Jardel Music

Música e Áudio

Archive for August, 2009

Aventuras em Diversos Canais, Cap. 4 – Rodrigo Campos – Brother José

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Essa faixa do primeiro disco de Rodrigo Campos, “São Mateus não é um lugar assim tão longe”, foi produzida pela Jardel em parceria com Beto Villares, que produziu todo o disco. Em “Brother José” temos, além de Rodrigo na voz e cavacos, Curumin na bateria, Missionário José no baixo e André Édipo na guitarra. Groove bom e certeiro.

Brother José by jardel

Rodrigo e o Cavaco, em São Mateus

Dando seguimento aqui a esse post, vou complementar com algumas explicações sobre como fizemos essa faixa, há pouco mais de um ano. “Brother José” como a conhecemos acabou virando o meu primeiro trabalho como freelancer para a Ambulante, e começou meio de repente num dia em que o Curumin passou por lá pra gravar algumas participações no disco do Rodrigo. Subindo e descendo as escadas da Ambula fazendo alguma coisa que não me lembro – provavelmente eu devia estar organizando alguma coisa do Antônio pra deixar o meu ex-cargo de assistente devidamente assistido – o Beto me chamou pra gravar um baixo numa base junto com o Curumin, em cima de uma guia de voz, violão e click do Rodrigo. O baixo em questão foi um Hofner viola, de destro mesmo e que eu toquei de cabeça pra baixo, um processo meio alienígena que é a segunda coisa que todo canhoto aprende a fazer quando começa a tocar. E tocando com um baterista do quilate do Curumin, também, o camarada toca até sem baixo.

Tudo isso vira som, e muito mais

Tudo isso vira som, e muito mais

Pra base, fizemos uns três takes, e creio que o que ficou foi o terceiro. Eu peguei um DVD com as faixas todas e a sessão, e fui cuidar da vida, pra terminar a canção em Jardel. O próximo passo foi ouvir os takes, e aí eu fiz um mix rápido de alguns loops da levada, pra criar outros efeitos fora do ProTools, em alguns outros brinquedos favoritos: O MetaSynth e o SoundHack. Ambos são dois companheiros fiéis dos meus tempos de Bangor, onde eu passei diversas madrugadas transformando gravações de ambiência, voz e objetos diversos em sons de berimbau interplanetário e sapo-boi marciano, entre outras coisas. Se o que você precisa é de um som maluco doidão on-demand, vá de SoundHack e MetaSynth. Aproveite e saia um pouco de dentro da sua Workstation preferida e experimente brincar com sons de um jeito diferente.

Dentro do SoundHack, uma das melhores coisas é a parte de Convolução, que na prática é uma maneira de imprimir as características de um determinado som – digamos uma bateria – em um outro som – digamos um feedback de guitarra. É mais ou menos como se fosse um vocoder extremamente complexo e imprevisível, numa definição meio grosseira que ninguém deve sair por aí dizendo que é uma explicação plausível e suficiente pra o que é convolução. Até porque o SoundHack também tem um setor de Phase Vocoding que é uma coisa linda do Senhor.

O responsável por estes e alguns outros grandes sons

O responsável por estes e alguns outros grandes sons

Depois de alguns dias no parque de diversões, nestes dois e também no Live – que roda dentro do PT, mas não abre plugins externos, como esse belo Fuzz gratuito da Audio Damage, por exemplo – chegou a hora de editar toda essa brincadeira e jogar de volta na sessão, ver o que casa, o que não casa, e assim por diante. Também chegara a hora de acrescentar mais umas coisas pra  vestir a música, no que justamente ajudou o André com sua nossa Craviola fiel, passando pelo também fiel escudeiro Bass Driver  SansAmp da Tech21, uma das caixinhas de melhor custo-benefício do mundo inteiro.

A estratégia do Édipo partiu de um dos mandamentos / axiomas  Jardelenses – “Colarás no Bumbo sobre todas as coisas”. A partir disso, o desenho da guitarra deu aquele movimento que estava faltando nos versos e na introdução. Aquele famoso gancho que puxa você pela orelha e empurra pra pista de dança. Para os refrões, eu usei uma técnica que eu apelido de “Mellotron Rural”, pra criar umas cordas fictícias e dar um clima mais épico para essas passagens da música, e complementar as guitarras ascendentes. Nestas, a cada volta do refrão a gente foi gravando com o vibrato mais rápido, um detalhe que não fica claro na mix – nem é pra ficar – mas que colabora pra o sentimento de urgência que vai se acumulando à medida que o tempo vai passando.

ナカターさん

Curumin, sempre resolvendo

Passado este estágio, mandei a música de volta pra Ambulante, onde voltamos a trabalhar nela alguns meses depois, que foi quando o Rodrigo gravou seu cavaco e um repique de mão pra garantir a metalinguagem. Gravou também a voz principal, e fez algumas modificações na melodia até chegar a essa que ficou na música. Nessa etapa, passamos por mais um processo de seleção, tirando e recolocando elementos pra música não ficar enfeitada demais, nem vazia de menos. Isso incluiu também diversos takes de cavaco com efeito do Rodrigo, gravados lá no começo do processo, que foram se refinando até chegar a alguns comentários e um riff que aparece de vez em quando. Para fecharmos de vez o refrão, contamos novamente com o auxílio luxuoso do Curumin, mandando ver no vocal e conferindo ainda mais austeridade à faixa.

A mix ficou por conta do Dr. Lenza, que é um mestre na arte de colocar cada qual em seu devido lugar, em mono e stereo. Como normalmente acontece quando eu estou produzindo e outra pessoa está mixando, eu gosto de deixar pra dar pitaco quando a impressão digital do responsável pela mix já apareceu – eu acho que o legal do processo colaborativo é justamente você poder se surpreender com o trabalho dos outros, o que não acontece se você vira aquele “produtor papagaio” que fica dependurado no ombro do  engenheiro o tempo todo. No final das contas, em um disco com várias participações especiais, produtores e músicos, ficou também na mão de Lenza a responsabilidade de costurar o disco todo em uma peça coesa, como ficou no final.

Uma das coisas que eu achei mais interessantes nessa produção foi como a música do Rodrigo veio ‘de fábrica’ com uma personalidade que integrou elementos e pessoas diferentes, em lugares e tempos diferentes, e resultou numa faixa em que você tem a nítida impressão de que está todo mundo tocando ali junto. Ouçam, e aproveitem pra ouvir as outras faixas de “São Mateus não é um lugar assim tão longe”.

BrotherJose

Written by missionariojose

August 28th, 2009 at 10:00 am

Ao vivo hoje, pela internê

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Opa turmas

Hoje estaremos ao vivo no Showlivre, às 15h, tocando músicas do “Mustang Bar” com a Stela Campos. Assistam!

Written by missionariojose

August 26th, 2009 at 11:15 am

Lasanha da Sadia Sound System

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Um som, qualquer som, ele existe dentro da atmosfera que nos cerca. A proverbial árvore caindo dentro da floresta sem ninguém para ouvi-la ao cair, talvez não esteja soando por não ter ouvidos que a escutem, mas potencialmente será ouvida por uma sabiá, ou pela barriga de alguma cobra. Vai estar movimentando o ar à sua volta, e quem tiver alguma espécie de ouvido que escute. Quem tiver alguma espécie de microfone, que grave, e transforme sua queda não em um som, mas em oscilações de um campo magnético, ou em fileiras de zeros e uns agrupados em grupos de dezesseis ou vinte e quatro ou trinta e dois. Que podem ser reinterpretadas e ouvidas por orelhas crédulas que disponham de um pouco de tempo e atenção.

O que se faz com esse som, é problema de quem o manipula. Um som de árvore caindo pode ser só mais um som de árvore caindo dentro da pasta “Árvores Caindo” da sua biblioteca de sons. E pode virar outras coisas, pelas vias das mãos de quem está mexendo nele. Essa sempre foi uma possibilidade fascinante, que raramente consegue ser levada à exaustão, no mundo de hoje em dia em que as possibilidades são infinitas e se multiplicam infinitamente.

Bom mesmo era não ter que escolher e dispor de um Plate desses no quintal

Bom mesmo era não ter que escolher e dispor de um Plate desses no quintal

Essa multiplicação infinita de possibilidades gera uma necessidade nova – ou talvez nem tanto – do humano moderno, a de reduzir as opções de escolha, pois ninguém tem tempo de ficar escolhendo um dentre 45 sabores de sorvete, ou 30 tipos de equalizadores ou tempos ou algoritmos de reverb. Essa tendência está presente no sucesso do Google, por exemplo, que faz a tua barba, teu cabelo e teu bigode e não cobra nada porque na verdade ele ganha dinheiro com o anúncio de loção pós-barba que ele pendura no espelho na tua frente. E está presente no mundo do áudio digital nos pacotes que incluem tudo e um pouco mais em que se transformaram o Logic e o Pro-Tools. Mas não só nos mega-pacotes de coisas, mas principalmente em aplicativos e acessórios no estilo “melhorizer”, que podem facilitar a vida dos aspirantes no mundo da música e da produção fonográfica.

Eu tenho percebido uma certa tendência de facilitar demais a vida, justamente num momento – não do mundo, mas da vida individual de um aspirante a técnico de gravação, por exemplo – em que o que o cabra precisa é quebrar a cabeça pra entender como um compressor funciona. Um bom exemplo disso são as Signature Series da Waves, pacotes de plug-ins com a assinatura de grandes nomes do áudio mundial, como o Tony Maserati – responsável pelo som de arrasa-quarteirões como Black Eyed Peas e Destiny’s Child – e agora do Eddie Kramer, que dispensa apresentações. Esses pacotes oferecem, no lugar de ferramentas individuais como compressores, equalizadores e reverbs separados, combinações de processamentos em pacotes com nomes sugestivos como “Vocal Channel”, “Bass Channel” e “Drum Channel”, com um visual que lembra a cabine de comando do Nautilus no filme “Vinte Mil Léguas Submarinas”. Em resumo, é tipo um “Robert Plantizator” pra você passar o cantor expansivo daquela banda insossa de Hard-Rock, ou um “Fergierizer” pra você passar aquela popozuda meio desafinada que quer fazer sucesso a todo custo. Qual é o lugar dessas caixinhas em uma produção que se preze?

Relaxa aí, Nemo, que a gente ajeita na mix...

Relaxa aí, Nemo, que a gente ajeita na mix...

Veja bem, eu não tenho nada contra a Waves. Sou um usuário dentro dos conformes – pago pela minhas licenças em suaves prestações mensais – e devoto dos plug-ins deles, que são pau para quase toda obra. Acho o trabalho deles realmente fantástico, assim como o de outros fabricantes de Plug-ins como a Massey e a McDSP. Também não tenho nada contra o cara diversificar sua linha de negócios, criando novos produtos com a chancela de nomes que criaram sonoridades que se tornaram a referência de diversas gerações. E do Tony Maserati, e principalmente do Eddie Kramer eu não tenho nada a dizer de negativo, os caras estão lá no panteão dos nomes que nos ensinaram uma boa parte do que sabemos.

Kramer criando seus clássicos

Kramer criando seus clássicos

Mas eu acho um negócio meio destrambelhado o camarada sapecar um “Bass Channel” ali e um “Guitar Channel” aqui, e não se dar o trabalho de entender o que está acontecendo com o som que ele captou. O que seria um processo natural, eu creio, pois o pacote da Waves não vem com o John Bonham incluído, tampouco com a sala do Olympic, nem mesmo com uma Strato branca de canhoto pra você tocar de cabeça pra baixo e muito menos com os ouvidos do Eddie Kramer. Não vem com as manhas e mumunhas de produção do Will.I.Am ou do Jimmy Page. De modo que não vai fazer as coisas soarem do mesmo jeito por obra e graça do Espírito Santo. E se você não consegue desmontar a maquininha pra ver como funciona, como é que você vai aprender alguma coisa? Ou ainda, se você chegar num estúdio que te ofereça essas peças todas separadas, mas não o pacote, como é que se aprende a colocá-las na ordem certa?

O segredo não está em tocar ao contrário, acredite

O segredo não está em tocar ao contrário, acredite

Por outro lado, será que eu não estou sendo muito Caxias? É tão importante assim sofrer pra entender toda essa parafernália que nos rodeia? Será que se a gente perder menos tempo desvendando esses mistérios vamos fazer música melhor? Eu normalmente penso que essas coisas são como uma lasanha da Sadia – onde há claramente uma proporção inversa entre a facilidade de usar e a riqueza do sabor ou mesmo a diversão na feitura. Ao contrário, por exemplo, dos plug-ins do Live, que são ótimos pontos de partida pra você exercitar sua criatividade – ainda mais agora com essa integração com o Max – as lasanhas da Sadia não nos oferecem a chance de desmontar e remontar de outro jeito, de colocar um tempero no molho mas não massa.

Ou talvez esse seja um ótimo fiel pra nossa balança. De repente, testando um Drum Channel do Eddie Kramer a gente se sinta inspirado a usar nossos compressores e reverbs de outro jeito. Tem gente que, quando enjoa da lasanha da Sadia, chama um China In Box, mas tem gente que aprende a cozinhar.

Written by missionariojose

August 21st, 2009 at 11:56 am

L’eau Life

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amanhã, tem conversa. hoje tem essa animação, que mandou a chapa lá pra parelheiros:

Written by missionariojose

August 20th, 2009 at 1:29 pm

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Show no Studio SP, sem fumaça

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Alô alô, meu povo. Amanhã – Quarta-feira – estaremos lá no Studio SP com a Stela Campos e também os Hitchcocks, fazendo aquele rock doidão psicodélico. Aparecam!!!

Stela Campos no Studio SP

Stela Campos no Studio SP

Written by missionariojose

August 17th, 2009 at 11:46 pm

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Voltage

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Como só tem amigo safado quem pode, só hoje eu consegui parar para assistir ao Voltage, o mais recente curta de animação dos estúdios de animação da Barros Melo, com direção de William Paiva e Filippe Lyra, animado por eles, mais Leo D e mais um bocado de gente – que você pode conferir lendo a ficha técnica lá no Vimeo, e trilha de William e Leo.

Eu diria que o único defeito desta animação é a curta duração, mas não muito, porque sei do trabalho desgraçado que é fazer os meros 3 minutos e tanto que podemos assistir aqui. Outro defeito, obviamente, é o fato de o Diversitronica não estar completo na trilha sonora, mas esse defeito é mais culpa minha mesmo, na verdade. Fora isso, achei muito bonito e muito bem-feito, e saber que isso é obra de pessoas que vivem a mesma realidade da gente é muito inspirador.

É interessante perceber ao mesmo tempo influências de baluartes consagrados como Otomo e a turma do Japão, e detalhes sutis de traço e estética que mostram bem onde é que o filme foi feito, e subvertem nosso eterno paradigma de “foi feito em Recife mas poderia ter sido em Londres”. Pelo contrário é uma das provas cabais de que, dadas as mínimas condições, o material humano recifense é potencialmente uma referência internacional.

Sobre o Filippe, não posso falar nada além de elogiar o trabalho que eu conheci através do Voltage, indo direto para os favoritos. Sobre William e Leo, sou suspeito pra falar qualquer coisa, pois o que não fosse influenciado pela nossa amizade seria pela admiração inconteste que tenho pelos dois. Fico muito feliz de ver que num meio em que frequentemente vemos a carapuça de gênio adornar cabeças mais hábeis na arte de dar chilique do que em qualquer outra propriamente dita, vejo meus amigos tranquilos e calmos fazendo coisas geniais.

Voltage from Bam Studio on Vimeo.