Lasanha da Sadia Sound System
Um som, qualquer som, ele existe dentro da atmosfera que nos cerca. A proverbial árvore caindo dentro da floresta sem ninguém para ouvi-la ao cair, talvez não esteja soando por não ter ouvidos que a escutem, mas potencialmente será ouvida por uma sabiá, ou pela barriga de alguma cobra. Vai estar movimentando o ar à sua volta, e quem tiver alguma espécie de ouvido que escute. Quem tiver alguma espécie de microfone, que grave, e transforme sua queda não em um som, mas em oscilações de um campo magnético, ou em fileiras de zeros e uns agrupados em grupos de dezesseis ou vinte e quatro ou trinta e dois. Que podem ser reinterpretadas e ouvidas por orelhas crédulas que disponham de um pouco de tempo e atenção.
O que se faz com esse som, é problema de quem o manipula. Um som de árvore caindo pode ser só mais um som de árvore caindo dentro da pasta “Árvores Caindo” da sua biblioteca de sons. E pode virar outras coisas, pelas vias das mãos de quem está mexendo nele. Essa sempre foi uma possibilidade fascinante, que raramente consegue ser levada à exaustão, no mundo de hoje em dia em que as possibilidades são infinitas e se multiplicam infinitamente.
Essa multiplicação infinita de possibilidades gera uma necessidade nova – ou talvez nem tanto – do humano moderno, a de reduzir as opções de escolha, pois ninguém tem tempo de ficar escolhendo um dentre 45 sabores de sorvete, ou 30 tipos de equalizadores ou tempos ou algoritmos de reverb. Essa tendência está presente no sucesso do Google, por exemplo, que faz a tua barba, teu cabelo e teu bigode e não cobra nada porque na verdade ele ganha dinheiro com o anúncio de loção pós-barba que ele pendura no espelho na tua frente. E está presente no mundo do áudio digital nos pacotes que incluem tudo e um pouco mais em que se transformaram o Logic e o Pro-Tools. Mas não só nos mega-pacotes de coisas, mas principalmente em aplicativos e acessórios no estilo “melhorizer”, que podem facilitar a vida dos aspirantes no mundo da música e da produção fonográfica.
Eu tenho percebido uma certa tendência de facilitar demais a vida, justamente num momento – não do mundo, mas da vida individual de um aspirante a técnico de gravação, por exemplo – em que o que o cabra precisa é quebrar a cabeça pra entender como um compressor funciona. Um bom exemplo disso são as Signature Series da Waves, pacotes de plug-ins com a assinatura de grandes nomes do áudio mundial, como o Tony Maserati – responsável pelo som de arrasa-quarteirões como Black Eyed Peas e Destiny’s Child – e agora do Eddie Kramer, que dispensa apresentações. Esses pacotes oferecem, no lugar de ferramentas individuais como compressores, equalizadores e reverbs separados, combinações de processamentos em pacotes com nomes sugestivos como “Vocal Channel”, “Bass Channel” e “Drum Channel”, com um visual que lembra a cabine de comando do Nautilus no filme “Vinte Mil Léguas Submarinas”. Em resumo, é tipo um “Robert Plantizator” pra você passar o cantor expansivo daquela banda insossa de Hard-Rock, ou um “Fergierizer” pra você passar aquela popozuda meio desafinada que quer fazer sucesso a todo custo. Qual é o lugar dessas caixinhas em uma produção que se preze?
Veja bem, eu não tenho nada contra a Waves. Sou um usuário dentro dos conformes – pago pela minhas licenças em suaves prestações mensais – e devoto dos plug-ins deles, que são pau para quase toda obra. Acho o trabalho deles realmente fantástico, assim como o de outros fabricantes de Plug-ins como a Massey e a McDSP. Também não tenho nada contra o cara diversificar sua linha de negócios, criando novos produtos com a chancela de nomes que criaram sonoridades que se tornaram a referência de diversas gerações. E do Tony Maserati, e principalmente do Eddie Kramer eu não tenho nada a dizer de negativo, os caras estão lá no panteão dos nomes que nos ensinaram uma boa parte do que sabemos.
Mas eu acho um negócio meio destrambelhado o camarada sapecar um “Bass Channel” ali e um “Guitar Channel” aqui, e não se dar o trabalho de entender o que está acontecendo com o som que ele captou. O que seria um processo natural, eu creio, pois o pacote da Waves não vem com o John Bonham incluído, tampouco com a sala do Olympic, nem mesmo com uma Strato branca de canhoto pra você tocar de cabeça pra baixo e muito menos com os ouvidos do Eddie Kramer. Não vem com as manhas e mumunhas de produção do Will.I.Am ou do Jimmy Page. De modo que não vai fazer as coisas soarem do mesmo jeito por obra e graça do Espírito Santo. E se você não consegue desmontar a maquininha pra ver como funciona, como é que você vai aprender alguma coisa? Ou ainda, se você chegar num estúdio que te ofereça essas peças todas separadas, mas não o pacote, como é que se aprende a colocá-las na ordem certa?
Por outro lado, será que eu não estou sendo muito Caxias? É tão importante assim sofrer pra entender toda essa parafernália que nos rodeia? Será que se a gente perder menos tempo desvendando esses mistérios vamos fazer música melhor? Eu normalmente penso que essas coisas são como uma lasanha da Sadia – onde há claramente uma proporção inversa entre a facilidade de usar e a riqueza do sabor ou mesmo a diversão na feitura. Ao contrário, por exemplo, dos plug-ins do Live, que são ótimos pontos de partida pra você exercitar sua criatividade – ainda mais agora com essa integração com o Max – as lasanhas da Sadia não nos oferecem a chance de desmontar e remontar de outro jeito, de colocar um tempero no molho mas não massa.
Ou talvez esse seja um ótimo fiel pra nossa balança. De repente, testando um Drum Channel do Eddie Kramer a gente se sinta inspirado a usar nossos compressores e reverbs de outro jeito. Tem gente que, quando enjoa da lasanha da Sadia, chama um China In Box, mas tem gente que aprende a cozinhar.





Adorei! Vou colocar no nosso blog, e vou usar nas minhas palestras! Fica mais delicado do que “vao estudar bando de preguicosos !”
Pablo
21 Aug 09 at 1:44 pm
Massa jardelenses, curti muito o texto, vou dar uma divulgada nele no meu blog também. Acho que essa discussão aponta para uma grande questão marcante quando falamos de cultura digital que é a padronização dos sons e as receitas de bolo que já vem prontas, efeitos que já vem combinados prontos para usar. Não sou um expert da mixagem, mas considero uma criação que envolve conhecimentos técnicos e artísticos. Afinal, a assinatura artística vem exatamente das escolhas feitas num processo de criação e não de uma “boa” aplicação de fórmulas prontas. Grande abraço e mandem ver.
Filipe Barros
21 Aug 09 at 4:54 pm
hahahahaahha excelente analogia, e olhe que pro cara enjoar do china in box leva um tempo… lá tem bifun e yakissoba!
homero
22 Aug 09 at 7:29 pm
Muito bom, Zé. “Share on facebook” bombando, pra ver se alguém larga o fast-food. Escreve mais, po.
Vina
23 Aug 09 at 12:02 pm
Eu to aprendendo a cozinhar lasanha analógica da vovó, a receita está num LP da década de 40 que eu herdei. o texto tá “massa”.
grande abraço, zé!
yuri
Yuri Queiroga
25 Aug 09 at 12:04 am
Brilhantemente esclarecedor, um oasis no deserto.A Internet conseguiú imovilizar os corpos:agora tb as mentes.Parabéns Jardel,obrigado pela lucidez.
Danny Vincent
23 Feb 10 at 1:59 am