Jardel Music

Música e Áudio

O homem-cama (que deveria ter sido o homem-bigode)

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Para onde quer que se olhe, as últimas ramificações da Serra dos Órgãos podem ser vistas sumindo lentamente por trás de edifícios, agrupados em diferentes padrões de disposição e ornamentação de acordo com o poder aquisitivo do público-alvo. Nem mesmo em Recife ou Fortaleza eu consegui me sentir tão cercado pelo empreendimento como aqui em algum lugar perto do Riocentro, nos confins de Jacarepaguá, onde por meio de guindastes ou da produção televisiva, constrói-se uma espécie de Brasil. O google me revela – e os meus contínuos acessos a este mesmo mapa revelam a ele que eu estou me sentindo perdido – que estou próximo à reserva ecológica e da lagoa de Marapendi, menos mal, já que é a terra do meu fictício ídolo Piu-piu de Marapendi, que eu ouvia nos idos dos meus 08 anos num walkman azul que eu ganhei da minha avó em Miami Beach. Quem diria que Marapendi e Miami Beach estariam tão próximos novamente uns trinta anos depois:

Estamos aqui com o Mombojó para gravar a participação da banda em um programa do “Som Brasil”, na temática de músicas infantis, e do qual participam também o meu quase xará Guilherme Arantes, o Cidade Negra e uma banda chamada Criolina. A participação do Mombojó consiste em um medley de “A Casa” e “O Pato”, “Carimbador Maluco” – por sua vez a primeira vez em que eu vou ‘tocar Raul’ em público, e também “Valsa para uma Menininha”. “O Pato” em questão é o pato pateta, que ao tentar armar e se dar bem na sua suposta fazenda, termina a música na panela, ao contrário do seu primo que, por vir cantando alegremente, termina a música na lagoa. De onde a gente pode concluir que, se viver de música não dá dinheiro, pelo menos ajuda você a tomar banho de mar, de lagoa e de piscina.

Nesse caso, nem tanto, já que o mapa também revela que o plano meu, de Vicente e de Marcelo em pegar uma praia vai ser mais difícil de realizar do que a gente gostaria. Ainda não temos uma posição definitiva a respeito, e enquanto isso aproveitamos para comer e descansar. Chegamos ontem aqui – no Rio, não em Miami Beach – depois de acordar cedo para tocar na Virada Cultural, um evento que você provavelmente está sendo levado a crer que se constituiu em uma sequência infinita de arrastões, assaltos a mão armada e outros delitos, mas que teve alguns shows bem legais. Um deles, como gosto de crer, aconteceu no final / começo da 25 de Março, às 8 da manhã do domingo:

Os Machado e a 25 em chamas

Deve ter sido também a primeira vez em que o Prefeito de São Paulo vai a um show dos Racionais – talvez a primeira vez que um governante da cidade ou do estado de São Paulo ouve os Racionais também? – um ato recheado de promoção política e fotos no instagram, sem dúvida, mas que pelo menos indica a importância de prestar atenção ao que eles estão falando. Fazendo uma vista grossa necessária às partes violentamente machistas, é claro.

Chegamos e fomos comer, para depois ensaiar em um estúdio grandão, com três amplas salas todas ocupadas pelo Som Brasil infantil, e por uma outra edição dedicada ao pagode que também será gravada por estes dias. Não consegui perceber quais são os artistas da edição pagode, mas ouvi em algum momento um “Vai Vadiar” ressoando pelos corredores. Confortavelmente, o Guilherme Arantes demonstrou que big shots também deixam pra tirar as músicas que vão tocar em cima da hora, e também em cima da mesa, onde estava um teclado gigante no qual ele tirava alguma das músicas da sua participação, ouvindo o original num iPhone bem pequenininho, e vendo Corinthias X Santos pelo canto do olho. E o Corinthinas foi campeão, inclusive, mas nesse momento já estávamos ensaiando.

Voltando à praia para onde eu ainda não sei se vamos, a última praia que eu peguei foi também com os irmãos Machado, El Brig e um carioca que mora em Paris cujo nome eu já esqueci, e olha que isso foi há pouco mais de uma semana, em Carcavelos, uma praia de Cascais, em Portugal. Vicente, por meio de um chapa conhecido por Rodrigo “Sorriso” – mais uma prova viva da minha teoria sobre o nome “Rodrigo”, descobriu um albergue do surf em Carcavelos, que descobrimos depois ter sido aberto recentemente. O dono do albergue também é meu quase xará, por Zé, e é um camarada gente fina, e me fez o favor de abrir a porta às 6 da manhã do dia em que eu e meu bigode ibérico chegamos de Madrid.

"Home is Where the Beach Is", ou minha filosofia de vida

Eu já havia chegado de Madrid bem antes, na verdade, umas quatro da manhã, vindo de ônibus, na Gare – os portugueses chamam “Estação de Trem” de Gare, feito os franceses – do Oriente, um prédio de visual futurista, em que a parte de cima tem um visual futurista utópico, super bonito e funcional, e a parte de baixo vira um futuro distópico durante as madrugadas, em que uma multidão de mendigos procura abrigo em um grande corredor branco de secção oval, recortado ao meio por uma fila de elevadores cilíndricos e translúcidos, igualmente futuristas. De lá eu me esforcei em falar português para aprender como chegar no Cais do Sodré àquela hora, já que o metrô ainda estava fechado. Peguei um ônibus que acabou ficando grátis, pois o motorista angolano não tinha troco, e fui bater no Sodré, movimentado pela juventude que saía e descia do Bairro Alto. Dali pro trem, onde eu burramente me sentei num vagão envelopado com uma propaganda de um show do Bon Jovi, que me impedia de ver, às 5 e tantas da manhã, em que estação o trem tinha parado. Mas consegui descer na estação de Carcavelos, e por falta de um mapa, saí vagando à procura do albergue do surf. Não foi difícil, já que o albergue fica na rua da Beira, e normalmente a rua da Beira fica perto da beira-mar, mesmo em Portugal. O meu xará ajudou, com um pequeno cartaz, ali perto da beira-mar.

Eu fui a Madrid visitar André Édipo, que está no momento se ocupando de povoar o mundo com Jardelenses, inclusive o pequeno Erasmo, que é o primeiro Jardelense Espanhol da história. Tinha chegado dois dias antes, vindo da mesma Gare do Oriente, aonde também cheguei vindo do Cais do Sodré / Carcavelos, e anteriormente do Aeroporto, cuja estação de metrô é povoada por imagens de portugueses ilustres. Achei a casa de André da mesma forma, vagando pelo bairro, já que tinha chegado bem antes da hora combinada no metrô. Só que como isso demorou um pouco, André acabou indo me encontrar lá quando eu já estava aqui, mas nada grave demais. Na ida e na vinda, tive que me acostumar com a idéia de que os ônibus de viagem europeus, ou pelo menos os da empresa que eu utilizei, não possuem banheiro, portanto esteja sempre com o seu xixi em dia. As paradas são mais frequentes, e a viagem segue aquele modelo “cata-corno” que conhecemos bem. Sobe um, descem dois, anda um pouquinho, para, descem três, sobe ninguém, e assim por diante. Nada que um sono mortal não se encarregue de minimizar. Isso na ida, porque na volta eu não dormi nada. E também descobri que ônibus europeu pode facilmente ficar com a grade do ar-condicionado frouxa fazendo um barulho desgraçado enquanto todos querem dormir, não fosse o brasileiro e a genial técnica do papelzinho – que é a melhor invenção humana depois da roda, do compressor e do creme de leite – ficava o povo todo sofrendo da falta de descanso.

Depois do merecido cochilo e de brincar um pouco com meu afilhado Elóy – um dos primeiros Jardelenses Paulistanos – eu e André tiramos o dia para trabalhar pesadamente num mapeamento de “Cañas y Tapas” pela região central de Madrid, onde aqui e ali eu também trabalhei no Vermute que, usando a expressão genial do Coaracy, faz parte do meu campo semântico. Descobri que a minha região preferida de Madrid – até o momento – é ao redor da estação “Lavapiés”, onde moram muitos africanos e asiáticos, e as ruas todas tem nomes de santo.

Já no dia seguinte eu, depois de dormir um bom bocado e perder o horário da brincadeira com Elóy, fui visitar o museu do Prado, onde você pode se esbaldar de toda a arte e cultura ocidental que o acervo de uma família real podem oferecer. A minha idéia era visitar também o Reina Sofia no dia seguinte, mas cambiei fortemente a arte contemporânea e transada por um almoço contemporâneo na casa dos sogros de André. No Prado meu objetivo era predominantemente ingerir algumas doses substanciais de Hieronimus Bosch, o melhor alucinógeno que o Ocidente – com “O” maiúsculo – já produziu. Bosch é o único moralista da história por quem eu tenho um mínimo de respeito, pois no seu moralismo revelou que na verdade o ser humano é completamente maluco. E sem contar que o surrealismo avant-la-lettre e ao serviço de Deus é muito mais legal do que o surrealismo gratia artis do século passado.

Vi o Bosch, fui olhar também os Goyas – principalmente as Majas e aquele quadro sensacional de Saturno devorando os filhos – e descobri uns painéis medievais sensacionais. Num deles, antevendo o universo Lulínico, o Profeta Habacuque e Santo André estão lado a lado, mas eu preferi respeitar a norma de não fotografar dentro do museu. Depois voltei pra tentar dar mais um peguinha de Bosch, mas a sala já estava fechada. E não consegui ver a anunciação de Fra Angelico, que esta sala estava fechada mesmo, o dia inteiro, no caso.

De lá saí vagando pros lados da estação Atocha – nome genial – e fui procurar um Locutório pra falar com as meninas. Achei, e junto achei o “Benteveo”, um lugar bem bacana numa esquina de dois outros santos, onde fiquei fazendo hora para ir encontrar André junto do Urso, pois tínhamos combinado uma outra excusão tapística, desta vez explorando a Cava Baja, onde eu fui apresentado a um negócio que é essencialmente uma carne de charque de Atum, e o qual você deveria procurar saber. No caminho, passamos por uma passagem de som na Plaza Mayor, de um espetáculo que imaginamos ter a ver com a festa de San Izidro, o santo da casa de Madrid.

Benteveo, um lugar bacana

De modo que, se não estou mais culto, pelo menos estou mais gordo. Vejamos quem vai me valer mais depois do armagedão tecnológico que as tempestades solares prometem para breve, e sobre o qual inclusive a mesa do Guilherme Arantes estava conversando ontem ao jantar. Não que tenhamos o hábito de ouvir a conversa dos outros, ou que estivéssemos eventualmente sem assunto, mas simplesmente moídos demais para conseguir conversar entre nós, e um tanto desesperados aguardando uma comida que não chegava nunca, sob os auspícios de um garçom português – cuja função principal era simplesmente dificultar o trabalho da pessoa em saber onde ela está – que claramente não falava a nossa língua.

Voltando a Lisboa, depois do cochilo no albergue do Surf e de um banho de mar geladíssimo no qual o meu bigode deixou de ser um bigode português e voltou a ser um bigode de Leôncio, acompanhado de um chopp e um bate-bola na areia que ressuscitou minha fascite plantar com glorioso êxito, pegamos o trem para o Sodré pela última vez, para trabalhar, que a vida não é só passear e engordar.

A vida é também trabalhar e engordar, coisa que o hotel do evento em Portugal sabe fazer muito bem. Chegando por lá encontrei com o Edy, que há algum tempo toca na Cabruêra, que também participava do evento. Cabruêra esta que por anos contou com a participação de um xará real, Zé Guilherme, que junto comigo ajuda a confundir a cabeça de um bocado de gente ligada à música popular em Pernambuco e na Paraíba. Não deu pra vê-los tocando pois o show tinha sido na véspera, de modo que o resto do dia consistiu em se empanturrar de comida e vinho no restaurante, com a ajuda de um sósia do Mos Def, dormir e repetir tudo de novo no jantar.

Tocamos num lugar massa chamado LX Factory, um desses espaços industriais convertidos em espaço cultural, já que hoje em dia a indústria mesmo está escondida em saletas discretas no Brás, ou lá pras bandas da Ásia, onde a Glória Kalil afirma e o Petit confirma que é possível se escravizar o povo sem maiores culpas nem consequências, visando aí uma roupinha transada ou um iPad novinho, ou mesmo este computador em que escrevo esse palavrório pouco útil e bastante culpado. No LX o negócio ficou bonito, graças à mão talentosa e internacional do Derlon, um moleque gente fina que está pintando as paredes do mundo. Almoçamos um sushi modernoso, em que nos ajudou uma brasileira radicada em Lisboa cujo sotaque está nesse momento bem no meio do Atlântico, e não conseguimos derrotar o chef/sushiman, que nos derrubou após umas poucas rodadas das suas invenções. Fizemos bem em comer muito, pois o camarim mais tarde estava um tanto parco, e não deu tempo de ir jantar em outro lugar.

Quem abriu a noite foi um camarada de nome J. Velloso, que tudo indica deve ser sobrinho ou primo do Caetano de mesmo nome. A associação J. Velloso / Mombojó não ajudou muito nem ele nem a banda, o público de um sintonizava diferente do público do outro, mas no final deu tudo certo. O som estava espetacular para nós do palco, e parece que bom também para o público. Terminado o show, a programação seguiu com um voz e violão no mezzanino, o camarada entrou logo com “Tive Razão”, e aí sim tivemos certeza de que a música brasileira popular de hoje em dia está sendo apresentada em toda sua diversidade lá pelas bandas de Portugal.

De lá fomos para o Bairro Alto em busca de comida e talvez de uma cerveja, que encontramos num Kebab junto do Miradouro de São Pedro de Alcântara. Esperto foi Vicente que comprou logo um copo de meio litro, eu tive que me virar depois pra arrumar outra cervejinha ali pelo Bairro Alto, já que todo mundo estava fechando. Acabei achando em dois quarteirões de inferninho ali perto, onde mais uma vez eu comprovei a minha teoria de “Sultans of Swing”, pouco antes de extirpar o meu bigode ibérico, desprovido de função na volta ao Brasil. Eu, Vivi e Marcelo já tínhamos passado por todos esses lugares mais cedo, em busca de algumas lembranças típicas, quando nos deparamos com um festival da máscara ibérica, uma demonstração linda de que o Cavalo Marinho é realmente uma influência internacional nos dias de hoje. Tomamos também uma Ginja em uma barraquinha turística à beira-rio/mar, mas a esta altura já estávamos cansados e precisávamos voltar pro hotel, que a vida também é trabalhar e engordar, e afinal de contas a fascite plantar tende a se manifestar nos obesos, ainda que não-assumidos.

P.S.: Pelos motivos habituais, eu não consegui terminar minha série do homem-lhama, nem escrever a série do homem-bigode enquanto estava na península ibérica. De qualquer modo, vou aproveitar esse texto gigante para acrescentar o que teria sido uma chave de ouro nos relatos da Argentina / Uruguai, uma foto do homem-lhama no melhor estilo viajante, tirada por Chiquinho Moreira:

Por hoje é só, pessoal!

Written by missionariojose

May 20th, 2013 at 11:15 am

O homem-lhama – Dia 12

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De volta a Buenos Aires (1)

No domingo chegamos em Buenos Aires de manhã, semivirados do festival em San Pedro, e qual não foi nossa surpresa ao descobrir que nossos quartos ainda não estavam disponíveis na nossa base na Tucumán. Sucedeu-se uma pequena guerra de provocações entre nós e o hotel, que iniciamos ao colocar todas as nossas malas e equipamentos no hall de entrada – também pudera, não íamos deixar no meio da rua, ainda mais porque estava ameaçando chover de novo. De lá conseguimos negociar/forçar uma subida para outro salão, no primeiro andar, e aproveitamos uma brecha pra já enfiar todos os equipamentos no depósito do hotel. E por lá nos espalhamos, até que alguém se dignasse a liberar nossos quartos – mas pelo menos deu pra tomar um café da manhã.

O café da manhã desse hotel merece uma nota. O restaurante fica no que seria o quarto 108, e misteriosamente se chama Ciento Ocho. A trilha sonora obrigatória do café em todos os dias era um dance bastante morgado, meio como se alguém tivesse aberto o Reason e deixado a música de demonstração tocando indefinidamente. Mas no domingo rolava uma bossinha, acho que alguém opinou que dance music no domingo de manhã é demais. O café – a bebida em si – era lastimável, mas isso não era um predicado específico do 108 pois hoje mesmo de manhã o café era uma porcaria também, mas as medialunas estavam sempre fantásticas, ainda mais com o doce de leite em potinhos que estava sempre disponível. Felipe mesmo comia uns 5 potinhos no café e levava mais uns 5 pra comer ao longo do dia, todos os dias. Já o meu gabarito era 3/3, normalmente, mais uns tantos saquinhos de erva mate.

Campeonato de Zumbis

Acabamos subindo pros quartos por volta da uma da tarde, e aos poucos cada um capotou no seu canto. À noite nos indicaram um restaurante vegetariano + salão de danças chamado La Catedral, para onde fomos de metrô. Não poderia ser mais adequado, o espaço realmente é super legal, e está longe de ser um desses lugares arrumadinhos e limpinhos voltados para os jovens, ricos e sexys. Trata-se de um galpão com um pé direito altíssimo, com mesas ao redor de um espaço central onde as pessoas dançam a noite toda, e onde a iluminação é no estilo Balu: somente o necessário. Para começar e animar os presentes, um casal de professores ensinava os passos básicos de uma dança folclórica argentina chamada Chacarera, e obviamente ninguém do nosso grupo topou participar.

Após uns quarenta minutos de aula, mais ou menos, um trio de músicos montou seus equipamentos e começou a tocar. E tome Chacarera. Na catedral reúnem-se turistas, portenhos, e alguns dançarinos profissionais ou semi-profissionais que agitam a pista. Todos os homens que dançavam bem a Chacarera – uma dança que envolve dar uns pinotes e umas pancadas no chão com o pé – usavam rabo de cavalo e cavanhaque, sem exceção. O percussionista do trio tinha um cabelo com 4 camadas, porém não graduais. Começava careca na frente, passava pra uma máquina 4, e atrás da cabeça descia um pedaço bem comprido, ABAIXO do qual se escondia um mullet – aquele cabelo de zagueiro dos anos 80/90 – de tamanho regular. Um exemplo a se seguir. No meio do festival de Chacarera aconteceu o inevitável: cumprindo a minha sina de vereador universal, eu encontrei minha amiga Mariana Furquim, que eu conheci no projeto Guri, de férias com o marido em Buenos Aires. Finda a Chacarera, depois de umas duas horas, rolou uma sessão pesada de cumbias, seguida de sucessos internacionais da discoteca e do pop dos anos 80. E depois Tango, e pra finalizar mais Chacarera. Achei bem mais legal ver as pessoas dançando Tango sem estarem fantasiados, vestindo roupas normais, calça jeans e camiseta, e as meninas dançando na ponta dos pés pra compensar o salto alto. Acabamos saindo bem tarde e na porta encontramos o Laurent, saxofonista do Vetex, que também rendeu mais um tempinho de papo.

A segunda, dessa maneira, foi bem devagar. Almoçamos no vegetariano chinês embaixo do hotel, e os meninos saíram com Vítor e Marta para filmar coisas para um vídeo de “Amigo do Tempo”. Eu fui botar umas roupas para lavar e saí para visitar o MALBA e algumas livrarias, e ao pegar o ônibus pra ir ao museu eu estava sem moedas o suficiente para a passagem, de modo que motorista acabou me mandando andar de graça mesmo (e provavelmente à merda também). O museu em si vale muito a pena, é um prédio muito bonito, e só a exposição permanente do acervo já vale a visita, mas as exposições da Tracey Emin e da Beatriz Milhazes também estavem legais. Decidido a voltar andando pro hotel, percebi que a área do Malba é uma espécie de Jardim Europa de Buenos Aires, cheias de embaixadas – inclusive a do Haiti e a da Eslováquia, de casas de gente rica, e com pouca gente andando na rua. Voltando eu passei também na frente da Faculdade de Direito e do Museu de Belas Artes, atrás do qual eu encontrei por acaso o pessoal de novo, já finalizando as filmagens.

Montevidéu de barco

Terça foi dia de descer tudo e vir pra Montevidéu, de barco. Demoramos quase tanto tempo no processo de check-in e espera quanto na viagem em si, que por sinal é bem confortável e relativamente rápida – principalmente se você considerar que por terra a viagem seria umas 4 vezes mais longa. A única decepção foi o barco não ter áreas abertas para poder curtir um momento marujo, e com os preços praticados pela lanchonete o jeito foi ficar tomando água e lendo, e tentando usar uma internet um tanto lenta. Vicente e Marcelo acharam um Playstation com Fifa Soccer e por lá ficaram a maior parte da viagem – não havia concorrência já que a maior parte dos passageiros era bem mais velha que nós, ou casais com bebês.

Ficamos num hotel na avenida Soriano, bem perto da praça da Independência onde ficam a Presidência da República – onde trabalha o presidente mais limpeza do mundo – e o Edifício Salvo, um gigante meio art-déco/meio calabreza do início do século passado que chama a atenção à distância. Na primeira noite fomos jantar e panfletar nos arredores de um lugar altamente recomendável da capital, o Cheesecake Records – que como todo lugar altamente recomendável possui um pé-sujo ao lado em que a cerveja é mais barata, onde finalmente consegui encontrar o Tobe que também estava por lá com a galera do Vetex. Colocamos o papo em dia, e pouco depois chegou a banda do Manu Chao, que estava hospedada ali por perto também.

"Who you gonna call?"

Essa área onde estávamos fica por trás do Teatro Solís, e dava para ir e voltar andando pro hotel numas ruas que, na noite da terça, estavam bem escuras. Descobrimos depois que a área entre a Soriano e o rio/mar é meio barra-pesada, e de fato o caminho estava povoado por nóias ocasionais que passavam fingindo não estar evidente o que eles estavam fazendo.

Na quarta estávamos com o dia quase todo livre, e resolvemos sair pra passear no calçadão e eventualmente pegar uma praia. Descendo pro calçadão é que soubemos do caráter barra-pesada da região, um policial super educado viu a câmera de Vítor e veio nos avisar que não descêssemos direto por ali, que a boca era quente. Resolvemos então andar mais um pouco e paramos num posto de gasolina onde compramos água e o Mombojó se cotizou pra comprar uma bola de futebol estampada com a bandeira do Uruguai. Tentamos chegar até uma pracinha próxima pra jogar uma pelada informal, mas deu a hora de alguns dos meninos irem pra uma rádio dar entrevista e resolvemos voltar. Almoçamos no hotel, onde fomos atendidos por um garçom parecido com o Roberto Leal que depois tentou faturar o telefone da Ana, esquecido na mesa depois do almoço, mas que foi devidamente devolvido quando solicitamos à gerência que eles exibissem para nós as imagens das câmeras de segurança. Depois do almoço eu capotei numa soneca irresistível, o que me deu energias para irmos ao show do Manu Chao à noite, na edição uruguaia do mesmo festival em que tocamos em San Pedro.

Ontem tínhamos que sair do hotel só às 17h, então eu aproveitei pra sair pra passear pela cidade depois do café. Descendo a Av. 18 de Julho havia uma manifestação política de alguma classe de trabalhadores que se encerrou com a Internacional Comunista, justamente na hora em que começou a chover. Eu aproveitei uma banquinha de artesanato pra comprar uma cuia individual de chimarrão pra mim, e desci pra conhecer a cidade velha, que é a região portuária da cidade. Visitei a Basílica de Montevidéu e o museu ao lado, o Gurvich, que é pequeno porém decente. De lá fui no zigue-zague pela vizinhança, e dei de cara com outro museu, o MAPI, um museu de arte pré-colombiana muito interessante situado num casarão muito bonito. Além da exposição de peças históricas de diversas etnias, também tinha uma sala com instrumentos musicais tradicionais e exposições sobre o calendário maia e sobre os Mbiás. Mas o mais legal mesmo era uma reprodução em tamanho natural de um Gliptodonte, uma espécie de tatu do tamanho de um fusca que habitava estas plagas quando da chegada dos povos há 15 mil anos. Depois de trocar alguns pesos pra comprar umas lembrancinhas, almocei num restaurante meio antigo que prometia ter um café bacana, mas o que veio pra mim estava uma porcaria e veio acompanhado de um Bis – um wafer coberto de chocolate tipicamente uruguaio. O passeio acabou se mostrando bastante proveitoso, o que é curioso pois no final de uma turnê, independente do tamanho, você normalmente já está de saco cheio e não tem muita paciência pra ficar conhecendo lugar nenhum.

O show de Montevidéu foi num lugar chamado Lorente, que parece ser um salão de shows mais antigo, com uma acústica bem legal e um sistema de som impecável. Tivemos um público razoável levando em conta a pouca divulgação e o fato de que a casa estava fechada há algum tempo, então as pessoas estavam um tanto desacostumadas a ir até lá naturalmente pra ver o que estava rolando. Apesar de pequeno, o público estava muito receptivo e acabou rolando outra virada de jogo, até teve um camarada que subiu no palco pra agitar, e antes de “Papapá” Felipe fez questão de descer e abraçar todos os presentes. Terminamos a noite tomando uma cerveja lá no Cheesecake com uma galera de brasileiros que foi pro show, e voltamos logo pois a saída pra Buenos Aires hoje era cedo, e Vítor tinha que sair mais cedo ainda pra pegar um avião direto de Montevidéu para chegar a tempo de um show do Nando Reis em Belo Horizonte.

De volta a Buenos Aires (2)

Voltamos hoje num barco bem maior do que aquele em que fomos pra Montevidéu, e quase todo mundo dormiu na viagem. Felipe, Ana e Chiquinho engataram um jogo de Monopoly que ainda não acabou, e na saída da estação das barcas nos enfiamos em três taxis com todas as malas e equipamentos, o que só pode ter acontecido com uma certa dose de milagre, pois até agora eu não consegui entender como coube. Nos instalamos em um outro hotel, não muito longe do nosso hotel antigo aqui de BsAs, num grande apartamento para 7 pessoas, com Ana e Marta dividindo um outro apartamento entre elas. Esse hotel segue o mesmo formato de edifício residencial reformado, devendo ser um prédio da década de 30 ou 40, com apartamentos de pé-direito enorme e um elevador curioso em que a porta externa tem uma maçaneta normal como essas de uma porta comum, e uma porta interna que a gente fecha na mão pro elevador poder se movimentar.

Saímos pra comer e dar uma olhada numas bugingangas de última hora, ligar pra casa, e soubemos pela TV da demissão do Mano Menezes, e também do boato sobre a contratação do Guardiola, que atualmente é o favorito aqui da rapaziada. Chiquinho e Brigídio foram comprar discos, que estamos ouvindo enquanto há uma tentativa sincera de se terminar a partida de Monopoly.

Written by missionariojose

November 23rd, 2012 at 10:16 pm

O homem-lhama – Dia 08 – Descendo o Paraná

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Nossas aventuras cisplatinas continuam a todo o vapor. Como eu mencionei anteriormente, sexta de manhã chegou um ônibus mucholoco para nos buscar para irmos a Rosário. A idéia é que este fosse um ônibus apropriado para turnês, com camas, televisão, frigobar, o que ele era de fato, e certamente deve ter sido um ônibus super convidativo em seus primeiros 5 ou 6 anos de estrada. Ao vê-lo da janela, nossa primeira reação foi “Meu irmão, olhe ali aquele ônibus muito louco caindo aos pedaços”, que rapidamente se tornou um “Será que esse é o nosso ônibus?”, seguido da constatação inevitável de que ali estava o nosso portador. O exterior da nossa nave era decorado por um complexo grafite envolvendo uma mão gigante segurando a roda da frente, uma versão destra de um Jimi Hendrix morrendo de inanição, entre outros diversos experimentos visuais. Dentro do ônibus tínhamos mais ou menos umas dez cadeiras – cujos cintos de segurança certamente nunca foram afivelados – duas mesas de fórmica, um sofazão e umas 16 camas. Além de um certo grude no chão e uma incerteza perene da real densidade populacional microbiótica nas roupas de cama e estofados em geral. Dica vital de turnês do nosso técnico Rodrigo Sanches: Na dúvida, vista uma das suas camisetas no travesseiro, que pior não fica. E sempre deite com a cabeça virada pro fundo do ônibus, pra não dar cabeçada no caso de uma freada brusca.

Pugliese - Rosário(AR) 16/11/2012 - Mombojó

Com todos devidamente embarcados, o motorista embicou em direção a Rosário, mas pouco depois de passarmos do estádio do River Plate um policial pediu pro ônibus encostar. Para tornar seu trabalho um pouco mais difícil, resolvemos ir cada um para uma cama tentar incutir no cana um espírito de compaixão por estes pobres músicos que estariam ali descansando após uma longa noite de trabalho. Entre a dica do Rodrigão e um travesseiro daqueles de dormir em ônibus e avião que eu trouxe, me acomodei numa das camas do lado direito do ônibus, e juntando o restinho de sono com o meu talento natural para dormir em qualquer lugar, emendei uma soneca bacana, interrompida ocasionalmente pela luminosidade que entrava pela janelinha, de onde dava pra ver um pequeno recorte do interior da Argentina cada vez que eu acordava. Almoçamos em um parador em Fighiera, que por algum motivo obscuro se chama Parador Fighiera, onde seria uma boa idéia trocar a oferta de Wi-Fi por um azeite melhorzinho. De lá até Rosário ainda levamos quase uma hora por conta de umas obras na estrada, e nos hospedamos em um hotel chamado Pringles.

Rosário é o berço de dois dos maiores ícones argentinos, Che Guevara e Lionel Messi, dos quais pelo menos um tem caspa – o outro provavelmente também tinha, sendo que provavelmente esta não era uma preocupação maior do que as pulgas, os carrapatos, os imperialistas americanos, a libertação da classe trabalhadora no mundo inteiro e uma certa dose de culto à própria imagem, que sem cultuar a si mesmo nenhum líder socialista vai a lugar nenhum. Passeando pela cidade antes da passagem de som, Vicente chamou a atenção para um lugar que não conseguimos entender se era ou não o local de nascimento d’El Che. Se for esse da foto, é ele mesmo. O passeio nos levou a um parque bem bonito na beira do Paraná, onde há uma espécie de anfiteatro em que deve ser muito bacana tocar, apesar do vento, e uma tremenda escada que liga a parte alta à parte baixa da beira-rio. Ao lado dessa escada havia um gramado onde um grupo de 4 ou 5 bêbados se danava a cantar a música do Rocky toda vez que alguém subia as escadas correndo, e Vítor aproveitou esse cenário para gravar alguns depoimentos com os Mombojós para o registro audiovisual da turnê. Como eu não tinha que gravar nada, e como você tira a pessoa de Jardim Atlântico, mas não tira Jardim Atlântico da pessoa, eu aproveitei para tirar a camisa, pegar um vento e comer um brebote que posteriormente se mostrou fundamental, já que jantamos pizzas em cone que custaram a chegar o tempo suficiente para você esquecer a fome e lembrar que pizza em cone não é necessariamente uma boa idéia.

O show em Rosário foi em uma casa noturna muito legal chamada Pugliese, onde tocamos com dois grupos de música tradicional, um da Colômbia chamado Huevo de Iguana, e outro argentino chamado Ajo Tinto. A passagem de som começou tensa pois o Alpha Juno de Chiquinho não ligava de jeito nenhum. Abrimos e descobrimos que o fusível havia queimado, o que é sempre um alívio, pois um fusível de 300mA é sempre mais barato do que um Alpha Juno. Mas não necessariamente mais fácil de achar. Enquanto o nosso assistente na casa se enrolava pra tentar descolar um fusível, eu abri um Marshall Valvestate que estava de bobeira e sapequei de lá de dentro um outro fusível de 1A. Deu certo, o Alpha funcionou, e apesar da tensão de rolar algum pico entre 300mA e 1A que pudesse danificar o teclado – e aí sim arrumarmos um problema sério pra se resolver no interior da Argentina, não tivemos maiores percalços.

Nossa apresentação em si foi uma tremenda virada de jogo. A casa segurou o começo do show por pelo menos uma hora além do programado enquanto o público chegava – percebemos que o público das casas noturnas aqui chega notoriamente tarde, e apesar de não ter tanto público assim, quem estava lá assistiu ao show prestando atenção, interagindo inclusive. Show terminado, eu e El Brig tentamos convencer o camarada do som a comprar outro fusível para o ampli dele no dia seguinte, explicando que teríamos outro show e podíamos não conseguir comprar um fusível a tempo de sair para San Pedro, etc. e tal, mas não teve jeito além de abrir de novo o Juno, tirar o fusível de lá e enfiar de volta no Marshall, que, como todo Valvestate, estava soando bem melhor do outro jeito.

Entre o atraso do show e a hora de partir para San Pedro, tivemos poucas horas pra dormir. Pra melhorar a situação, o despertador do telefone de Marcelo não tocou, então eu, ele e Vicente acabamos perdendo o café, que virou um assalto rápido à bandeja de medialunas. O lado bom foi que eu não precisei tirar o pijama, me enfiei na minha caminha com uma garrafa d’água ao alcance da mão e vamos rodar pelas estradas desse belo continente que é a América do Sul. Descendo ao longo do Rio Paraná, chegamos ao final da rua 11 de setembro em San Pedro, para a edição Argentina do festival Mastai. Eu acordei e literalmente desci do ônibus direto pro palco, de pijama e com minha bolsa a tiracolo, para passar o som. A estrutura do Mastai é super legal, e o som estava fantástico – nosso sidefill era literalmente um pequeno P.A. suspenso.

San Pedro(AR) Festival Mastai 17/11/2012 - Mombojó

Aos poucos fomos entendendo que o festival ficava num descampado ao lado do rio, e que pelo menos essa parte da cidade era uma espécie de balneário onde as pessoas vão veranear – pense em Ponta de Pedra. Almoçamos num restaurante junto da entrada do público, ao som de uns três sistemas diferentes tocando a nata do pop Argentino – escolhemos o mais potente e pedimos pro Vítor negociar com o camarada de tocar umas músicas do Mombojó enquanto o público entrava, vai que alguém gosta e canta junto no show, enfim. Eu comi um Dourado na Brasa que estava na medida, apesar da falta de arroz.

Nosso show no Mastai foi bem curto, só 20 minutos, nos quais deu pra tocar “Antimonotonia”, “Amigo do Tempo”, “Papapá” e “Deixe-se acreditar”. Não obstante, o público foi bem receptivo e inclusive algumas pessoas procuraram a banda na internet depois. Mas ficou aquela sensação de que mais uns dez minutinhos de repertório teriam sido realmente importantes pra marcar o proverbial gol junto ao público argentino. Após o show, pegamos umas cervejas no camarim e fomos passear pelo festival, e deu pra assistir o show da Orchestre International du Vetex, e qual não é a minha surpresa ao ver que o Tubista da orquestra era o meu chapa Tobe, do Think of One. Depois eu descobri também que o Roel também toca na orquestra, mas que teve que voltar pra Bélgica antes desse show em San Pedro.

Honestamente, eu não ouvi muitas coisas legais ao longo do resto do festival. Eu imagino que o rock ou a música pop mais tradicionais realmente dependem de você estabelecer uma relação afetiva com o repertório ao longo da sua vida, o que certamente era o caso das 30 mil pessoas que estavam cantando junto com as bandas que tocaram ao longo do dia. Deve ser a mesma coisa de um não-brasileiro ir a um show dos Titãs hoje em dia, por exemplo. Se você não conhece as canções e não possui alguma espécie de história pessoal com elas, o show dificilmente te cativa.

Dessa maneira, e sem saber exatamente como ia ser o nosso futuro imediato, ficamos arranjando maneiras de passar o tempo até o show do Manu Chao, que encerraria a noite. Aparentemente existe uma conta que diz que consumimos umas trezentas cervejas no nosso camarim, mas eu não sei se isso é verdade, pois estávamos todos muito cansados pra manter essa velocidade toda. Depois de gastar o resto de adrenalina que sobrava no set de 20 minutos e de dar uma volta pelo festival, eu sentei num canto do camarim e só percebi que tinha dormido uns dois shows depois. Depois fiquei assistindo um camarada inflar um balão com ar quente, que aparentemente não chegou a alçar vôo, e olhando os barcos no rio – onde seguindo a lógica jardelense eu teria certamente mergulhado se não fosse proibido. Num determinado momento eu resolvi ver se encontrava a galera do Vetex, mas eles já tinham ido quase todos embora, e eu aproveitei o ensejo – e a minha credencial, para dar uma volta em San Pedro.

Andando uns dez quarteirões para longe do festival, eu percebi que de fato a área era uma área de veraneio, com muitas casas fechadas, e nas tantas outras em que havia gente existia uma oferta constante de pão com linguiça, a fernet-cola ubíqua, cerveja e algumas outras variáveis do tema rango / birita de festival, sempre a preços módicos. A caminhada me ajudou a sair do estado zumbi em que eu me encontrava, sem estar cansado o suficiente pra encarar a cama do busão, nem disposto o suficiente para entender as minúcias do Pop argentino.

As atrações do festival estavam se alternando em dois palcos, e quando eu voltei para o backstage a última atração do palco 1, o mesmo em que nós tocamos, já estava se apresentando. No caso, faltava então uma atração no palco 2, e aí já seria o show do Manu Chao. Acontece que um determinado cidadão resolveu externar suas dores amorosas subindo no alambrado do palco 2, ameaçando terminar o assunto ali mesmo na base do vou pular. Aí armou-se um tremendo sururu, inclusive uma ótima oportunidade para ensinar aos hermanos o sentido dessa expressão, ou ainda de outra ainda mais propícia, armou-se um tremendo boné, para resolver esse maluco querendo se jogar do alambrado sem interromper o festival, e se possível sem atrasar a última banda do palco 2. Coisa que Pezão resolveria esticando o braço e puxando o garoto lá de cima, mas não é todo festival do mundo que pode se dar ao luxo de ter Pezão organizando o setor. Apesar da curiosidade, a possibilidade de assistir um “Faces da Morte” ao vivo nos manteve distante do local a maior parte do tempo, e nesse ínterim, conversando com uma rapaziada no backstage, descobrimos que existe um pequeno histórico de pessoas se suicidando em alambrados de shows grandes na Argentina, ou pelo menos que o povo na Argentina consegue inventar uma abobrinha em tempo recorde melhor do que André.

A solução foi o artista que estava no palco 1, aparentemente um camarada bem famoso chamado Ciro, ir lá depois de ter terminado seu show, pedir pro jovem descer de lá numa boa, ao que foi prontamente atendido. Faz um certo sentido, pelo pouco que eu tive paciência de assistir a temática das músicas do Ciro gira um pouco em torno da boa e velha dor de corno, motivo principal da manifestação do nosso audaz enamorado, de modo que é um caso clássico de similia similibum curantur. A banda que assumiu então o palco 2 chama-se Nonpalidece, e toca um reggae bem honesto. Aparentemente o cantor mandou o nosso apaixonado aventureiro às favas ao começar o show, mas meu castellano não chegou até aí.

E finalmente, tudo se aprontou para o show do Manu Chao, cuja turnê atual recebe o nome de La Ventura. Os shows dessa turnê são extremamente intensos e longos – giram entre 2 a 3 horas de duração e o andamento das músicas nunca fica lento por muito tempo. Algo como um Slayer mais longo e mais alto-astral, talvez. Eu já tinha visto um show desta turnê no Brasil, e o roteiro foi bem semelhante, e dessa vez ficamos assistindo ao show do lado do palco junto com a galera das outras bandas. Num determinado momento Manu chama ao palco pessoas ligadas a movimentos sociais para cada um dar o seu recado, e Chiquinho ficou animado de ir lá no microfone protestar contra a diretoria do Sport e puxar um Cazá-cazá. Teria sido interessante.

Eu sou muito fã do Mano Negra, e gosto o bastante da carreira solo de Manu Chao para assistir a um show inteiro dele. Mas o cansaço venceu e depois de uma breve escala no camarim, onde Felipe já estava dormindo, resolvemos os dois admitir a derrota e voltar pro ônibus onde camas – ainda que um tanto insalubres, mas camas – esperavam pacientemente cada um de nós. Acordei já na Tucumán, com o motorista mandando todo mundo descer porque ele tinha que lavar o ônibus – yeah, right – e pegar outra banda pra voltar pra San Pedro, mas como o festival só tinha um dia, eu acho mesmo é que ele estava passando uma conversa pra se livrar de nós.

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November 20th, 2012 at 1:35 am

O homem-lhama – Dia 05

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Hoje foi o dia de deixar nossas suntuosas instalações em Buenos Aires e pegar a estrada. Depois de 4 dias no mesmo hotel, já estávamos nos sentindo em casa, praticamente, e conhecendo um pouco mais da cidade. A região em que estávamos normalmente é chamada de microcentro, e uma volta por suas ruas parece um pouco uma visita ao Pelourinho – você é constantemente abordado na rua por pessoas oferecendo serviços diversos – câmbio a preços mais vantajosos, descontos em restaurantes de churrasco, artigos em couro, shows de tango e também a conhecer as meninas mais lindas de toda cidade, que aparentemente estão em todos os quarteirões. Outro aspecto dessa parte da vida noturna do microcentro também me chamou a atenção: a versão local do que em SP a gente chama de “adesivo de puta” são panfletinhos impressos em uma cor só, que são colocados com extrema velocidade em postes e paredes da área. O camarada vai lá, passa uma cola bastão e cola um bocado só num cantinho, pra o possível interessado retirar e levar. Uma análise comparativa desse tipo de anúncio valeria a pena – em Londres usa-se blu-tack, em SP adesivinhos que são colados inteiros.

Fomos novamente em San Telmo deixar uns discos com a assessoria de imprensa na quarta-feira, e aproveitamos para almoçar num restaurante chamado Desnível, que oferece um bife de chorizo a preços atrativos, e para vegetarianos uma tortilla não muito boa. O ambiente do restaurante é bem interessante, e já está se tornando uma prática habitual se empanturar de pão com Chimichurri antes do almoço. Tomamos também um vinho Santa Julia Malbec que oferecia uma relação custo / benefício super bacana. De lá fomos andando pelo famoso Puerto Madero até a Freddo, uma sorveteria super-famosa (e bem cara) além de um dos passeios em Buenos Aires mais indicados pela minha filha – de fato o sorvete de doce de leite é fenomenal, e você esquece por alguns instantes que acabou de gastar dez reais num sorvete de duas bolas.

O Puerto Madero é uma região portuária renovada com diversos estabelecimentos voltados para pessoas com dinheiro para gastar. O projeto urbanístico é bem bonito, apesar da pegada Dubai que já se estabelece do outro lado do rio / canal / o que quer que seja aquela água ali, onde inclusive estão ancorados uns dois navios antigos cuja visitação é aberta ao público. Na prática, o Freddo fica bem próximo do final da Corrientes, que é uma rua do lado do nosso hotel. Voltamos pela Lavalle com o sol na cara, e de fato, assim que adentramos o microcentro começou a ladainha de churrasco, meninas, couro…. Na esquina da Lavalle com a Florida fica um camaradinha tocando guitarra por cima de um playback – cujo repertório passa por diversos estilos, e que está sendo cotado para entrar no vídeo que vai ser gravado semana que vem – e nessa hora ele estava tocando com um amigo saxofonista. Passamos numa livraria na Suipacha que tinha uns discos de vinil pra vender, inclusive um de Fagner e um de Djavan, onde eu comprei uma edição dos manifestos surrealistas do André Breton, em francês, por uns 20 pesos, o que serviu pra compensar o sorvete.
buenos aires #1

E finalmente ontem fizemos o primeiro show por aqui, no famoso Club Niceto. A platéia era majoritariamente brasileira, o que facilitou o nosso serviço e também fez com que o set se estendesse um pouco a mais do que tínhamos planejado. Tocamos num palco bem pequeno, o que rendeu um encontro meio impróprio entre a cabeça de Felipe e o meu baixo em um determinado momento, mas fora isso não tivemos maiores contratempos. Coincidentemente “Splash Shine” voltou pro repertório, e eu aproveitei a versão impromptu para tocar uma parte do solo de 7 cordas feito originalmente pelo saudoso Rafa Pirulito, e que eu combinei de deixar no dedo pra dividir essa seção da música com Marcelo.

Voltamos pro Hotel após o show, e descobrimos que não havia energia elétrica, então toca subir todo o equipamento um andar de escada. Uma jogatina pesada de Banco Imobiliário se estabeleceu no nosso quarto, onde aproveitamos para tomar o resto das cervejas que tínhamos comprado na noite anterior, mas eu durei pouco e fui logo pra cama. Aparentemente Brigídio e Felipe estão com um jogo super-empatado para terminar em algum momento, com cada um tendo muito dinheiro e metade das propriedades do tabuleiro.

E hoje um ônibus muito louco apareceu para nos buscar e virmos para Rosário, mas isso fica pro próximo capítulo, que hoje ainda tem show pela frente.

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November 16th, 2012 at 5:59 pm

O homem-lhama – Dia 02

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Nos últimos tempos, por assim dizer essa era recente de redes sociais, as pessoas tem usado muito o recurso de criar imagens que combinam fotos, textos e outros elementos gráficos para transmitir algum comentário, idéias, críticas, incitar o ódio contra algum grupo social específico, enfim, essas coisas tão pertencentes à espécie humana. Dentro dessa prática há uma categoria que não chega a inspirar um abandono total das ferramentas sociais contemporâneas em mim, como as outras o fazem, que é aquela em que a pessoa coloca 4 ou 6 imagens diferentes para representar visões diferentes sobre o mesmo assunto, seguindo o modelo “Quando eu digo que sou músico, é assim que meus colegas de colégio me vêem”, aí tem uma foto de um mendigo, e assim por diante. Nesse exato momento, poderíamos tirar uma foto dessas para o conjunto “Quando eu saio em turnê”. Na categoria “É assim que minha namorada / esposa imagina que é” certamente haverá um quarto coalhado de modelos seminuas e garrafas meio cheias, e na categoria “é assim que é” teríamos cinco marmanjos usando computadores portáteis em diferentes partes do apartamento, ligeiramente entediados. Seis porque o Vítor acabou de chegar da rua com a droga do momento, um Toddynho. Já eu estou abusando do chá de capim-cidreira que Chiquinho trouxe na bolsa. Felipe descobriu um aplicativo pro iPad que sobrepõe e combina duas fotos ou mais do rosto de pessoas diferentes, criando resultados hilários, e está desde ontem à noite criando versões diferentes de “Zé Vicente”, “Marcelo Chiquinho”, “Chiquinho Felipe” e assim por diante. Já Vicente está construindo ocasionalmente torres de peças de dominó, e às vezes rola uma jogatina de Banco Imobiliário no iPad também, sempre boa de participar, ou de assistir. Descobrimos ontem uma casa de roupas masculinas onde eles trocam dinheiro numa taxa melhor do que as casas de câmbio, e as notas aparentemente são verdadeiras.

Em turnês, um dos grandes desafios para a maioria dos participantes é ocupar o tempo livre sem incorrer em gastos demasiados. Normalmente, todos recebem uma quantidade x de dinheiro por dia para custear as duas refeições além do café-da-manhã que a priori vai ser consumido no hotel / pousada. Na nossa “fatia de mercado”, por assim dizer, esse valor gira em torno dos 25 a 30 dólares por dia, por pessoa, e normalmente recebe-se um adiantamento de alguns dias, ou semanas, dependendo do quanto o tour manager conhece o seu gado. Cada um vai criando ao longo dos anos suas próprias estratégias para administrar essa grana, que varia desde gastar tudo em eletrônicos, sapatos ou discos no primeiro dia e ficar pedindo dinheiro emprestado aos outros o resto da turnê, até economizar ao máximo em detrimento do seu cardápio e talvez até mesmo da sua saúde. Marc Regnier conta uma história hilária sobre um membro do Funk’n'Lata que costumava levar uma mala extra pras turnês cheia de Miojo, que ele fazia na pia do hotel, onde sempre tem água quente. O objetivo era não gastar o dinheiro das diárias para emprestar – a juros, claro – para os demais membros mais indulgentes. Pepê de Cavaleiro, apesar de não chegar a tanto, sabe onde fica o Kebab mais barato de qualquer cidade européia, e já foi visto trazendo quantias exorbitantes de diárias economizadas. Mas nunca emprestou a juros.

De qualquer maneira, não desperdice seu café-da-manhã. Coma, e muito. Há toda uma mitologia ao redor das maratonas de café-da-manhã de André Édipo, em algumas das quais eu tomei parte. Por isso é importante evitar estar de ressaca na hora de ir pro café-da-manhã, pois daí ou você vai perder o café, ou vai comer pouco, e gastar uma grana em coca-cola durante o resto do dia. E por falar em birita, ontem fomos a um bar bem bacana no bairro de San Telmo, chamado Será de Dios, encontrar uma galera que está fazendo a assessoria de imprensa dos shows aqui na Argentina – era dia daquilo que em Recife chamamos de “clone”, você pede e paga por um item, e recebe em dobro. Dessa forma, trabalhamos no clone de chopp Quilmes, e Marcelo e Felipe optaram pelo Fernet com Coca-cola, que é um esporte que os argentinos aparentemente praticam com uma seriedade maior do que a dispensada ao Futebol ou Hóquei. O bar oferece uma sinuca – empenada e com tacos empenados, o que permite que os bons jogadores continuem sendo bons e proporciona uma desculpa decente para os pregos como eu – e uma discotecagem bem povoada por músicas dos anos 90, quando a maioria dos frequentadores era adolescente ou jovens adultos, e em um determinado momento rolou uma sequência específica de músicas do Prodigy, Chemical Brothers e Beastie Boys que por instantes deu a impressão de estarmos numa festa do Mercado Pop no Cais da Alfândega.

Uma coisa que me chamou a atenção em bares e restaurantes aqui na Argentina, além da ubiquidade da Fernet-Cola e de pessoas dizerem a sério que uma banda brasileira de que elas gostam é o Charlie Brown, Jr., é que as pessoas chegam, sentam e CONVERSAM ENTRE SI! Eu contei nos dedos os lugares em que numa mesa com mais de uma pessoa em que os envolvidos estivessem praticando a solidão coletiva do smartphones, mas talvez eu esteja indo aos lugares errados. Nossa tropa não é particularmente propensa a praticar o celularismo radical na rua, mas confesso que essa foi uma triste constatação, de que pelo menos em SP em Recife estamos transitando cada vez mais na forma de zumbis corcundas desatentos.

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November 14th, 2012 at 12:56 pm

O homem-lhama – Dia 01

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Então eis que eu estou aqui pelo Cone Sul com o Mombojó na sua primeira turnê sul-americana propriamente dita, começando na famosa “Paris das Américas”, ou Buenos Aires – apesar de o título também ser defendido por Belém-PA e Cincinatti-OH, além de 23 cidades e localidades estadunidenses que levam o nome da cidade luz. E você que pensava que era só a do filme. Chegamos ontem em BsAs no Aeroparque Jorge Newberry, que é uma espécie de aeroporto Santos Dumont daqui, mais antigo, em constante reforma, e se o piloto vacilar cai dentro do Prata. A região ao redor do aeroporto, e o trajeto que fizemos até o hotel, lembra também um pouco a região central do Rio de Janeiro, sendo que em uma escala maior. O urbanismo é bem semelhante ao daquela região do Aterro na altura da Praça Paris, sendo que é tudo bem maior e reminiscente da pegada Haussmann da Paris Paris mesmo.

Nosso hotel fica na região central da cidade numa rua chamada Tucumán, que por sua vez é o nome de uma região do país mais ao norte, de onde eu conheci um camarada quando eu morava em Bangor, cujo nome eu não sei, porque eu só chamava ele de Tucumán. Ontem fomos jantar aqui junto em uma pizzaria que me pareceu uma mescla do Lamas com a Pizzaria Atlântico, e aproveitar as vantagens de uma relação interessante entre o Real e o Peso, de modo que um litro de cerveja se torna uma coisa super acessível. Tanto que eu resolvi provar uma sidra que tinha lá no cardápio que estava por um preço convidativo e que, se não era assim uma sidra bacana como aquelas que a gente toma nas bretanhas, também não era tão doce quando a famosa Cereser, apesar de vir em uma garrafinha com jeito de champanhe e com rolha, o que obviamente me valeu um breve momento de berlinda.

A equipe Mombojovial nessa turnê é composta por Felipe, Chiquinho, os irmãos Machado, Brigídio – roadie e diretor técnico em geral, Rodrigão – técnico de PA, Marta Moura – tour manager e responsável pela ingrata tarefa de coordenar 8 marmanjos na estrada, e Vitor Salerno – responsável pela documentação desta gira e pelo conteúdo internético da banda. Estamos em cinco num quarto que fica virado para a esquina da Tucumán com a Suipacha, no que deveria ser um big apartamento residencial, visto que o hotel é um prédio de apartamentos reformado, com direito a um vão interno comum a todos os andares, daqueles que em cena de perseguição o cara fica olhando pra cima ou pra baixo para saber onde estarão seus algozes. E de onde dá pra ver o convívio pacífico de carros com pedestres e ciclistas, graças a uma ciclovia marota.

Qual vai ser a desculpinha agora?

Ontem a saída de São Paulo foi relativamente tranquila, com alguns momentos de emoção proporcionados por Brig, a quem coube desta vez o equívoco sempre comum de tentar embarcar para o Mercosul com a carteira de motorista – o que, se não é permitido por lei, deveria, já que a CNH está cumprindo cada vez mais esse papel no dia-a-dia do brasileiro(a). Mas não foi nada que um motoboy não resolvesse, e portanto servisse para gerar a primeira sessão sólida de berlinda da viagem. Enquanto “El Brig” aguardava seu passaporte E seu RG – pra não pecar por falta, fomos averiguar um self-service que abriu lá em Guarulhos no Terminal 1, próximo ao desembarque, em boa hora para atender a nós que andamos de avião mas não somos milionários, como os preços dos alimentos no aeroporto parecem supor. E isso porque um queijo-quente de 7 reais no aeroporto vira um sanduíche barato.

A missão do dia, além de cuidar via internet dos assuntos que ficaram em SP, vai ser achar uma boa casa de câmbio – dizem que o dólar e o real são muito mais valorizados para trocar na rua, mas que o risco é grande de você receber Pesos em notas falsas – então vamos conferir algumas dicas do recepcionista do hotel, e do Físico, que esteve recentemente por aqui, e sendo um homem dos números deve ter um faro mais apropriado para esse tipo de assunto. Em seguida a idéia é ir na Teodoro Sampaio – ou Pigalle, fazendo jus às semelhanças com Paris – daqui, olhar instrumentos e equipamentos musicais em geral. Rodrigão conta algumas lendas sobre compras muito baratas aqui na cidade que merecem ser conferidas de perto. Outros planejamentos da semana incluem visitar a bombonera trajando a camisa do Sport, o famoso passeio no Tigre e em algum momento eu vou tentar direcionar o pessoal para uma visita ao MALBA.

Por enquanto é só. O homem-lhama retorna em breve.

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November 13th, 2012 at 11:37 am

O anão adormecido

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Talvez pela atividade intensa dos últimos meses, talvez pelo narcisismo associado a uma certa visibilidade do meu último post, e muito devido à minha preguiça congênita e também a essa outra página aqui, esse blog esteve inativo desde Novembro passado, e eu prometi que iria reativá-lo após a entrega do meu relatório de qualificação, o que aconteceu no último dia 03. Sendo que aí eu tive que focar no filme do Ruy, e também que puxar as músicas do Mombojó do fundo do meu HD (pasta: linhas de baixo), e todas essas desculpas que sempre arrumamos.

Tanto que eu arrumei uma desculpa pra reativar o blog, que é justamente ter alguma coisa nova aqui para, caso alguém que assista à minha comunicação hoje no XXII Congresso da Anppom – que em algum dia vai estar disponível aqui, mas que eu pretendo também colocar online no jardelmusic.com – queira entrar nesse domínio, que aparece no final da minha apresentação quando eu agradeço a todos pela paciência de me ouvir tagarelar e divergir durante uns vinte minutos. Que é quando eu digo a estes ilustres visitantes que vale a pena eles aparecerem lá pelo Lado A Lado B, que é onde o bicho está pegando na Jardel no momento.

E por falar em momento, eu estou agora em João Pessoa, vindo de Fortaleza em direção ao Recife.

Written by missionariojose

August 28th, 2012 at 12:32 pm

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Sobre cachês, camarões e carreiras

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Durante a semana passada assistimos novamente ao despertar de um gigante, nunca totalmente adormecido, que é a discussão sobre e ao redor do Circuito Fora do Eixo, promovida por agentes de uma porção específica do cenário musical brasileiro atual. Os eventos da semana passada e dessa aconteceram basicamente em torno de uma polêmica que começou entre o Twitter dos meus amigos China e Daniel Ganjaman, e de lá migrou para o blog do China, por conta de algumas colocações que ele fez a respeito do Coletivo, questionando algumas das posturas deste. De lá a discussão enveredou por outros twitters, facebooks e blogs, como o do Bruno Kayapy, que eu não conheço pessoalmente, mas cujo trabalho à frente do Macaco Bong eu admiro muito. Mesmo com toda a dificuldade que blogs com fundo preto e letras brancas proporcionam à leitura, li ambos os textos, e acompanhei em parte as manifestações nas redes sociais.

E qual é o problema do Fora do Eixo, afinal? A grande crítica feita ao FDE, de um modo geral, vem do fato de que na maioria dos festivais e eventos ligados ao Coletivo os artistas participantes não recebem cachê. A isso se agrega a prerrogativa que alguns de seus integrantes assumem segundo a qual pagar cachê para as bandas é desnecessário, pois a banda ou o artista já tem como contrapartida a exposição do seu trabalho a um público novo, em uma praça diferente. Normalmente associa-se essa postura a uma das figuras centrais do Coletivo, o produtor Pablo Capilé que, num golpe do acaso, proferiu em entrevista a lapidar frase “Eu sou dentro da ABRAFIN um defensor de que não se deveria pagar cachê as bandas” comendo camarão à beira-mar no Nordeste brasileiro, o que deu pano pras mangas o suficiente para o efeito John Lennon transformá-lo, em poucos segundos e ao mesmo tempo, numa espécie de Chris Anderson dos trópicos e no Mr. Burns do rock alternativo, para uns e outros de acordo com suas tendências pessoais e particulares.

Um dos fundadores do Coletivo FDE é outro amigo meu, o Fabrício Nobre, atual presidente da ABRAFIN, que conheci há mais de dez anos quando eu tocava no Supersoniques, e fomos tocar em Goiânia no festival Bananada. Nessa época não existiam o FDE nem a ABRAFIN, mas as idéias que levaram à sua criação já estavam pululando por cabeças diversas ao redor do país. Lá no Bananada, tocamos de graça, assim como no dia seguinte tocamos de graça no Gate’s Pub em Brasília, junto com o Prot(o). Digo de graça porque não lembro se algum dos shows deu algum dinheiro, mas se deu certamente não foi o suficiente para pagar o custo das passagens aéreas que nos levaram até o planalto central desse nosso país gigante, cujas dimensões e a falta de estradas decentes são dois dos grandes empecilhos para qualquer produção cultural, ainda mais para o florescimento de uma cena musical independente. Nessa época éramos mais jovens do que hoje, e já ganhávamos algum dinheiro aqui e ali trabalhando – eu mesmo já trabalhava como músico profissional na noite Recifense, e dava aulas de música – e para nós fazia muito sentido investir parte dos nossos ganhos em viagens para tocar de graça pelo Brasil. Nenhum dos membros do Supersoniques ou do Prot(o) na época era casado ou tinha filhos, circustâncias que não se prolongariam por muito tempo, e apesar de não termos sido bandas profissionais no sentido de ganhar a vida com o dinheiro que gerávamos, acho que as duas bandas eram muito boas ao vivo.

Mas voltando aos dias de hoje e à discussão em questão, primeira coisa que me chama a atenção é que está cada vez mais difícil promover um debate entre pontos de vista discordantes na internet. O que acabamos verificando é uma gritaria de um lado e do outro, cada um berrando com seu cordão. Nesse sentido o texto do China deixa bem claro que aquela é uma opinião de um indivíduo isolado que, como é o caso da maioria de nós que tentamos viver trabalhando com música, obtém o seu sustento a partir de um misto de fontes: seu emprego como apresentador da MTV, cachês de shows, venda de discos seus e de outros artistas lançados pelo seu selo, etc.. China não é essencialmente contra o FDE, mas questiona a ausência de cachês, e levanta algumas questões em relação ao uso de dinheiro público através de Leis de Incentivo Fiscal, não só nos festivais do FDE, mas de um modo geral – o que por si só constitui outra discussão tão longa e acalorada quanto. Lendo o texto de Kayapy, e também outros textos anteriores a respeito, como o do meu ídolo de infância João Parahyba, vejo que a questão do cachê é central nessas discussões, e portanto vamos a ela:

Antes de falar de cachê, é importante lembrar que existe uma diferença grande entre tocar de graça e pagar para tocar. Em seu texto, Kayapy levanta um ponto muito importante: o dinheiro – na forma ou não de cachê – não é tudo. Eu mesmo não conheço nenhum músico que decidiu ser músico pra ficar rico. Conheço publicitários, advogados, engenheiros e funcionários públicos, entre outras categorias, que optaram por suas carreiras com foco nos ganhos financeiros que elas poderiam proporcionar, e não me cabe julgar se eles estão certos ou errados. Mas músico profissional, nenhum. Rodrigo Caçapa, que assim como eu é músico em tempo integral e também não ficou rico, tem uma frase que eu adoro, aonde diz que não ganhou muito dinheiro com música na vida, mas que a música “me levou a lugares que nenhuma outra profissão me levaria”. E isso é verdade. O que não quer dizer que todo músico precisa fazer voto de pobreza, como é mister em algumas ordens religiosas.

Hoje em dia boa parte da minha atividade musical consiste em acompanhar outros artistas tocando com a Lulina, com o Trio Eterno e com a Volver. Com todos esses artistas, a minha posição em relação a cachês sempre foi clara desde o primeiro dia: Eu não me incomodo em tocar de graça, desde que seja por um bom motivo. O que configura um bom motivo cabe a mim e ao meu contratante decidir, dentro da nossa própria realidade. A segunda parte do meu contrato diz que eu não tenho condições de pagar pra tocar. Eu já paguei pra tocar um bocado na minha vida/carreira. Já carreguei muito amplificador pela rua do Sol em Olinda, e no ônibus Maria Farinha / Casa Caiada , indo e voltando do Famas & Cronópios – Pocoloco pra tocar de graça. Já fui roadie de perna engessada pro Jorge Cabeleira no BHRIF em 1994, e comecei a fazer PA assumindo os faders no show dos Dead Billies no Abril Pro Rock em 1997. Eu estive lá e ganhei a camiseta, já tão usada que se esfarrapou – junto com uma camisa do Eddie autografada pelo Lee Ranaldo e pelo Steve Shelley.

Acontece que hoje em dia, eu não posso mais pagar pra tocar, seja sozinho, seja com a minha banda, seja com os artistas que eu acompanho. A minha vida hoje em dia não permite, pois tenho algumas obrigações que assumi, de bom grado, ao optar por ser pai, ser marido, e buscar minha subsistência ao estudar e ensinar música, tocar e compor. Também acho que não há nada de errado em querer trabalhar com música e não viver dependurado na Serasa. Houve uma época em minha vida que eu podia passar 5 dias num ônibus pra chegar em outra cidade, tocar pra quem quer que lá estivesse, comer um feijão com arroz na casa dos camaradas, fumar um baseado com a rapaziada e dormir onde desse, pra depois repetir a dose, arcando com os eventuais custos que sobrassem pra mim. Mas essa época passou, e eu sou muito feliz com a vida que eu levo hoje em dia. Ela me permite que eu toque de graça, mas não me permite gastar com isso, pois o dinheiro que me sobra, quando e se sobra, eu prefiro investir em outras coisas.

É importante lembrar que o mercado musical brasileiro não se restringe à circulação de bandas de rock ou pop, muito menos de rock independente e/ou alternativo. Existem muitos músicos, e existem muitas músicas, e para cada contexto, as questões de logística, de mercado e de demanda variam um bocado. O Macaco Bong é um trio que pode tocar em qualquer lugar em que haja uma bateria, um amplificador de baixo e um amplificador de guitarra. Isso é ótimo, mas essa mobilidade não é compartilhada por todo mundo. O caráter solidário e colaborativo do Coletivo Fora do Eixo é louvável, mas é importante lembrar, ao estruturar uma grade de programação de um festival de música, que nem todo mundo é banda de rock, e nem todo mundo tem a disponibilidade de investir dinheiro e tempo para participar de um evento que vai gerar somente dividendos não monetários. Na teoria, cabe a cada organizador de festival e a cada músico / artista decidir se vale a pena. Na prática, vemos que quem topa a parada são bandas de adolescentes de todas as idades, e bandas cujos integrantes trabalham em outros meios, que permitem esse investimento. Nada de errado com isso, mas esse perfil não delimita a produção cultural independente do Brasil como um todo.

O processo de produzir um festival é custoso e longo. Num país dominado por uma burocracia morosa e por impostos – literalmente – leoninos, a idéia de usar uma moeda paralela durante a vigência de um festival – como é o caso das Patativas ou do Cubo Card, tem o seu valor pois serve de incentivo para que donos de estabelecimentos comerciais colaborem com a alimentação e hospedagem dos participantes, sem que precisem pagar imposto, por exemplo, sobre uma movimentação onde não houve arrecadação. E ajuda também a organizar a bagunça que naturalmente se instaura quando músicos longe de casa se encontram num bar e podem beber de graça. Agora volte algumas linhas para a parte onde eu escrevi “durante a vigência de um festival”. É importante que ambos os lados da discussão se lembrem que esta é uma contingência válida tão somente para este fim, e nesse sentido ajuda de certa forma a promover o encontro de agentes produtores de todo o país num mesmo local, ouvindo e tocando música bacana. Mas se algum dia eu receber o meu cachê em Patativas o custo de levar minha família pra almoçar nos arredores do Dragão do Mar, onde elas são aceitas,  seriam proibitivos.

Eu particularmente acho que se a idéia é não pagar cachê para quem vai estar tocando em cima do palco, então todo mundo tem que ser voluntário na mesma medida. Todos os artistas, técnicos e produtores deveriam ter seus custos cobertos pelo evento, para poder fazer a sua parte sem gastar nada com isso. O complicado é quando uns ganham dinheiro para fazer o seu trabalho, e outros tantos não. Se a visibilidade, a articulação profissional e a experiência são os proventos que podemos receber em eventos dessa natureza, tudo bem, mas que o músico não seja o único a ter que viabilizar o seu sustento a partir da complexidade desse processo. Ainda nessa temática, e conectando com o Kayapy, acho complicado a postura de tentar definir o que é “Músico de Verdade” para as multidões, como se fosse um verbete de um dicionário ou enciclopédia. Acho que a Ordem dos Músicos já fracassa o bastante nesse sentido para servir de exemplo. Certamente eu e você e o Kayapy temos nossas maneiras de interpretar quais os músicos que fazem música relevante pra nós, e eu creio que esse julgamento pode e deve parar por aí. Conheço muitos músicos excelentes que vivem felizes como músicos de estúdio, e acompanhando outros músicos – como sidemen ou sidewomen, porque é fundamental lembrar que também existem mulheres que dedicam suas vidas à música. Eu não li o Diário Oficial da União no dia em que baixou a portaria informando que o músico é menos músico por acompanhar outros, ou gravar mais do que tocar ao vivo.

Voltando à primeira coisa que eu falei, o que eu acho que está faltando não é só cachê, é discussão aberta, conversa. Colocar as cartas na mesa sobre FDE, sobre ABRAFIN, sobre o dinheiro público, sobre como toda essa energia, tempo e dinheiro podem ajudar no processo de construir um circuito musical em que possamos divulgar nossa produção sem depender de rádio, TV, jabá, Faustão e Rodrigo Faro. Porque daí vai vir a consolidação de um mercado, de um público, que podem gerar algum dinheiro, pois dinheiro não é tudo, mas em algum momento ele vai precisar existir. Parafraseando o China, eu não posso usar nem o Cubo Card nem as Patativas para pagar a Eletropaulo, ou a pensão alimentícia, então em algum momento eu preciso transformar aquilo que eu sei fazer melhor em moeda corrente. Não acho que isso vai me transformar num mercenário, nem no Eike Batista.

Finalmente, acrescento que eu particularmente acredito e gosto muito da expressão “Artista igual Pedreiro”, por vários motivos. Primeiro por entender que ambas as categorias são fundamentais para a estruturação de qualquer sociedade. Segundo pois vivemos nós, pedreiros e artistas, literalmente daquilo que construímos dia após dia – todo artista e todo pedreiro sabem o quanto custa um dia de folga. Mas o pedreiro, normalmente, não trabalha de graça.

Written by missionariojose

November 21st, 2011 at 11:30 am

A televisão e a questão da pimenta no alheio

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Uma das (poucas) vantagens de se trabalhar demais é a oportunidade de parar de ver televisão. Eu sempre me dou conta disso em salas de espera de consultório, um dos poucos lugares onde eu ainda assisto o que quer que esteja passando na TV. E hoje de manhã não foi diferente, no caso se tratava do consultório do dentista da minha filha, e o programa em questão era o da Ana Maria Braga, seja lá qual for o seu nome, em que ela e o Louro José – o papagaio acusmático, segundo a Heloísa Duarte Valente – apresentam uma crônica bem-humorada da nossa sociedade, sob o ponto de vista do Botox.

McLuhan: “iPad? Agora é que a vaca vai pro brejo, Everaldo…”

Aí hoje na Dona Ana estava dando uma matéria sobre um empresário que topou enfrentar um desafio: passar 24 (ou 48) horas sem usar o celular, o iPad ou o laptop, devidamente filmadas pelas câmeras da Globo. Durante esse tempo ele foi falando suas impressões, e no final das contas a grande surpresa dele, e provavelmente de qualquer um de nós que se imponha esse desafio, foi descobrir o quanto a sua rotina de repente se atrelou a “tecnologias” – pois esse era o termo utilizado na matéria em questão, uma palavra que hoje em dia só é menos abusada do que “sustentabilidade” e “reciclagem”. A isso se seguiu um bate-papo regado a café-com-leite e croissants aparentemente quentinhos, e em seguida chegou o Selton Mello pra falar do filme dele, que mais de um milhão de pessoas já viu e eu provavelmente só vou ver com os meus netos.

O que me chamou atenção nessa matéria foi um detalhe: a esposa do camarada disse que foi muito legal ele ficar sem usar o celular, porque aí ele ficou mais disponível para assistir a novela e o Jornal Nacional junto com ela, já que todo mundo sabe que a televisão é uma tecnologia tão arcaica – provavelmente anterior à própria roda – que nem merece mais ser apontada como tal. Aí pra depositar a cereja no bolo, entra um reclame da Sky – aquela TV a cabo que faz o marido cenográfico da Gisele Bündchen brochar – com um depoimento de uma adolescente afirmando que assistir a jogos de futebol com o pai e o namorado na TV “traz uma união pra família”. Lindo. Então eu me dei conta de que faz mais ou menos uns cinco minutos que a televisão era tida como um elemento desagregador da atenção, que as pessoas conversavam menos em casa, e assim por diante. Isso há cinco minutos, agora a TV é o novo salvador da pátria da família brasileira, o filho do Gabriel Chalita com o Padre Marcelo Rossi em versão eletrônica, praticamente. Deve ser essa minha mania de cochilar, acho que eu cochilei, o cachimbo caiu e o tempo passou. Como assim, cara-pálida?

“Pô, Chatô, dispense…”

Aí eu me lembrei do Marshall McLuhan, que afirma sabiamente que os novos media, ou meios de comunicação, oprimem os demais já existentes, até que se estabeleça uma nova ordem de funcionamento das coisas midiáticas. Uma espécie de exemplo prático foi o que aconteceu quando o JK tentou emplacar a TV Nacional, a versão televisiva da hegemônica Rádio Nacional. O Assis Chateaubriand, então dono da TV Tupi, chegou junto e disse que se a TV Nacional botasse as manguinhas de fora, os Diários Associados iriam soltar todos os cachorros do inferno em cima do JK, que já tinha seus problemas pra cuidar. Na esteira do fracasso da televisão que mal começou, a Rádio Nacional também perdeu seu fôlego e sua moral, mas aos trancos e barrancos está aí até hoje, irradiando em amplitude modulada e pela internet.

Só que oprimir a Rede Globo talvez seja um pouco mais difícil numa frente tão fragmentada como essa constituída pelas “tecnologias”, por espalhadas que estão em geringonças de tamanhos diferentes e funções que ninguém sabe exatamente dizer quais são, e que fazem com a nossa atenção EXATAMENTE A MESMA COISA que a televisão faz, só que de modo mais eficiente. Nem o Leonel Brizola, nem o Nem conseguiram se constituir em vilões tão adequados. Já estou esperando a chamada no Fantástico, ou no Jornal Nacional, e a corrente de e-mail com uma pesquisa do Hospital John Hopkins.

Aliás não, que eu tenho coisa melhor pra fazer, e acho que a minha esposa concorda com isso.

Written by missionariojose

November 17th, 2011 at 11:51 am

Pra que serve ser o melhor, se o pior é mais bacana?

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Encontrei hoje uma lista super legal de filmes clássicos que já estão no domínio público, e qual não foi a minha surpresa ao descobrir que entre eles está ninguém mais, ninguém menos que “Plan 9 from Outer Space”, provavelmente o maior consenso no que diz respeito a qual é o pior filme de todos os tempos. Sem mais delongas, senhoras e senhores, ei-lo:

Written by missionariojose

November 10th, 2011 at 11:55 am