And when the groove is dead and gone…
Apesar do risco de receber um grande adesivo de oportunista na testa, eu me sinto obrigado a escrever alguma coisa mais ou menos pública, dentro do modesto alcance do nosso modesto portal, sobre o Michael Jackson. Não somos um veículo de notícias, nem eu sou uma figura de proporções tais a ponto de alguém se perguntar “o que será que o Zé falou sobre a morte do Michael Jackson?”. Mas era uma pessoa que teve uma grande influência sobre mim, musicalmente e principalmente no fato de eu gostar tanto de música e viver disso.
O Michael Jackson foi o meu primeiro ídolo da vida real de que eu me lembre. Antes disso os meus ídolos eram o Luke Skywalker, o James Bond e o Spectreman, ou equivalentes menos longevos. E também foi, senão o primeiro, mas o maior ídolo musical da minha infância. Eu não queria SER o Michael Jackson quando crescesce – eu queria ser o Ziraldo ou o Quino ou o Charles Schulz – mas ele era o cara mais admirável da paróquia, e além de tudo tinha músicas legais que a gente podia ouvir e dançar e cantar – coisa que, por exemplo, a franquia Guerra nas Estrelas não proporcionava.
A minha cópia de Thriller foi um dos primeiros discos meus que eu tive. Comprado na extinta “Augusta Discos” do lado de casa, ainda está comigo até hoje. Antes mesmo de saber inglês, li e reli o encarte milhares de vezes, tentando pescar alguma coisa aqui e ali, como a palavra “fighter” que eu fui olhar no dicionário. E caramba, o Michael Jackson também desenhava, e era amigo do Paul McCartney, que já contava com alguns pontos na minha carteira de créditos. Já o Bad eu ganhei ou comprei em Maria Farinha, também foi ouvido, reouvido e analisado um bocado, mas foi mais ou menos por ali que eu comecei a deixar de prestar atenção no cara e foquei em outras coisas, como por exemplo os Beatles, o Pink Floyd e o sexo oposto.
Não foi só o meu foco que saiu a passeio depois do Bad. MJ seguiu em busca de novas interfaces do estrelato e foi fazer filmes, que viraram videogames, e tentar expandir mais ainda as fronteiras de alcance de um popstar da música internacional, o que eventualmente não deu muito certo e acabou comprometendo – se não a qualidade de produção – o conteúdo musical de sua obra, e desviando a atenção de todos da música e da dança pra vida, conturbada desde o berço, do artista. Confesso que não ouvi nada do Dangerous, do HIStory e do Invincible além dos singles via Rádio e TV, e que o que eu ouvi não me interessou muito a ouvir o resto. Dizem que são muito bem feitos e que os timbres são foda, e pode ser que algum dia eu pare e ouça, a título de curiosidade.
Mas bom mesmo é a aula de música pop dos Jackson 5 na Motown, e a trinca Off the Wall, Thriller e Bad. Só falta o adesivo “Senta, ouve e aprende” na capa. Ali, o cara canta MUITO, compõe MUITO e ainda dá suas pauladas na produção. Que é uma obra de arte por si só, quem nunca reconheceu “Billie Jean” no primeiro compasso atire a primeira pedra. Não é por acaso que Miles Davis gravou “Human Nature”, ou mesmo Caetano Veloso gravou “Billie Jean”. Esse é o máximo ao que qualquer artista que queira trilhar o caminho da popularidade exacerbada pode almejar: ser muito bom, independente dos milhões que venda, e indelével. Seja pelo acorde menor depois do primeiro refrão de “Ben”, as cordas em “Don’t Stop ‘Till You Get Enough”, ou o riff de “Beat It”, há mais elementos na obra de Michael Jackson que você nunca vai conseguir esquecer do que músicas dessa semana que você vai conseguir lembrar.
Apesar de chocado, e da curiosidade de ver como seriam os shows da turnê vindoura, não estou triste com a morte do Michael Jackson. De acordo com as minhas crenças, uma vida tão paradoxal e extrema deve servir a um propósito maior do espírito. Espero que agora ele possa descansar em paz, e seguir adiante.

“…you know that love survives”
:/
tomaz
28 Jun 09 at 7:59 pm