikai de “Smoke on the Water“, até um anúncio de algum carro-família que eu vi ano passado, tocando “Highway Star”. Sem o Machine Head, o DP provavelmente seria uma banda de Hard Rock / Metal da segundona, brigando ali com o Dio e o Quiet Riot por um lugar na eternidade, e fornecendo mão-de-obra especializada para os deuses da primeira divisão.
Mas o Machine Head é um senhor disco, e não foi fácil de fazer. Na época, o Deep Purple ainda era uma banda que pegava no pesado, e na maior parte do tempo viajava de ônibus. Emendando uma turnê na outra, tinham pouco tempo pra perder em estúdio, pois eles – como nós hoje em dia – ganhavam dinheiro mesmo tocando, e não vendendo disco. A solução foi alugar a unidade móvel dos Rolling Stones e gravar na estrada, numa pausa nos trabalhos após o Festival de Montreux de 1971, no Cassino onde o festival acontecia – nessa época o festival era pequeno e durava uns dois ou três dias. Sendo que o cassino pegou fogo, durante o show do Frank Zappa, e como diz o ditado, fudeu. A solução foi um hotel que estava fechado, onde fazia frio e as condições não só não eram as melhores como eram ruins pacas, e o jeito foi improvisar com colchões, camas e lençóis. O resumo da ópera, inclusive, é a própria Smoke on the Water, que conta direitinho como tudo aconteceu.
Comparado com o Machine Head, Dois Cordões, o disco novo da Alessandra, é como o Tusk do Fleetwood Mac, para o qual se construiu um estúdio só pra começo de conversa. Mas nem tanto, nem tão pouco. A adversidade mágica no caso foi conseguir gravar e mixar um disco cheio de detalhes em pouco tempo, desde o começo, aqui em SP – onde gravamos todas as percussões e vocais principais em menos de uma semana, ainda por cima fazendo umas duas música do zero – até o final – a participação de Jorge Du Peixe no disco foi gravada aqui DURANTE a mixagem da mesma música em Recife. Ninguém teve que passar frio – acho que só a Alê reclamou um pouquinho do ar-condicionado lá da YB, mas também ninguém ficou de bobeira. Esses e alguns outros exemplos – que eu testemunhei até hoje, ou sobre os quais eu li ou assisti, me colocaram uma pulga atrás da orelha perguntando: “Será que músico só trabalha bem sob pressão?”.
Talvez sim, talvez não. Eu normalmente estimo que, uma vez que a música esteja pronta do ponto de vista de melodia, ritmo, arranjo e forma, ela leva entre 6 a 12 horas pra “florescer” em estúdio – entre gravar tudo o que precisa ser gravado, aparar as arestas de performance e arranjo, e mixar. Isso é uma média no melhor estilo “ou dá, ou desce”, porque baseado nisso você planeja 100, 150 ou 200 horas pra fazer um disco inteiro, e isso é o que você tem, pro bem ou pro mal. Normalmente, a sempre presente culpa recai sobre o dever de casa malfeito, a música que não chegou pronta no estúdio, o músico que na hora H não compareceu, o café que tava morno, o cachorro que latiu. Sendo que cada exemplo de problema, há outro mostrando que esse não é um problema tão grande assim.
A minha teoria propõe que sob pressão, perdemos menos tempo explorando as infinitas possibilidades do mundo pós-moderno. Mas se o importante – eu mesmo falei isso duas semanas atrás – é saber explorar as possibilidades, experimentar novas idéias, como é que fica esse negócio? Aí é que entra uma habilidade difícil de medir, e que a gente só desenvolve na lida: a nossa capacidade de fazer escolhas. Fazendo um paralelo, seria o equivalente na música e no áudio do “olho clínico”. Você não precisa ter 20 sons de caixa ou 30 takes de uma voz, o que você precisa é saber qual é o que presta. De preferência, sem ter que ouvir tudo de novo umas 30 vezes. Para este ponto, vamos recorrer à categoria “analogias úteis entre música e culinária”: É o ponto da massa e do tempero que diferenciam uma iguaria de uma papa intragável, ou mesmo de um prato bem-servido, mas sem graça.
Esse “ouvido clínico” também é quem liga os neurônios certos na hora de inventar alguma coisa inusitada mesmo quando o bicho está pegando, e nos permite aferir se a idéia está ajudando ou é melhor parar enquanto é tempo. Eu não creio que isso seja alguma espécie de poder Jedi conferido a alguns poucos premiados pelo destino. Acho que é algo que a gente desenvolve, num processo que pode ser mais rápido ou mais lento de acordo – aí sim – com a predisposição natural de cada um. Apelando para a categoria “analogias úteis entre música e futebol”, é feito o gol de bicicleta – primeiro você precisa aprender a fazer, depois você precisa saber se é a hora certa de arriscar.
Pegando emprestado a metalinguagem do Ian Gillan na faixa lá de cima, eu confesso que não posso me alongar muito nesse momento, estou quase me atrasando pra uma reunião. Como esse post é a parte 1 de uma conversa maior sobre as relações entre pragmatismo e divagação, na música e nas artes em geral, talvez seja bacana também ficar divagando – se eu disser filosofando eu vou apanhar da Júlia Grande – sobre essas questões. Modos que pra fechar a conversa do dia eu deixo a pergunta: Você trabalha melhor sob pressão?










